Se mais provas fossem precisas sobre a relevância da PlayStation Vita no catálogo atual da marca, o lançamento de Gravity Rush 2, a sequela de um dos mais adorados - embora eu não partilhe tal opinião - títulos de lançamento da portátil, em exclusivo na PlayStation 4, pode facilmente ser visto como o último prego no caixão da mal estimada sucessora da PSP. Já se sabia há muito que a nova aventura de Kat teria como destino a atual consola caseira e o lançamento de Gravity Rush Remastered serviu precisamente para introduzir a série a uma nova audiência de jogadores, contudo, não lançar a sequela na plataforma onde tudo começou continua a ser uma decisão questionável.

Reclamações de um fã acérrimo da portátil da Sony à parte, é inquestionável que o poderio extra da PlayStation 4 foi aproveitado ao máximo para tornar esta sequela mais ambiciosa e espetacular que o título original. Gravity Rush 2 tinha pela frente a difícil tarefa de me convencer da real valia da série e do porquê de ter amealhado uma simpática legião de fãs depois de Gravity Rush na PS Vita e na PS4 não o terem conseguido fazer. Infelizmente, mais de 20 horas de jogo depois, posso afirmar que, mais uma vez, saí desiludido de uma obra que retém os principais problemas do jogo original, corrige uns e adiciona outros ao cerne da sua experiência.

Imagens Gravity Rush 2 Analise

Tal como o seu antecessor, a sequela protagonizada pela Rainha da Gravidade volta a pecar na diversidade do conteúdo que oferece. Sim, é certo que o número de atividades secundárias é elevado e que a realização de tudo aquilo que o título coloca à disposição de jogador aumenta significativamente a sua longevidade, contudo, estamos perante um exemplo perfeito de quantidade ao invés de qualidade. Ter várias missões secundárias e tesouros espalhados pelo mapa serve de muito pouco se o jogador não sentir que o seu tempo está a ser bem utilizado.

De uma forma geral, as missões secundárias do jogo tendem a ser mais fastidiosas do que propriamente divertidas, com algumas delas a estenderem-se durante longos períodos de tempo sem que haja grande justificação para tal. Dito isto, é importante mencionar que a produtora parece ter ouvido as críticas ao jogo original e esforçou-se para lhes conferir uma maior diversidade de objetivos, evitando assim que 90% do jogo seja passado a combater com os mesmos inimigos vezes sem conta. No entanto, a alternativa não é muito melhor, uma vez que o título usa e abusa de fetch quests e de missões que passam por encontrar determinada pessoa, objeto ou local numa vasta área através de fotografias que vos fazem andar às voltas durante largos minutos e que servem sobretudo para aumentar artificialmente a duração do jogo. De referir que este tipo de missão está presente tanto em objetivos secundários como em missões principais, pelo que não são fáceis de evitar.

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Este é sem dúvida o principal problema de Gravity Rush 2. A fraca originalidade e diversidade das atividades e dos objetivos que propõe ao jogador não acompanha o potencial da sua jogabilidade. Manipular a gravidade para se movimentar pelo cenário continua tão satisfatório como no passado e fazer uso desse poder para dizimar os vários inimigos com um leque simpático de truques e habilidades volta a proporcionar momentos de combate com elevada espetacularidade e é agora mais inteligente na forma como incentiva os jogadores a utilizarem diferentes ataques para dizimarem os oponentes. Mas nada disto se traduz numa experiência capaz de se manter fresca durante longas sessões de jogo, muito pelo contrário, até porque o jogo limita, por diversas ocasiões motivadas pela narrativa, os poderes à vossa disposição.

Apesar do poder de Kat e as diferentes habilidades que oferece ser o melhor elemento da obra e, de longe, o departamento menos necessitado de melhorias e de maior diversidade, a produtora optou por introduzir novos estilos de gravidade para variar um pouco a jogabilidade. Contudo, estas adições são um pouco inconsequentes, já que, excetuando quando o jogo vos força a utilizá-las, foram raras as situações em que optei por utilizar as novas variantes. Se o Estilo Lunar torna a protagonista mais leve e permite ataques mais rápidos e saltos capazes de cobrir grandes distâncias, o Estilo Júpiter faz o oposto e torna os ataques mais poderosos, limitando severamente no que diz respeito à movimentação.

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Embora qualquer adição que sirva para quebrar a monotonia em que Gravity Rush 2 cai com frequência seja bem-vinda, devo mencionar que os segmentos e batalhas em que estava obrigado a utilizar estas variantes foram também alguns dos mais frustrantes que passei com a obra, quebrando muitas vezes o ritmo de várias horas passadas com a gravidade padrão do jogo. Apesar disso, nada me perturbou mais a experiência do que a sempre problemática câmara, que está constantemente a necessitar de ser centrada com o premir do analógico e que não só desorienta com frequência o jogador, como falha várias vezes em capturar a espetacularidade das nossas ações, sobretudo nas batalhas contra inimigos de proporções épicas.

Resumindo, a sequela do antigo exclusivo PlayStation Vita tem uma jogabilidade sólida que apenas é prejudicada por uma câmara errática, mas que nunca consegue transformar-se em algo verdadeiramente memorável devido à constante repetição de objetivos e atividades e à presença de um número gigantesco de missões secundárias desinteressantes e aborrecidas. Gravity Rush 2 não é mau, mas cansa; não mata, mas mói. No fundo, é uma obra que poderia ser muito mais espetacular se a originalidade do seu conceito tivesse também sido aplicada ao conteúdo.

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Para além das missões da campanha e das missões secundárias, o título oferece outros tipos de atividades secundárias, algumas das quais regressam da obra original. As missões de desafio voltam a colocar os jogadores em competição pelo melhor resultado possível, recompensando-os com as sempre bem-vindas gemas preciosas que utilizarão para melhorar diferentes elementos do arsenal de Kat. Ainda assim, aqueles que quiserem obter o máximo de gemas possíveis num curto espaço de tempo podem viajar até às zonas de exploração mineira. Todavia, importa salientar que a atividade mineira, embora útil, está longe de proporcionar uma jogabilidade cativante.

Ainda relativamente à componente multijogador assíncrona do jogo, importa referir que podem utilizar os vossos resultados nas missões de desafio para desafiarem amigos ou jogadores aleatórios, algo que, em caso de vitória, se traduz na obtenção de Dusty Tokens que oferecem diferentes recompensas. O título conta igualmente com um modo fotografia que, para além de permitir a partilha das fotos com outros jogadores, é utilizado como o principal método para encontrar os tesouros escondidos no mapa, ou seja, encontrarão tesouros através das fotografias captados por jogadores, enquanto as vossas próprias fotografias servirão como ajuda para outros. São distrações interessantes, mas que que perdem rapidamente o fator novidade.

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No que diz respeito à narrativa, Gravity Rush 2 não é brilhante, mas é uma melhoria relativamente ao antecessor. Tendo lugar poucos meses após os eventos do título original, a obra faz regressar Kat e a sua ex-inimiga Raven ao papel principal e arranca com a protagonista numa situação precária, separada de Dusty, a gata que lhe confere os poderes de manipulação da gravidade, após ter sido engolida por uma tempestade de gravidade relatada pelos episódios animados Overture que levou também ao desaparecimento de Raven. 

Mais uma vez, não esperem deste jogo uma história recheada de curvas e contracurvas ou de personagens memoráveis, pois tal não é o caso. Contudo, a narrativa introduz algumas personagens interessantes e faz um bom trabalho em manter o jogador investido nos eventos retratados na obra. Pode não ser o suficiente para vos motivar a ultrapassar o cariz repetitivo das missões, mas ajuda, especialmente porque aborda, ainda que de forma leve, temas como a discriminação e a disparidade no tratamento das diferentes classes sociais.

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Infelizmente, a dada altura, o jogo faz-nos regressar até Hekseville, o cenário do primeiro título, e torna-se, sem grande justificação ou necessidade para tal, numa autêntica repetição da história da obra original. Aliás, a familiaridade é tanta que o jogo “acaba” - existe ainda um capítulo adicional após o rolar dos créditos - literalmente com um batalha contra um boss gigantesco exatamente no mesmo local em que combateram o inimigo final de Gravity Rush.

Apesar disso, a qualidade e substância da narrativa foi uma agradável surpresa, mesmo com um terceiro capítulo que não é mais do um versão regurgitada e resumida da história do primeiro jogo, e acaba por ser um dos melhores elementos do jogo. É por isso uma pena que a parte mais interessante da narrativa esteja escondida num capítulo adicional que poderá passar despercebido a muitos jogadores, principalmente tendo em conta que é aqui que a maioria das questões levantadas ao longo dos dois títulos são respondidas. O maior foco na narrativa neste capítulo é, no entanto, um pouco penalizado por segmentos de jogabilidade inócuos.

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Tecnicamente, Gravity Rush 2 é um regalo para os olhos. Com um aspeto visual que aproveita o maior poderio da PlayStation 4 para se aproximar do estilo anime em que se inspira, o título da Sony Japan destaca-se sobretudo pela diversidade de cenários que encontrarão à medida que exploram o mapa de Jirga Para Lhao, um mapa de enorme dimensão e verticalidade, uma vez que vos levará desde as profundezas das favelas onde vivem aqueles com menos possibilidades até ao topo onde os ricos e privilegiados habitam queixando-se dos seus problemas de primeiro mundo.

Proporcionando ambientes de extrema beleza e que faz questão de lembrar constantemente o jogador das diferenças de qualidade de vida entre cada nível deste mundo, Jirga Para Lhao oferece também uma enorme quantidade de locais coloridos e repletos de vida que simplesmente não estavam presentes no jogo original, algo que se torna bem evidente quando regressam a Hekseville. Sem soluços técnicos notórios e com uma banda sonora que acompanha de forma eficaz a aventura, alterando-se consoante a área do mapa em que estão, esta é uma obra de qualidade excelsa no campo técnico. Dito isto, as personagens não jogáveis que dão vida ao mundo de jogo mereciam uma maior diversidade no que diz respeito à sua modelagem.

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Como já referi, Gravity Rush 2 não é um mau jogo, mas tem demasiados problemas para se tornar em algo verdadeiramente memorável. Voltando a demonstrar uma falta de ideias e originalidade na altura de criar um vasto número de missões e atividades interessantes, cativantes e diversificadas, o título cai rapidamente num ciclo de repetição e monotonia que também se encontra presente na obra original. Extremamente bonito, uma narrativa interessante e um combate competente são as melhores características de um jogo que se torna frequentemente cansativo e fastidioso.