Com a PlayStation Vita já na fase descendente do seu ciclo de vida e vendas ainda bastante longe das metas originalmente previstas quando a portátil chegou ao mercado ocidental em 2012, a Sony volta a tomar a decisão de libertar um dos seus mais aclamados exclusivos das amarras que, devido à incapacidade da consola para cativar uma mais vasta audiência de jogadores, têm impedido estas obras de encontrarem um sucesso de vendas mais condizente com a receção calorosa obtida por parte dos jogadores detentores da Vita.

Gravity rush remastered

Depois de Tearaway ter chegado à PlayStation 4 com a designação de Tearaway Unfolded, agora é a vez de Gravity Rush receber o tratamento remastered para se estrear na consola caseira que, mais de dois anos após o lançamento, continua a ver as suas unidades voarem das prateleiras das lojas. Enquanto exclusivo da portátil, o título angariou uma fiel legião de fãs, mas com Gravity Rush 2 cada vez mais próximo no horizonte, o momento não poderia ser o mais indicado para disponibilizar a obra original a um público significativamente mais vasto e voltar a colocar a série no radar dos jogadores.

De forma sucinta, Gravity Rush conta a história de Kat, uma jovem rapariga que perdeu a memória e se faz acompanhar por um misterioso gato que lhe confere o poder de manipular a gravidade. Depois de acordar na cidade flutuante de Auldnoir, a protagonista dá por si no meio de uma estranha tempestade gravítica que fez desaparecer diferentes áreas do mapa e que trouxe consigo uma invasão de criaturas monstruosas denominadas Nevi.

Gravity rush remastered

Com uma duração que pode perfeitamente superar as dez horas de jogo, a campanha da obra produzida pela Project Siren é contada maioritariamente através de caixas de diálogo e curtas cinemáticas que são apresentadas como vinhetas de uma banda desenhada, sendo de salientar o facto do texto estar localizado em português. Infelizmente, a história está longe de ter o impacto desejado e acaba por deixar inúmeras questões levantadas sem resposta, esperando que o jogador se invista o suficiente na narrativa para retirar as suas próprias conclusões relativamente ao passado da protagonista.

Embora Kat seja uma personagem interessante, a vasta maioria das personagens secundárias que são introduzidas ao longo da aventura sofrem por serem unidimensionais e cujo único propósito passa por dar ao jogador novas missões para realizar e assim avançar com a narrativa. Significa isto que, após os créditos terminarem de rolar, apenas uma ou duas das personagens secundárias ficarão presentes na vossa memória, embora em ambos os casos sejam personagens que estão longe de ter o tempo de antena que se calhar mereciam.

Gravity rush remastered

Relativamente à jogabilidade, Gravity Rush na PlayStation 4 permanece praticamente igual à edição original, oferecendo um mundo aberto de dimensões consideráveis e um combate frenético que incentiva o jogador a fazer uso da habilidade especial da protagonista para se manter em constante movimento. Exceto em algumas missões da campanha mais focadas em sequências de plataformas e que envolvem também alguns puzzles ambientais, o vosso tempo no jogo será quase sempre dedicado ao combate de monstros Nevi que se encontram no cenário.

Fazendo uso do L1 e R1 para se movimentarem pela atmosfera graças à manipulação da gravidade, o jogador utilizará esta habilidade para desferir pontapés nas esferas presentes no corpo dos inimigos e que sinalizam os seus pontos fracos, bem como de ataques especiais para provocar danos mais alargados de uma só vez. No entanto, se é verdade que as mecânicas de combate são sólidas e raramente geram frustração no jogador, também é inegável que se tornam rapidamente cansativas devido ao seu inerente padrão repetitivo.

Gravity rush remastered

Sim, porque independente da enorme variedade de inimigos que o título nos coloca como obstáculo, se a nossa abordagem e estratégia perante os mesmos se mantem inalterada do princípio ao fim da aventura, isso significa que a diversidade nos oponentes não contribui em nada para a diversificação do combate. Juntemos a isto o facto de praticamente todas as missões passarem por derrotar a totalidade dos inimigos presentes no cenário, algo que em algumas dessas missões se torna incrivelmente tedioso devido ao exagerado número de Nevi no ecrã, e temos um combate que começa a mostrar cada vez mais fraquezas à medida que o contador de horas vai avançando.

Numa tentativa clara de atenuar esta aparente incapacidade do combate para se manter fresco ao longo da aventura, o jogo oferece novos ataques especiais durante a aventura, bem como a possibilidade de gastarem as pedras preciosas que se encontram espalhadas pelo cenário para melhorarem as habilidades, ataques, barra de saúde, entre outras características de Kat. Ainda assim, estas melhorias servem sobretudo para a protagonista acompanhar o maior poderio dos inimigos nas horas finais do título e dessa forma impedir que essas batalhas se arrastem durante demasiado tempo.

Gravity rush remastered

Para além das missões principais da campanha, Gravity Rush conta também com missões de desafio que podem passar por derrotar o maior número de inimigos num determinado período de tempo ou corridas contrarrelógio pelo mundo de jogo que envolvem o uso da habilidade da protagonista. Como seria de esperar, estas missões servem sobretudo como distrações da campanha principal e testes à habilidade do jogador, estando longe de ser o suficiente para o manter colado ao ecrã. A versão PlayStation 4 inclui também os pacotes de conteúdo adicional lançados na PlayStation Vita que surgem aqui como missões secundárias.

Mais uma vez encarregada da remasterização de um título para uma nova plataforma, a Bluepoint Games voltou a realizar um trabalho de excelência na adaptação de Gravity Rush à mais recente consola caseira da Sony. Se o grafismo era já um dos melhores atributos da obra na portátil, a melhoria das texturas que pautam os diversos cenários que visitarão durante a aventura dá uma nova vida ao mundo de jogo assente num apelativo estilo visual, embora se mantenham os pop-ups que se verificavam na edição original.

Gravity rush remastered

Já a framerate corre sem quaisquer soluços, mesmo quando a ação no ecrã se torna mais frenética e caótica, mantendo-se sólida na marca dos sessenta fotogramas por segundo. No que diz respeito à banda sonora, o título da Project Siren conta com brilhantes temas orquestrais produzida por Kohei Tanaka e que conferem à obra uma identidade muito própria, facilmente identificável com o seu estilo e temática.

Em suma, Gravity Rush é uma sólida experiência de ação e aventura que ao colocar ênfase no combate acaba por sofrer claramente com a falta de variedade no mesmo, tornando-se rapidamente repetitivo e monótono. Uma vez que a narrativa está longe de ser memorável, é bastante difícil que a obra se mantenha fresca e interessante ao longo da totalidade da sua campanha. Ainda assim, no que à remasterizações diz respeito, a versão PlayStation 4 é claramente a melhor edição do título disponível no mercado.