Esta análise fez-me olhar para trás e perceber quais eram as minhas primeiras memórias de um jogo de corridas. Não um jogo de corridas qualquer, aquele que me fez ir para a cama tarde com os dedos doridos; aquela memória em que eu me conseguisse lembrar perfeitamente das imagens que retirei do jogo e ainda me lembro perfeitamente. Não demorou muito a relembrar-me da reta de Donington antes de uma chicane à esquerda. O jogo? TOCA Touring Car Championship na PlayStation original - é certo que poucos meses depois seria publicado na Europa um tal de Gran Turismo, mas antes de experimentar a obra da Polyphony Digital, andava entretido a "raspar" segundos com o meu Volvo modificado.

Depois disso, a Codemasters ofereceu-me a oportunidade de jogar vários capítulos de várias séries de condução, umas mais realistas, outras com uma abordagem mais arcada, moldando o nome da produtora ao género que tanto trabalhou, levando muitos a não conseguir desassociar um do outro. Aliás, tenho quase a certeza que vos demorará algum tempo a pensarem um jogo da Codemasters que não envolva carros e nomes de lendas do rally. E se acabaram de abrir a Wikipedia, obviamente estão desclassificados.

Aqui estamos nós: cinco anos depois de Race Driver: Grid ter chegado ao mercado, a produtora britânica achou que estava na altura do PC, da PlayStation 3 e da Xbox 360 receberem a sua sequela.

Para explicar a minha opinião sobre a sua jogabilidade - sem dúvida uma das caraterísticas mais importantes num jogo de condução, se não mesmo a mais importante - tenho que colocar uma questão: o que vos faz regressar a um jogo deste género? Sim, a resposta mais direta será ganhar as corridas e a sensação que isso provoca, porém, depois de largas horas com GRID 2 a tomar-me conta do tempo, percebi que, pelo menos no meu caso, ser o primeiro a ver a bandeira axadrezada é apenas o destino, quando a emoção está na viagem. Percebi isto quando um dos meus adversários me deu um toque e eu respondi. A emoção de guardar a minha posição e começar a pensar atacar quem estava à minha frente era precisamente o que me fazia regressar. Quando jogado nas dificuldades mais acessíveis, é natural que todas as provas se tornem uma maratona soporífera, mas se jogado na dificuldade certa, há um chispar de adrenalina na antecipação da próxima curva, ganhando o ponto de corda a quem me deixou a porta aberta. Apesar da óbvia destreza necessária, há uma estratégia inerente que ninguém poderá negar. Em todas estas manobras, estas trocas de posições em que muita tinta foi trocada, nunca pensei na vitória, pensei sim em superar-me superando os meus adversários.

A jogabilidade de GRID 2 permite fazer isto porque é parte simulação rígida, parte espétaculo, contudo, consegue encontrar um balanço muito bem conseguido e raramente perde o seu lugar. Os carros têm peso, têm gravitas, ainda que por diversas vezes tenha perdido a traseira, quase nunca senti que deixei a frente numa rocha ou uma porta numa árvore por conspiração do jogo, o que seria extremamente frustrante se estivessem a jogar com a opção dos danos serem mecânicos e não apenas visuais. Quando tudo correr pelo pior, podem sempre puxar o tempo atrás com o regresso da opção Flashback.

O modo principal do jogo dá pelo nome de "World Series Racing", (WSR) e coloca-vos a competir contra pilotos de outros clubes pelos quatro cantos do mundo. Como ninguém nasce uma estrela, começam com uma garagem num barracão e vão subindo até ganharem nome suficiente para serem uma celebridade no panorama mundial. Estados Unidos, Ásia, Europa e até o Médio-Oriente recebem provas com o decorrer das várias temporadas do WSR. Alguns traçados são icónicos e facilmente reconhecíveis. Por exemplo, os traçados citadinos de Barcelona, Paris, Chicago, ou a pista de Portimão, um excelente traçado que fará as delícias de qualquer piloto, seja português ou não.

Contudo, agora em vez de serem pagos em dinheiro, vão ganhando fãs dependo da vossa prestação na pista. Obviamente, com a soma de novos fãs vão desbloqueando novas provas e a consequente progressão na carreira.

As cenas de vídeo que vão aparecendo ocasionalmente para irem relatando a vossa evolução são literalmente em vídeo. A Codemasters fez um acordo com a ESPN e os comentadores que aparecem à frente das câmaras são do programa SportsCenter. Como é apanágio neste tipo de jogos, a evolução pela carreira é refletida no calibre dos carros que vão parar às vossas mãos. Desde um Alfa Romeo ou um Nissan Fairlady até um Pagani Huayra, Bugatti Veyron ou McLaren F1 vão tomando o pulso a vários bólides espalhados por quatro Tiers divididos por performance, ou seja, o Tier 1 é destinado aos carros mais fracos, enquanto o quarto encaixa nove protótipos e carros de sonho.

Além dos traçados e dos automóveis, convém mencionar que durante a vossa campanha no WSR vão ter que mostrar o que valem em vários géneros automobilísticos. Desde as já mencionadas corridas em pistas e traçados citadinos, terão ainda que dominar provas de drifting, eliminação, contrarrelógios e algumas provas - intituladas LiveRoutes - com uma particularidade interessante: o caminho é dinâmico, ou seja, além de perderem o pequeno mapa que vos indica o que têm à vossa frente, as curvas e até o próprio traçado muda com o desenrolar da prova, um pouco a fazer lembrar Split/Second, contudo, aqui não é o jogador que determina se quer ou não alterar o traçado.

Estão ainda incluídas corridas de Resistência, contudo, se estão à espera de passar horas - ou um determinado número de voltas - numa determinada pista, estão bastante enganados. Quando me apareceu esta modalidade, fiquei muito curioso, uma vez que adorei as provas de Resistência de Gran Turismo. Estas provas de "Resistência" não duram muito mais que cinco minutos, o que é bastante desapontante.

Uma breve palavra sobre o multijogador. Designado de GRID Online, é completamente separado da versão a solo, ou seja, aqui ganha-se dinheiro e sobem-se níveis. Os eventos estão divididos por Online, Global Challenges e Rivals, sendo que as duas últimas opções obrigam o jogador a ter - ou a criar - uma conta Racenet. As corridas propriamente ditas decorreram sem grandes problemas de latência, mesmo quando os outros jogadores resolviam transformar a competição em sessões de Destruction Derby.

Tecnicamente, nota-se que GRID 2 não foi feito em cima do joelho. Os cenários são variados e a modelagem dos carros está bastante bem conseguida, mesmo quando deixam metade das peças para trás. De notar ainda que não nos podemos pronunciar sobre o detalhe dos interiores, uma vez que a Codemasters tomou a decisão de eliminar por completo a visão do cockpit, algo que poderá desagradar quem estava habituado a pilotar nessa opção. Outro detalhe que merece reconhecimento é o efeito dado à luz, que ajuda bastante a criar o ambiente caraterístico de cada traçado.

Em termos sonoros, destaque positivo para os sons dos motores que distinguem bem um muscle car de um citadino ou de um protótipo. Destaque negativo para a voz que nos acompanha e "incentiva" durante as corridas. De seu nome Patrick Callahan, está quase ao nível do infame DJ da série Burnout, já que são dele tiradas parecidas com "estás em primeiro, mantém esta posição e ganhas" ou "boa, conseguiste o segundo lugar, tenta ultrapassar o próximo adversário", ou quando passam num checkpoint e ele informa que "boa, isso dá-te mais tempo". Podem não ser ipsis verbis, mas a constatação do óbvio é idêntica.

GRID 2 é um bom jogo de carros. Misturando a simulação com o espetáculo, o resultado é algo que manterá os amantes da série e os amantes dos jogos de condução entretidos durante bastante tempo. O online, apesar de ser autónomo do modo a solo e de algumas funcionalidades obrigarem à utilização de uma conta Racenet, é tecnicamente fluído e deverá ser suportado pela comunidade nos próximos tempos.