Com muitos jogadores a contestar a remoção quase criminosa da opção de jogar em ecrã dividido, ou seja, em modo cooperativo local com os vossos amigos sentados no mesmo sofá, a cena indie tem-se firmado ultimamente como uma das mais importantes secções da indústria para aqueles cujo o "online" não é o método para desfrutar de experiências cooperativas, oferecendo um leque cada vez mais agradável e diversificado ao público disponível para lhes dar uma oportunidade.

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Guns, Gore & Cannoli é uma das mais recentes propostas independentes a encontrar o seu caminho até às plataformas digitais das consolas caseiras, tendo sido lançada originalmente no Steam em abril deste ano. Produzido pela Crazy Monkey Studios, este shoot-'em-up cooperativo é uma experiência curta e agradável que apenas peca pela falta de diversidade da sua jogabilidade que o impede de se tornar uma obra verdadeiramente diferente de todas as outras que coabitam o género em que se inclui.

Claramente inspirado nas mais diversas obras de entretenimento que têm como temática a organização criminosa conhecida como Máfia, o título coloca-nos na pele de Vinnie Cannoli, um enforcer da Máfia italiana que, após ser enviado para uma cidade em busca de um membro da organização que foi dado como desaparecido, dá por si no centro de um apocalipse zombie, cujo início do surto pode estar diretamente relacionado com o caso que o protagonista tem para investigar.

Apesar de a complexidade não ser uma das suas características, a narrativa de Guns, Gore & Cannoli serve-se das teorias de conspiração, constantes reviravoltas e traições, e uma forte componente cómica para se manter interessante durante as cerca de três horas de duração da campanha. Neste departamento, o trabalho de voz é fundamental para manter a história viva e fazer com que a entrega do humor tenha o resultado pretendido, sendo que o jogo não tem medo de utilizar a pronúncia estereotipada e o vernáculo da máfia italiana para efeitos de comicidade.

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Como um verdadeiro membro da Máfia, o vosso tempo no mundo pós-apocalíptico da obra será passado de arma em punho e pronta a disparar sobre todos os obstáculos que se colocarem entre vocês e o vosso objetivo. Enquanto um side-scroller a duas dimensões, o título oferece uma jogabilidade que consiste apenas em disparar, saltar, lançar granadas ou cocktails molotov e chutar, este último serve essencialmente para afastar os inimigos mais próximos da personagem jogável.

Infelizmente, apesar de sólida, a jogabilidade nunca se refresca o suficiente para evitar que caia num ciclo repetitivo. Isto porque a agradável diversidade de inimigos - vários tipos de zombies, exército, gangues rivais e ratazanas gigantes - não significa necessariamente que, para lá da sua variável resistência às balas, obriguem a uma estratégia ou abordagem diferente. Mesmo quando a ação fica caótica devido à quantidade de inimigos no ecrã, a estratégia é sempre a mesma, ou seja, esvaziar o clip de munição até todos sucumbirem aos ferimentos.

Na verdade, o único fator de diversidade da jogabilidade está relacionado com a variedade de armas que vão ficando disponíveis à medida que avançamos na campanha. Desde metralhadoras até lança foguetes, passando por lança-chamas e caçadeiras, as vossas opções em combate apenas ficarão limitadas pela quantidade de munição que tiverem para cada arma.

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Ainda assim, é de notar que algumas armas são claramente demasiado poderosas, como é o caso do lança-chamas, que permite quase correr pelo cenário à la Rambo sem nunca ter de parar para trocar de arma. Juntem a isto mais um jogador no modo cooperativo também equipado com o lança-chamas e fica óbvio o passeio em que se torna o jogo enquanto as munições para a arma durarem.

Para além disso, Guns, Gore & Cannoli conta também com algumas batalhas com bosses, embora sejam em número muito pequeno e também não representem um desafio significativamente diferente do resto da experiência. Preparem-se igualmente para alguns momentos de frustração nos capítulos finais da obra, nos quais terão de sobreviver a um spam intenso de granadas sem fim que rapidamente se torna altamente irritante. Felizmente, os pontos de controlo são frequentes e evitam que a frustração seja maior.

Mas não só da campanha cooperativa se faz a totalidade da obra da produtora independente belga. Isto porque o título conta ainda com um modo competitivo nas suas fileiras. Apropriadamente denominado Mode Versus, este modo jogo coloca até quatro jogadores em confronto, sendo possível adicionar inimigos controlados pela inteligência artificial. No entanto, os mapas pequenos levam a partidas verdadeiramente caóticas que dependem mais da sorte de conseguirem obter imediatamente uma arma mais poderosa que o adversário do que da vossa perícia.

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Como facilmente se percebe pelas imagens que acompanham este texto, Guns, Gore & Cannoli destaca-se sobretudo pelo seu brilhante estilo visual que se apresenta como uma mistura entre desenhos animados e bandas desenhadas. O grafismo com cenários, personagens e animações desenhadas à mão é de longe o ponto alto da obra e funciona bem como contraste à carnificina que vai decorrendo no ecrã. Já a banda sonora acompanha bem a experiência, mas não sairia prejudicada se fosse mais variada.

Assim sendo, Guns, Gore & Cannoli é uma interessante aposta para uma tarde passada a partilhar uma experiência jogável com amigos no sofá, mas dificilmente será uma obra à qual voltarão depois de a terminarem pela primeira vez. O Modo Versus simplesmente não é agradável e a impossibilidade de jogar cooperativamente através de uma infraestrutura online certamente não agradará a muitos jogadores. A arte visual é notável e a curta duração impede-o de se tornar cansativo, mas é claro que o título necessitaria de algo mais para se afirmar como uma experiência obrigatória.