A primeira vez que me lembro de me ter cruzado com um Harvest Moon foi no fim dos anos noventa, numa altura em que ainda tinha a minha Game Boy Color. O divertimento que retirava do jogo publicado pela Natsume era tanto, o mesmo que hoje retiro de Stardew Valley, que ainda é o único que homenageou realmente Harvest Moon. Não é exagero nenhum dizer que Harvest Moon definiu um género, o da simulação de uma vida laboral na agricultura; infelizmente, apesar de ter sido, em tempos, uma experiência notável, agora é sinónimo de aborrecimento de tão desinspirado que continua a ser. One World, a nova entrada na série, não faz nada de particularmente inovador ou bem executado que nos faça recordar os tempos áureos da série. 

Já há bastante tempo que tenho estado atento ao que sai no mercado de videojogos, nomeadamente, se é lançado algum jogo que consiga preencher o vazio que Harvest Moon deixou. Sempre que aparecia um novo "farming simulator" nas revistas que lia só tinha um desejo que repetia para mim próprio, "só espero que seja tão bom quanto o Harvest Moon". Infelizmente, após a Natsume ter ficado com o nome Harvest Moon e os produtores do jogo original terem ido com a Marvelous para criar Story of Seasons, não houve um único jogo que me tivesse deixado tão satisfeito como aquele que joguei na portátil da casa de Quioto. One World só veio sublinhar este facto, visto que a série continua aborrecida e com cada vez menos charme. 

Em Harvest Moon: One World, a premissa da narrativa é muito simples. Aparentemente, toda a gente sofre de amnésia, a única explicação plausível para se terem esquecido de como é que se trabalha na agricultura, como é plantar e cultivar legumes para a nossa alimentação. Por isso, a forma que a vossa personagem encontrou para sobreviver foi ter uma alimentação à base de batatas e café, o que pode parecer estranho, mas, surpreendentemente, há um contexto lógico para tal. Assim, estão incumbidos de descobrir um outro alimento vegetal além da batata. 

Se há algo que One World consegue, sem esforço algum, é deixar quem joga perplexo com o seu mundo. O protagonista tem uma capacidade única, consegue ver, ouvir e falar com pequenas criaturas que o jogo apelida de Harvest Spirits. No fundo, estas entidades divinas são a Deméter de Harvest Moon: One World. Se já houve uma deusa grega associada à agricultura, faz todo o sentido que um jogo como Harvest Moon explore este lado metafísico, podendo assim explicar o inexplicável. 

Nesta aventura, terão de cultivar e recolher outros legumes para outras populações, onde não existe ninguém com inteligência suficiente para trabalhar na agricultura - ou então são todos preguiçosos. Doc Jr. é o vosso vizinho, uma cientista que vos vai dar uma boa ajuda nesta aventura agrária. Esta cientista vai oferecer-vos um aparelho intitulado de Expando-Farm, uma geringonça que vos permitirá levar as vossas plantações para todo o lado, ou seja, vão poder transportar uma quinta inteira de um lado para o outro. Está ferramenta que torna a vossa quinta portátil é muito útil, mas levanta um problema: não vos permite criar ligações emocionais com a vossa terra natal, nem nas outras localizações que tenham de visitar. Acabo por passar o tempo neste jogo pelos objetivos a cumprir, não pelas personagens. 

Para cultivar, seja o que for, têm de ter as respetivas sementes que vos permitem realizar essa tarefa. Normalmente, qualquer jogo deste género coloca uma loja à vossa disposição com preços razoáveis para que possam comprar as sementes que tanto precisam. Em Harvest Moon: One World, comprar sementes é demasiado caro, porque os produtores querem que façamos a recolha de sementes de uma forma menos convencional. Vocês terão de explorar e encontrar pequenas esferas brilhantes conhecidas como Harvest Wisps que têm as sementes dos diferentes legumes que podem cultivar. 

Conforme a altura do ano e do dia, podem recolher diferentes esferas que vos fornecem diferentes sementes, é assim que se obtém a matéria-prima para poderem trabalhar na agricultura. Isto torna One World num autêntico festival de fetch quests, o que condiciona a própria aventura, porque acabamos por só andar de um lado para o outro, como se fossemos um moço de recados, o que não adiciona diversão nenhuma a longo-prazo. Não digo que o jogo não pudesse estar com esta estrutura repetitiva, todos os bons jogos têm um ciclo de repetição, mas não sentimos que somos recompensados, nem há nenhuma contextualização que justifique o facto do jogo estar como está. 

Apesar de não ser recomendado utilizarmos a loja, porque o preço dos seus produtos está muito inflacionado, esta existe. O motivo que levou os produtores de One World a colocar preços tão elevados foi para incentivar a recolher os Harvest Wisps. Esta é uma mecânica que foi, certamente, idealizada durante o processo de desenvolvimento do jogo e que nunca foi experimentada. É que nem os excedentes do vosso árduo trabalho, legumes bem crescidos, chegam para comprar as caríssimas sementes. Mais vale gastar o vosso dinheiro em gado para exploração pecuária. Contudo, para poupar mais algum dinheiro, o melhor é domar animais selvagens em vez de os comprar. 

Não foi preciso muito tempo para conseguir ter, na minha quinta portátil, um cavalo um urso e uma vaca. Porém, não me serviam de muito para além de me consumirem imenso dinheiro com a sua alimentação e como o antigo e sábio ditado popular diz que "mais vale sustentar um burro a pão-de-ló" acabei por vender dois dos meus animais e ficar só com um. É complicado fazer dinheiro em One World, não há forma de acelerar o processo de cultivo, nem nenhuma atividade paralela que nos permita fazer dinheiro extra; por vezes o jogo parece que quer ser propositadamente aborrecido.

Como seria de esperar de uma obra deste género, o tempo passa pelas quatro estações do ano. Bastou-me uma passagem completa pelo modo principal para passar de uma primavera até à próxima. As estações não modificam todas as áreas do jogo, mas há localizações com características específicas, como uma praia ensolarada, uma montanha cheia de neve e um deserto. O frio montanhoso obriga-vos a ingerir comida quente antes de saírem de casa, porque as temperaturas baixas fazem baixar progressivamente a vossa barra de energia. As estações e as várias localizações são uma forma de não nos cansarmos constantemente com os visuais desinspirados do jogo, mas servem apenas para nos mostrar até onde é que a falta de inspiração foi. E, infelizmente, foi bem longe. 

Embora haja uma boa variedade de localizações, o jogo parece não ter vida. Além de todos os sítios por onde passamos estarem vazios e com um design bastante banal, também não se vê vivalma. O mundo do jogo é constituído por caminhos relativamente estreitos para poderem passar pelas várias aldeias, que são formadas por edíficios e casas vulgares, que parecem modelos genéricos que servem para qualquer jogo num mundo tridimensional.

As próprias personagens que habitam o mundo de jogo são feitas de modelos triviais e algumas aparecem e desaparecem sem deixar rasto, sem sabermos para onde foram. O design do jogo é puro amadorismo, a Natsume quis manter a nomenclatura Harvest Moon para entregar algo tão mal feito como One World, não há uma única ponta de brio profissional. 

Sinceramente, se gostam de um bom jogo no género "farming simulator", Harvest Moon: One World não vos vai dar a mesma satisfação do que um Stardew Valley é capaz. Além de ser quatro vezes mais caro do que a obra da ConcernedApe, ainda oferece bem menos do que a experiência que é Stardew Valley. Tenho pena que One World tenha no seu título o nome Harvest Moon, um nome que me provoca tanta nostalgia dos bons tempos passados com o meu Game Boy. Caso estejam cansados de Stardew Valley, joguem, porventura, um jogo da série Story of Seasons, não se cansem com Harvest Moon, há jogos bem melhores.