Numa entrevista à revista Fast Company, Cosima Oka-Doerge, gestor de marketing da Crypton Future Media, afirmou que Hatsune Miku "não é apenas celebrar um ídolo; os fãs estão-se a celebrar a si próprios". Não é preciso muito tempo a jogar Hatsune Miku: Project Diva F 2nd para percebermos o ângulo do seu ponto de vista. Hatsune Miku é um fenómeno chegado de terras nipónicas com pontos fortes que derrubam barreiras de mentalidade, geográficas e linguísticas.

Mas não estamos a falar de um ídolo canónico. Criação da era digital, Miku empresta a sua voz sintetizada às criações dos fãs, algo que aproxima sem precedentes uma diva à vontade de quem a idolatriza. Tudo isto e aquela dose de je ne sais quoi que faz de um ídolo um ídolo, carregaram a criação da Crypton aos ombros, levando-a a ser adaptada a holograma, à semelhança de Michael Jackson e Tupac Shakur.

Isto leva-nos até Hatsune Miku: Project Diva F 2nd, título recentemente publicado nas PlayStation Vita e PlayStation 3 europeias. Como é fácil de adivinhar, estamos perante um jogo de ritmo musical, tal como Elite Beat Agents, Theatrhythm Final Fantasy ou Rhythm Thief & the Emperor's Treasure, três exemplos publicados na Nintendo 3DS.

As mecânicas basilares são simples e permitem a qualquer um pegar num DualShock 3 e começar a experienciar o mundo de Hatsune Miku: Project Diva F 2nd. Na sua definição simplista, os jogadores têm que pressionar o botão de rosto indicado no momento que o grafismo assim o indica no ecrã. Como é tradição, é no encadear dessas indicações gráficas que está o delírio frenético dos jogos de ritmo.

Mas falemos das especificidades de Project Diva F 2nd. Os ícones mencionados no parágrafo anterior aqui são designados por Melody Icons e, como seria de esperar, abrangem os quatro botões de rosto do comando. Curiosamente, podem ser substituídos pela respetiva direção no d-pad, ou seja, se for pedido que pressionem o quadrado, também podem pressionar o botão esquerdo do d-pad; caso for o circulo podem pressionar o botão direito.

De ressalvar que este facilitismo não funciona sempre, pois o jogo não se ensaia nada em atirar para o ecrã de jogo Melody Icons compostos pela letra "W". Quando for o caso, os jogadores terão que pressionar o botão de rosto pedido e o botão do d-pad em simultâneo. Por exemplo, se no meio do ritmo aparecer a indicação triângulo, terão que o pressionar juntamente com o botão superior no d-pad.

E os analógicos também não foram esquecidos. Além dos quatro botões de rosto, Project Diva F 2nd tem ícones em forma de estrela. Quando estes aparecerem no ecrã terão que deslizar o analógico direto ou esquerdo. E, tal como no parágrafo anterior, esta abébia não é aplicável quando a estrela tem a letra "W", que obriga a deslizar os dois analógicos em simultâneo.

Finalmente, importa versar sobre as Technical Zones, onde se acertarmos em todas as combinações, vemos o medidor que avalia a nossa prestação em determinada música aumentar. As partições designadas por Chance Time permitem ao jogador ir enchendo um segundo medidor em forma de estrela no canto esquerdo do ecrã. Se o conseguirem encher durante a música, o jogo promete recompensar-vos com um bónus no final do trecho.

O medidor principal mencionado é que determina o vosso sucesso em determinada música. Além do básico, temos ainda oportunidade de obter uma classificação mais distintiva, caso "tenham unhas" para recolher os Diva Points suficientes. E parte da diversão está na recompensa da vossa prestação, ou seja, novas músicas, novos fatos e itens. De salientar desde já que o catálogo é extenso e é minimamente competente na motivação de querer fazer mais e melhor.

Mas o cerne de Project Diva F 2nd não está no acessório. Pelo contrário, a pedra basilar é a sua jogabilidade. Saídos do tutorial, é altamente provável que demorem algumas tentativas até assimilarem as mecânicas de jogo. Pessoalmente, a minha estratégia é praticamente sempre a mesma: repetir a mesma canção até os processos começarem a ser interiorizados e, eventualmente, automatizados.

O jogo não se ensaia muito para provar que não valem tanto quanto pensam. A minha primeira tentativa foi experimentada no modo normal de dificuldade e foi um desastre. Este "normal" requer a vossa atenção e empenhamento total, ou seja, comecem o vosso treino pós-tutorial em Easy e só depois comecem a escalar os restantes modos de dificuldade: Normal, Hard e Extreme. Seja como for, é inequívoco e clarividente que Project Diva F 2nd é um jogo exigente e castigador.

Ainda que seja ocasionalmente frustrante, a sua fibra é a dos grandes jogos de ritmo: deixar sempre o jogador com a esperança que é capaz de superar o jogo e de se superar a si próprio. Nos vários exemplos que dei no início da análise - e aos quais se poderia juntar Guitar Hero e Rock Band - existe um denominador comum: aquela réstia de que agora é que vai ser, agora é que vai contar, mesmo depois dos inevitáveis recomeços, das falsas partidas que facilmente atribuímos ao gato, ao alinhamento dos planetas, ao comando, à consola, à televisão, à sala, enfim, a tudo e a todos menos a nós mesmos.

Mais: Project Diva F 2nd conseguiu várias vezes inaugurar uma discussão entre o meu cérebro e os meus dedos. Sabem, aquele sentimento que os jogos de ritmo conseguem imputar adjacentemente às dificuldades mais elevadas, em que os olhos conseguem ver o que está a aparecer no ecrã e não o conseguem comunicar atempadamente à destreza das falanges.

Infelizmente, este fado de recomeçar canções não é para todos os jogadores. Não que sejam mais fracos por atirar a toalha ao chão antes da 20ª tentativa, mas sim pela frustração de repetir uma canção de 3 minutos durante uma hora para tentar chegar um pouco mais longe. Não seria um erro se Project Diva F 2nd fosse um pouco mais acessível, algo que ressoará de forma mais explícita nos estreantes no género.

Então, apesar da dificuldade espevita e da atrapalhação inicial, as mecânicas estão de boa saúde. Contudo, não são o único motivo que elevam o jogo à nota que provavelmente já viram. O outro grande trunfo de Project Diva F 2nd é a seleção de músicas. Não é o meu género, não é o tipo de música que está no top do meu Spotify, aliás, está quase no lado oposto do espectro, contudo, a verdade é que funciona extremamente bem no jogo.

Não precisam de perceber japonês para sentirem o ritmo ligeiro, divertido e extremamente catchy. É verdade que podemos colocar as legendas em inglês, mas nem é necessário: o ritmo fala uma linguagem universal. O J-Pop é capaz disso, algo que aliado às vestes e cabelos coloridos; algo que juntamente com os vídeos que vão passando como pano de fundo; algo que somado a um espetáculo pirotécnico que não conhece a palavra contenção resulta nisto: um ecrã ininterruptamente cheio de boa disposição. Não é algo que ouça, por exemplo, enquanto escrevo estas linhas, mas é algo que, como já disse, resulta no contexto.

Além do jogo de ritmo musical, Project Diva F 2nd permite um ligeiro contacto com quem o jogador eventualmente idolatrará. No modo DIVA Room podem oferecer presentes às protagonistas, ou seja, Miku e companhia. O processo é simples: visitem a loja do jogo - onde podem comprar itens de personalização, skins e itens decorativos - e comprem, por exemplo, um sumo de laranja, um relógio ou uma televisão, porque não um Cyberpod? A Luka parece ter ficado encantada com o meu ramo de tulipas.

É impossível analisar o jogo sem mencionar que a amizade de Miku, Luka e companhia é conquistada esfregando-lhe a cara até a personagem ficar satisfeita. É uma amizade que vai sendo conquistada e que não pode ser apressada. São tudo temas satélite do que verdadeiramente interessa e onde está a génese do jogo, mas é claro que a produtora quer fidelizar o jogador com um chorrilho de desbloqueáveis em cadeia.

O grafismo do jogo é cativante e, como já foi descrito, preenchido por cores e efeitos que não destoariam num vídeo de qualquer estrela pop. Contudo, o mais provável é que a sua maioria passe ao vosso lado enquanto estão concentrados na incessante linha de ritmo. Não há problema: acedam à opção Studio e podem ver a sua performance sem distrações. Até podem ir alternado entre as várias câmaras.

Mesmo com vários complementos supérfluos, o importante é que Project Diva F 2nd é um bom jogo de ritmo musical. As mecânicas correspondem, as 40 músicas encaixam bem e, sobretudo, é divertido e anseia o regresso do jogador. Sim, é exigente e sim, ocasionalmente frustrante. Contudo, nunca o é em demasia, ou seja, nunca se apresentou como uma parede intransponível, capaz de derramar a vontade do jogador em continuar.