A taberna virtual está aberta, as mesas estão postas e o ambiente encontra-se finalmente no ponto de rebuçado. Jogadores de todos os patamares de qualidade juntam-se na disputa por cada nova partida, desejosos de reunir novas cartas, aprender novas combinações e conseguir embrenhar-se de forma cavada no universo inexplorado de HearthStone: Heroes of Warcraft. Depois de vários meses de porta fechada, o estabelecimento da Blizzard Entretainment está agora aberto ao público, pronto para se tornar num dos lugares mais movimentados da indústria dos videojogos durante os próximos tempos.

Para os que se enganaram na porta e intentam saber o que é que se passa em HearthStone, o conceito é bastante simples - trata-se de um jogo digital de cartas colecionáveis, um pouco ao estilo de Magic: The Gathering, em que as personagens, ataques, monstros e feitiços são baseados nos títulos anteriormente produzidos pela Blizzard. Para aqueles que se estão neste momento a questionar em relação à necessidade de terem jogado uma destas obras, não se preocupem. Podem ser uns completos recém-nascidos a dormir no berço da produtora californiana e continuar a desfrutar da essência que aqui se serve. Mesmo que uma pequena parte da magia vos escape por não entenderem algumas das relações entre as personagens, HearthStone continuará a apresentar-se diante de vós como um jogo esplêndido dentro do seu género.

Ao entrarem neste mundo e darem por vós embrenhados numa combinação de centenas de cartas, vários heróis e imensas mecânicas de jogo por explorar, poderão sentir-se vagamente perdidos. O tutorial inicial poderá dar-vos uma pequena ajuda, mas a partir daqui terão de usar os vossos próprios meios para adquirir o máximo de conhecimento possível, que vos permita desenvencilharem-se suficientemente bem para não serem esmagados quando tentarem escalar as tabelas classificativas do jogo.

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Conforme já tinha descrito exaustivamente na antevisão do VideoGamer Portugal ao jogo, HearthStone baseia-se em partidas jogadas entre dois jogadores em que o objetivo consiste em reduzir a vida do adversário até zero, utilizando para isso as diversas cartas no nosso baralho, sejam elas lacaios, feitiços ou armas. Os modos de jogo podem ser divididos pela rama em dois grandes grupos. O primeiro chama-se "Play Mode" e é onde se insere o modo de jogo classificado que fará a distinção entre os melhores e os piores jogadores através de "Rankings", e o modo de jogo casual onde poderão testar os vossos baralhos sem a pressão de estarem a jogar a valer. Já o segundo tem mais que se lhe diga. Trata-se da "Arena", modo de jogo em que terão de construir um baralho através de cartas aleatoriamente providenciadas pelo sistema, jogando depois contra jogadores na mesma condição numa jornada que vai durar até que somem três derrotas. Depois disto, terão acesso a prémios variados atribuídos através da análise da vossa prestação em termos de vitórias.

Talvez pareça demasiada informação para uma pessoa que ainda agora deu a mão a HearthStone, mas não é necessário muito tempo para que tudo comece a fluir com uma espontaneidade assombrosa. Logo após o desbloqueio de todos os heróis e de terem conseguido as vossas primeiras vitórias, tudo o que o jogo tem para prestar chega até vós como uma cascata. Certo é que a curva de aprendizagem não será propriamente pequena, mas esse detalhe dever-se-á, em termos absolutos, à quantidade desmedida de mecânicas para desbravar, feito que apenas a experiência acumulada através das várias horas de jogo vos poderá conceder.

Uma das grandes virtudes de toda esta maratona está relacionada com a diversidade de situações com as quais poderão ser acareados. Cada um dos nove heróis à disposição oferece um estilo de jogo único, distinto de todos os outros. E inserido nesse determinado estilo de jogo, ramificam-se as numerosas mecânicas de jogo das quais se poderão servir para levar a vossa vitória a bom porto, numa liberdade que poderá levar os mais intrépidos a situações de meta-gaming ponderadas de forma exaustiva,com uma infinidade de combinações que vão garantir que cada madrugada de jogo se revela mais interessante do que a que lhe antecedeu.

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O melhor quinhão de toda a experiência também se deve em parte ao facto de a jogabilidade nunca deixar muito a desejar. E uma das vantagens de ter acompanhado a evolução do jogo desde uma fase precoce da Beta passa pela retrospetiva passível de ser feita neste momento, que nos consegue elucidar ainda mais em relação ao patamar considerável em que o jogo se encontra neste momento. À jogabilidade fluida e acessível de sempre junta-se agora uma lista de erros significativos praticamente vazia, em contraste com a situação de alguns meses quando praticamente todas as partidas era marcadas pela ocorrência de um ou outro erro que poderia condicionar ligeiramente a prestação dos jogadores. Para alegria da comunidade que se formou deste então, estas situações parecem ser agora águas passadas de baixo da ponte.

Apesar de tudo, o título não está livre de sofrer alguns tropeções. Livre de falhas técnicas de maior importância, o amealhar das horas em HearthStone acaba por ser o derradeiro juiz na exposição à vista de pequenas fragilidades no que toca ao balanceamento das cartas. Certo é que a Beta provou ser crucial na eliminação de pontas soltas, através do constante trabalho de equipa entre o estúdios e os fãs dispostos a contribuir para a criação de um melhor ambiente de jogo, mas ainda sobejam algumas minudências que continuam a ser alvo de debate aceso por poderem oferecer uma forma de vantagem injusta para determinados jogadores, quer se tratem de mecânicas de jogo ou cartas propriamente ditas. Felizmente, a Blizzard tem se mostrado inexorável perante este tipo de situações, efetuando um exame atento e disponibilizando de forma frequente atualizações para corrigir e balancear este tipo de problemas. Quem, como eu, acompanhou o desenvolvimento progressivo ao longo dos últimos meses pode dizer, com convicção, que o jogo está agora num patamar claramente superior.

É certo que algumas ausências ainda continuam a deixar uma lacuna por preencher, como é o caso da carência de um possível modo de espectador, ou da adoção de novas formas de granjear "Gold", a moeda do jogo que permite que comprem novos boosters de cartas ou acedam ao já explicitado modo Arena. Já que mencionei esse ponto, posso também referir que todas estas ações podem ser continuamente executadas ao abrigo das microtransações, aqui implementadas de forma hábil por parte da equipa de produção. A linha que separa a imprescindibilidade de recorrer a esse serviço está posicionada com mestria suficiente para que os jogadores não sintam que quem a eles recorre tem uma vantagem óbvia, feito conseguido pelo ritmo com que o Gold pode ser ganho de forma gratuita a cada dia.

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Heroes of Warcraft é o tipo de jogo que não carecia de uma componente visual exageradamente forte para continuar a vincar a indústria. Apesar disso, funcionando como ouro sobre azul - literalmente, basta olhar para o logótipo do jogo - todo o grafismo apresentado ao longo dos menus, animações e todo o tipo de pormenores está pensado até ao mais ínfimo detalhe. Não interpretem mal, esta componente foi trabalhada de forma simples e sem floreados desnecessários, mas o somatório global reflete a forma como cada pormenor encaixa no seguinte, construindo um conceito de arte genuinamente característico, responsável pela atribuição de um apanágio único que serve de regalo para os olhos, principalmente depois das atualizações que acompanharam o lançamento da fase final do jogo.

A componente sonora também merece nota positiva, ainda que se possa tornar algo repetitiva para um jogador que regresse todos os dias. Os sons caraterísticos de algumas das obras da Blizzard são organizados em conjunto com uma banda sonora original composta sob a batuta de Peter McConnell, num trabalho global que contribui - em muito - para a criação de um espírito único associado ao jogo. A forma como as animações e as falas das personagens encaixam sobre os aprazíveis tons demonstra em cada tempo musical a importância outorgada a esta componente tantas vezes segregada noutras obras do género.

E se até aqui tínhamos testemunhado um crescimento surpreendentemente veloz para uma comunidade que começou por ser apenas um nicho de jogadores que tiveram visão suficiente para, desde cedo, dar crédito ao jogo da Blizzard, com o lançamento oficial há alguns dias os números registados por essa Internet fora avançaram a um ritmo exponencial. As páginas inteiramente dedicadas ao jogo multiplicaram-se, os fóruns encheram-se de novas mensagens, os torneios atingiram o seu pleno e os Streamers quase profissionais parecem ver agora a sua vida mais facilitada. A comunidade criada à roda da obra da Blizzard tem deixado o seu cunho em serviços como o Twitch, num fenómeno que deverá deixar os criadores com o pundonor no máximo.

Por agora, HearthStone acabou de ouvir o tiro de partida ser disparado. As bases sólidas estão no seu lugar, o jogo está equilibrado e é agradável de ser jogado, tornando-se rapidamente viciante. Agora resta que nos recostemos na cadeira e observemos a Blizzard a fazer o seu trabalho, explorando ao máximo o poder que o seu jogo ainda tem debaixo do pano. A adição de novos conjuntos de cartas, novos heróis, novos modos de jogo e novos prémios especiais para os jogadores que mais se destacarem são adições que prometem vir a transformar esta obra num verdadeiro ecossistema virtual, capaz de perdurar durante bastante tempo. Vai ser interessante acompanhar o processo daqui em diante.