Nota de Editor: Poucos dias após a publicação desta análise, a inkle anunciou a introdução de Fast Travel na obra, algo que obviamente anula uma das principais críticas apontadas ao jogo. O texto que se segue mantém-se inalterado em relação à publicação original, mas importa manter esta informação em mente.

Depois de ter tido a oportunidade de jogar uma amostra das horas iniciais do novo esforço da Inkle, escrevi que esta revelava “o potencial de um título que terá na sua capacidade para saciar e aguçar em doses semelhantes a curiosidade do jogador” um dos seus principais trunfos para oferecer uma experiência interessante, sendo que a manutenção contínua dessa alternância entre mistério e descoberta seria vital para esse desfecho.

Terminada a aventura após uma empreitada que ultrapassou por larga margem a dezena de horas, é com agrado que posso comunicar que Heaven’s Vault é efetivamente uma obra de grande qualidade e que nos mantém ligados à sua narrativa do princípio ao fim graças a um mistério que ganha novas camadas à medida que outras vão sendo desvendadas. Todas as nossas ações têm como objetivo final o responder às muitas questões que o jogo atira na nossa direção e o título faz um trabalho notável em garantir que esse fluxo entre informação descodificada e informação por descodificar se mantém no equilíbrio ideal com o avançar do tempo de jogo.

Este é sem dúvida o segredo do sucesso da obra da autoria dos produtores do aclamado 80 Days!, isto é, o jogo consegue transformar os jogadores em autênticos arqueólogos obcecados por responder às perguntas que assolam a sua mente, em descodificar todo e qualquer detalhe, por mais pequeno ou insignificante que possa parecer a um olhar destreinado, que encontra nos locais que explora, em arqueólogos genuinamente apaixonados e investidos em traduzir uma língua ancestral perdida em busca de fazer sentido das mensagens deixadas por aqueles que já cá não estão.

Há algo de verdadeiramente cativante e até viciante no processo de tradução de palavras de Ancient para a Língua Inglesa - uma das traves mestras da jogabilidade -, com o jogo a servir-se do facto de nos colocar ao controlo de alguém já habituada a estas andanças para tornar os procedimentos mais acessíveis para os leigos. Tudo serve para descodificar o significado das palavras, seja o contexto em que estas surgem, a frequência com que são encontradas ou até os caracteres em comum com outras cujo significado já foi entretanto descoberto.

Poderia facilmente ser uma experiência fastidiosa e demasiado assente num processo de tentativa e erro, mas Heaven’s Vault dá-nos sempre os indicadores necessários para chegar à solução correta. O acumular de inscrições descobertas permite confirmar se a nossa tradução inicial estava correta ou não, sendo que à medida que mais palavras vão sendo corretamente traduzidas, mais fáceis se tornam os nossos palpites relativamente às palavras desconhecidas que surjam acompanhadas numa frase por palavras já familiares.

Quando não estiverem ocupados a descodificar uma língua ancestral, o vosso tempo será passado a visitar diversos locais da Nebula, uma região do espaço interligada por “rios” que permitem a navegação de peculiares naves entre os seus diferentes pontos de interesse. Para além da obtenção de novas inscrições para descodificar, a visita a novos locais é igualmente um momento de descoberta e ponderação em relação ao passado, ou seja, sempre que chegamos a um novo cenário inabitado e repleto de ruínas existe a curiosidade em saber o que era esta localização antes de ter sido abandonada e esquecida.

Essa resposta é conseguida através da meticulosa exploração dos locais, o que vos levará não só à obtenção de nova informação sobre o passado e, por consequência, o mistério que alimenta a trama da aventura, mas também à descoberta de inúmeros artefactos de diferentes eras históricas. É através do contacto com estas relíquias que novos locais por explorar vão sendo apontados no mapa, sendo que quantos mais objetos obteram provenientes desse local, mais circunscrita ficará a área da vasta Nebula que terão de explorar à sua procura.

Pisar pela primeira vez um cenário desconhecido é sempre uma sensação gratificante, pois sabemos de antemão que o esforço que colocarmos na sua exploração será proporcional às respostas que obteremos do mesmo. Não, não precisam de descobrir tudo o que há para descobrir num determinado local para poderem avançar na história, mas se o fizerem - ou se pelo menos tentarem - mais artefactos descobrirão, melhor identificada ficará a área de exploração de um novo cenário, mais inscrições serão descobertas, mais oportunidades para confirmar ou corrigir traduções existirão e maior será a quantidade de informação sobre o passado da Nebula que assimilarão.

Sucintamente, quanto mais explorarem, mais o jogo vos recompensará com a “moeda” que mais interessa nesta experiência, isto é, mais conhecimento vão obter. Importa mencionar que, excetuando os locais atualmente habitados na Nebula e aos quais regressarão por inúmeras vezes, não poderão voltar ao locais de exploração de ruínas uma segunda vez, pelo que é mesmo importante que obtenham o máximo de informação possível enquanto lá estiverem.

De forma inteligente, Heaven’s Vault faz questão de catalogar todas as vossas ações ao longo da aventura, as inscrições descobertas, o conhecimento prévio da personagem e mesmo os artefactos colecionados ou com os quais interagiram. Isto não só permite com que nunca percam o fio à meada, mas também com que saibam sempre aquilo que já fizeram e o que vos falta fazer, nomeadamente ao nível das traduções. Acima de tudo, é mais um dispositivo que o jogo utiliza para vos relembrar que são arqueólogos nesta obra e que a obtenção da informação só ganha relevo após ser devidamente registada para que esse conhecimento não se perca novamente.

Assumindo o papel de Aliya Elasra, uma arqueóloga especialista na descodificação de línguas perdidas e uma das poucas personagens neste mundo que valoriza verdadeiramente o passado, o valor histórico dos objetos que encontra e a única que parece verdadeiramente acreditar no poder do conhecimento para desmistificar crenças e tirar lições para o presente e o futuro, a nossa aventura levar-nos-á a interagir com um leque considerável de personagens, sendo que são essas interações que nos impedem de nos perdermos totalmente no passado.

Graças a diversas opções de diálogo que nos permitem moldar a personalidade da protagonista através da forma como responde a velhos conhecidos, amigos e até à sua mentora, Aliya é uma protagonista que facilmente prende a nossa atenção e isso deve-se em grande parte ao seu acompanhante mecânico: o robot Six. A presença constante deste robot intelectualmente avançado assegura que o jogador nunca está sozinho, ou seja, que Aliya tem sempre alguém com quem trocar ideias à medida que explora locais que  dificilmente alguma das pessoas com a quais tem uma relação de confiança explorarão por si próprios.

O facto de Aliya ser das poucas pessoas a navegar os rios da Nebula, de ser das poucas pessoas interessadas naquilo que a história pode ensinar à humanidade no presente e futuro, de não se sentir em casa em Iox, a lua onde residem as pessoas com mais conhecimentos e condições de vida e para a qual foi viver após ser recolhida de um orfanato, e de já não ser encarada como uma filha de Elboroth, a lua pobre onde nasceu, faz com que a protagonista transmita quase sempre uma sensação de desconexão e desapego em relação a tudo o que a rodeia, encontrando no seu trabalho a sua principal ferramenta para disfarçar a solidão.

Essa solidão é mitigada, como já foi referido, pela presença constante de Six ao longo da aventura. São as interações constantes entre os dois, frequentemente bem humoradas, que servem de ligações entre os momentos chave da narrativa, entre cada descoberta e entre cada novo mistério. É por isso uma pena que Heaven’s Vault não tenha uma vocalização constante durante a sua campanha. Seria difícil adaptar o diálogo entregue em tempo real com a adição de voz para além do texto que é apresentado no ecrã, mas as interações entre Aliya e Six mereciam esse tratamento e seria sempre uma forma do jogo reter de forma ainda mais eficaz a nossa atenção.

Ainda assim, o grande pecado de Heaven’s Vault está na velocidade incompreensivelmente lenta a que a progressão é feita. Movimentar a personagem pelos cenários é desde logo um problema devido à pouca fluidez no controlo dos seus movimentos, mas é na navegação pelos rios que ligam os diferentes locais da Nebula que reside o principal problema. Percebe-se a intenção de tentar criar a sensação de estarmos a explorar a vastidão do espaço, mas ter de passar cinco ou por vezes mais minutos a navegar sem que nada de verdadeiramente importante esteja a acontecer no ecrã destrói por completo qualquer sensação de ritmo da obra.

O facto de apenas podermos fazer uma espécie de viagem rápida se quisermos regressar a um dos locais habitados do jogo, como Iox ou Elboroth, e de não haver uma opção de piloto automático faz com que este processo de navegação seja desnecessariamente fastidioso e não enriqueça em nada a experiência, tendo até o efeito contrário. Por sua vez, a inconstância da banda sonora que muitas desaparece sem deixar rasto e é pontuada apenas pelo silêncio também não ajuda a que a obra retire mais proveito dos seus momentos importantes. Mesmo assim, a qualidade está lá.

Como referi na antevisão, Heaven’s Vault atraiu-me inicialmente graças ao seu interessante estilo visual que combina uma modelagem das personagens 2D como se tivessem saído de uma vinheta de banda desenhada com os cenários 3D. Referi também que este estilo visual tinha resultados mistos, sendo mais eficaz estático do que em movimento. Isso, como é óbvio, continua a ser verdade, mas importa também destacar que nem todos os cenários apresentam a mesma capacidade de deslumbrar, algo que se entende devido à exploração de locais desérticos e inóspitos.

Heaven’s Vault é assim uma experiência que transforma com sucesso o jogador num explorador e num arqueólogo, tornando os vários passos do processo para chegar à tão desejada resposta certa ou à verdade altamente cativantes. Mesmo com um ritmo lento e pausado resultante dos longos períodos de exploração e de tentativas de traduções, o constante aguçar e saciar da nossa curiosidade relativamente ao mistério transversal à aventura mantém-nos sempre investidos. Os longos períodos de navegação pela Nebulosa minam um pouco a experiência, mas não o suficiente para anular tudo o que de bom esta entrega.