Hellblade é um jogo especial. Um projecto de paixão de uma produtora consagrada que tenta combinar a independência, inovação e liberdade que caracterizam a cena independente com os altos valores de produção mais frequentemente associados aos colossos da indústria para se fixar no cada vez mais erodido segmento anteriormente definido como “AA”. Mesmo sem o poderio financeiro para gerar uma campanha de marketing de proporções épicas, o título conseguiu captar a atenção dos jogadores desde cedo e nem mesmo o longo período de tempo entre o anúncio e o lançamento esfriou a curiosidade nesta interessante proposta.

Hellblade Imagens Analise

Com o talento que nos trouxe obras como DmC: Devil May Cry, Enslaved: Odyssey to the West e Heavenly Sword ao leme do seu desenvolvimento, Hellblade: Senua’s Sacrifice tinha a seu favor o facto da Ninja Theory ter cultivado uma legião de seguidores ao longo dos anos e gozar da estabilidade e independência para levar todo o tempo que achar necessário até conseguir criar uma experiência capaz de fazer jus à visão original da produtora, uma experiência memorável que prometia provar, mais uma vez, a capacidade deste meio de entretenimento para entregar histórias maduras e algo que vá além da simples diversão.

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Não é segredo nenhum que este título é uma experiência extremamente cerebral, afinal de contas, estamos a falar de uma obra que nunca escondeu os temas sensíveis que prometia abordar, uma obra com intenções bem definidas de colocar o jogador numa posição desconfortável com a qual espera que nunca tenha de lidar no seu quotidiano. Em momento algum o jogo tenta enganar ou ludibriar quem o joga e os primeiros minutos são uma declaração de intenções que vos prepara para a aventura que terão pela frente. Não é certamente por acaso que a primeira menção a ser destacada nos créditos de abertura é a posição de Mental Health Advisor (Conselheiro de Saúde Mental).

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Tal como o nome indica, Hellblade segue a história de Senua, uma guerreira que parte em direção a Hel, as profundezas do submundo da mitologia nórdica onde os mortos ficam presos para a eternidade, com objetivo de resgatar a alma de quem lhe é mais querido das amarras dos Deuses que controlam a humanidade. Atormentada por vozes e visões do passado, a protagonista embarca numa viagem pessoal que a forçará a enfrentar os seus demónios interiores, os seu medos e todas as manifestações da sua mente fragmentada e traumatizada.

Ao contrário do que é habitual, a Ninja Theory não utiliza os problemas de saúde mental da sua protagonista para nos entregar uma experiência de terror pejada de jump scares e outros clichés do género. Não, Hellblade trata com respeito a temática e a condição da sua protagonista, oferecendo uma representação duramente real da fragilidade da mente humana. Existem imagens e visões psicadélicas e perturbadoras, mas são utilizadas como um mecanismo para colocar o jogador na pele e no mesmo estado mental de Senua, para o fazer perceber o terror interior da personagem e o quão debilitante a sua condição pode ser.

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Através da excelente caracterização de Senua, que é sem dúvida ajudada pelo absolutamente fantástico desempenho de Melina Juergens que merece todos os elogios possíveis e imagináveis, o título cria uma protagonista com a qual nos podemos facilmente identificar e sentir empatia, mas é também de salutar a forma muito inteligente como a obra utiliza a mitologia nórdica como pano de fundo para contar a sua história. Uma narrativa, como já referi, extremamente pessoal que traça constantemente paralelismos entre as histórias e ensinamentos dos Deuses e a viagem de Senua.

Hellblade: Senua’s Sacrifice destaca-se também pela qualidade excelsa do seu departamento sonoro. Embora não seja um jogo de terror, o design de som é também aqui a sua própria personagem e uma das principais razões pelas quais a execução da Ninja Theory resulta tão bem. Diria mesmo que Hellblade tem obrigatoriamente de ser jogado com headphones para que o efeito pretendido pela produtora seja verdadeiramente alcançado. Ter as constantes vozes que acompanham a protagonista a sussurrar-nos ao ouvido ou a falar com mais veemência deixa-nos tensos e paranóicos, fazendo-nos questionar todas as decisões e ações que realizamos e colocando-nos num estado de alerta constante.

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Por outro lado, a sua ausência em fases mais tardias da aventura tem o efeito exatamente contrário. O que em tempos era estranho e perturbador, acaba por tornar-se numa espécie de companhia macabra que, quando não está presente, traduz-se num silêncio ensurdecedor e isolador, voltando assim a aproximar o jogador a Senua. A banda sonora é subtil, mas igualmente eficaz. Saltando para uma posição de destaque em momentos chaves da narrativa, a música suave e melodiosa é utilizada quase sempre para contrastar com a batalha psicológica que acabamos de superar e sempre com enorme sucesso.

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Como facilmente se percebe pelas imagens que acompanham este texto, o departamento visual de Hellblade também se destaca pela positiva, fazendo valer a designação um “AAA independente” que a produtora mencionou aquando do seu anúncio. Graficamente impressionante, com ambientes lindíssimos e detalhados que proporcionam horizontes de enorme beleza, o título utiliza também esta componente para mostrar o contraste e a batalha que decorre no interior da mente da protagonista, alternando entre o negrume e o cinzentão do desespero e o verde e o brilho da esperança. A modelagem de Senua merece também ser destacada, embora as animações faciais nem sempre evitem o Uncanny Valley.

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Na sua essência e tal como as restantes obras da produtora, Senua’s Sacrifice é um jogo de ação na terceira pessoa com combate corpo a corpo. Dito isto, não esperem encontrar aqui a ação bombástica e frenética de DmC ou Heavenly Sword, por exemplo. Para além de nem sempre estar presente, o combate em Hellblade é mais metódico, cauteloso e pausado. Simples, mas eficaz. Com a câmara sempre bem perto da protagonista para colocar o jogador mesmo em cima da ação, passarão praticamente as batalhas todas a esquivar ataques e a contra-atacar com a vossa espada.

Poderia facilmente tornar-se repetitivo, contudo, a existência de um número simpático de tipos diferentes de inimigos que requerem abordagens distintas e o facto do jogo não ter medo de vos deixar durante longos períodos de tempo sem qualquer tipo de combate impedem que tal aconteça. Na verdade, passarão muito mais tempo a explorar o cenário e a resolver puzzles ambientais do que a combater, pelo que Hellblade está muito longe de ser um estereotípico jogo de ação. Só nas poucas batalhas contra bosses é que o título se torna algo familiar, mas são momentos que funcionam bem como climaxes da narrativa.

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Embora a ausência de combate durante largos períodos de tempo não seja necessariamente um ponto negativo, a verdade é que acaba por ter alguns efeitos nefastos na cadência da obra. Quando não estão a lutar, estão a explorar e a resolver puzzles. O problema é que basta ficarem presos durante demasiado tempo num quebra-cabeça para que o ritmo abrande em demasia e a experiência saia um pouco afetada. Isto não acontece com frequência, até porque os puzzles são, de uma forma geral, bastante acessíveis, mas tive alguma dificuldade, sobretudo nas horas iniciais, com os puzzles que envolvem encontrar determinados símbolos no cenário para abrir portas. Este tipo de puzzles repetem-se ao longo da aventura e, para além de não serem muito interessantes, travam demasiadas vezes o nosso progresso.

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Termino esta análise da mesma forma que a comecei, ou seja, proclamando que Hellblade: Senua’s Sacrifice é efetivamente um jogo muito especial. Um caso de sucesso que merece ser estudado e experienciado por todos aqueles que adoram esta indústria e que prova que existe muito potencial nos videojogos para lá de gigantescos mundos abertos e mundos online persistentes. Perfeito para ser concluído durante um fim de semana, com um combate simples, mas recompensador, uma história e protagonista que deixam marcas no jogador, visuais excelentes e uma sonoplastia notável, Hellblade nem sempre gere o seu ritmo da melhor forma, mas faz demasiadas coisas muito bem para se fixar como uma das obras do ano.