Qualquer jogador que veja bons títulos serem publicados ems consolas que não tem certamente ficará feliz ao vê-los serem lançados na sua. Contudo, há jogos que parecem ser impossíveis de adaptar a uma consola híbrida com um hardware claramente mais limitado e é sempre surpreendente ver lançamentos como o famoso Skyrim, que é um dos exemplos mais notórios. Entretanto, a Panic Button ajudou a criar as versões Switch de títulos que foram lançados nas consolas tradicionais e no PC, como DOOM, Wolfenstein II e Warframe. Por isso, não é de admirar que as produtoras de jogos com uma exigência técnica mais elevada olhem para a Nintendo Switch como uma potencial candidata para alargar a sua audiência. Hellblade: Senua’s Sacrifice não é exceção.

Não foram poucas as críticas favoráveis à obra da Ninja Theory - produtora que lançou no mercado jogos como Heavenly Sword, Enslaved: Odyssey to the West e DmC (o controverso Devil May Cry). Até a Microsoft viu a Ninja Theory como um potencial parceiro de desenvolvimento de jogos para a sua consola, adquirindo-a posteriormente. Por isso, é bom poder saber que os jogadores já podem adquirir Hellblade para a Nintendo Switch.

Desta vez não foi a Panic Button que teve a honra de adaptar o jogo de 2017 à consola híbrida, mas a polaca QLOC que tem no seu currículo a criação da versão Nintendo Switch de Dragon’s Dogma: Dark Arisen (ainda em produção), tal como Dark Souls Remastered para a PlayStation 4 e Xbox One. O resultado em Hellblade: Senua’s Sacrifice é espantoso, até mesmo para o modo portátil - forma com a qual mais jogo. E o que era importante conseguir foi atingido: capturar as expressões faciais de Senua, tal e qual como foram promovidas em vídeos durante o lançamento original.

Não é só a personagem principal que está com um aspeto fantástico, mas todas as texturas do ambiente onde se encontra. Embora não seja o que há de mais importante num videojogo, as emoções de Senua são expressas, principalmente, através do que lemos no seu semblante, por isso faz sentido que tenha havido um esforço para manter a capacidade de continuarmos a lê-las como se tivéssemos com uma máquina mais capaz do que uma Nintendo Switch. Até o próprio pêlo da sua vestimenta tem um bom aspeto, assim como vários detalhes da luminosidade, que acabam por dar uma boa apresentação geral à obra.

Este trabalho da Ninja Theory com a QLOC não é só uma conquista em termos técnicos, como também é uma narrativa muito bem conseguida. Este é mais um jogo que foi beber inspiração à mitologia nórdica com uma personagem que sofre de distúrbios mentais e psicológicos, focada na sua missão pessoal: ir para Helheim (o que tipicamente chamamos de Inferno) e vingar o seu amado. Esta viagem não é exclusivamente sensorial, há algum combate no qual temos de participar, onde podemos executar golpes profundos em inimigos praticamente surreais que mais se aproximam do sobrenatural. Não é uma experiência leve, com combate focado em entregar ação como God of War ou Jotun, mas algo mais pesado, sobretudo por estarmos numa viagem em constante sofrimento, mesmo quando ultrapassamos obstáculos que pareciam intransponíveis. 

Uma das grandes valências de Hellblade é a sua sonoplastia. Senua passa uma boa porção da sua aventura a ouvir vozes na sua cabeça, os seus pensamentos tomam quase uma personalidade própria para colocar todas as ações de Senua em dúvida, pois esta vive em constante conflito com ela própria, devido à sua sua saúde mental. São sussurros perfeitamente audíveis, vozes mais calmas que se ouvem com toda a clareza possível. Este lado técnico dá uma outra dimensão sensorial e emocional para o jogador, aliada a uma música desconcertante que marca a viagem de Senua. Se há jogo que perderia imenso com uma sonoridade pouco trabalhada, seria precisamente este da Ninja Theory. 

As vozes internas de Senua funcionam como um tutorial, não havendo absolutamente nenhum momento de aprendizagem explícito, nem sequer um HUD, se não estiveram atentos, é muito provável que tenham perdido um desses tutoriais. Não é frustrante, porque vão, eventualmente, perceber que vos falta qualquer pormenor para poderem avançar. Muitas das vezes ser-vos-á pedido para focar a câmara para sobreporem sinais ou símbolos para poderem progredir pela porta ou passagem que está bloqueada. 

O combate é feito com uma espada de grande porte, com a qual também nos defendemos dos ataques dos inimigos. Essa defesa é executada com bloqueios transversais aos ataques dos nossos oponentes. Como é óbvio, é possível falhar estes bloqueios, principalmente, quando a dificuldade está mais elevada. E quando se falha várias vezes seguidas, sucumbimos aos nossos erros ou à eficácia dos inimigos, até à eventual morte.

Contudo, a morte não é preto no branco, há uma ilusão de que tal aconteceu e recomeçamos do último ponto guardado pelo jogo. Não obstante, é importante não esquecer que cada vez que Senua “morre” há uma grave consequência que a acompanha. Cada morte leva a crescer uma praga que tem consigo, uma doença que chamam de “dark rot”, uma marca negra que vai evoluindo do antebraço até à cabeça. Uma vez na cabeça, Senua morre definitivamente - não há volta a dar.

Em suma, a Nintendo Switch, em mãos experientes, consegue reproduzir obras geniais, como Hellblade: Senua's Sacrifice, que exploram o hardware disponível não deixando de ser tecnicamente exigentes. Não é de admirar que tenha sido possível a adaptação à consola híbrida, o que não se entende é a ausência de obras com uma qualidade técnica similar. Mais do que a soma das suas conquistas no plano técnico, Hellblade: Senua's Sacrifice é uma história de dor e sofrimento única no mercado, uma obra recomendável para o catálogo da Nintendo Switch.