Nunca pensei que seria possível jogar um battle arena online sem ter que obrigatoriamente passar uma boa parte do meu tempo mergulhado em tutoriais. Heroes of the Storm veio provar-me essa possibilidade. É simples e não deixa nenhum jogador perdido durante o calor da batalha, mas o que realmente o diferencia da concorrência é o seu foco no trabalho de equipa, evitando assim que jogadores mais fracos se transformem em mera carne para canhão para os mais experientes.

Devo dizer que um MOBA vindo da Blizzard era apenas uma questão de tempo até que colocassem tudo em ordem para colocar um produto bem polido, como todos os títulos do seu catálogo. Afinal, foi um mod de Warcraft 3 que originou Defense of the Ancients, evoluindo para um dos principais jogos do género - DOTA 2 - que faz furor nos eventos e-Sport em que entra, nomeadamente, no evento anual da Valve The International. A grande dúvida permanecia na sua vontade de arriscar, mesmo tendo um cofre bem recheado pelas grandes séries que gere - não nos esqueçamos que estamos a falar da empresa Activision/Blizzard que tem na sua alçada Call of Duty e Skylanders -, com o mercado dominado pelos grandes cabeças de cartaz League of Legends e DOTA 2.

Mas como em todos os géneros que ficaram saturados pela sua popularidade, existe sempre a hipótese para inovar e "fazer o que ainda não foi feito" como canta Pedro Abrunhosa. Temos vindo a presenciar introduções subtis nos atiradores na primeira pessoa, seja com o avanço tecnológico no grafismo ou com servidores mais capazes para incluir mais jogadores e formar mundos que nos intriguem a mente; vejam o exemplo de Crysis ou de World of Warcraft. Há espaço para todos, mas ser bem sucedido? Esta é uma história totalmente diferente, mas como estamos a falar da Blizzard, é muito provável que a sua nova entrada no mundo dos MOBA com Heroes of the Storm seja um sucesso praticamente garantido. Ou não fosse Hearthstone a prova que esta hipótese seja palpável.

Em Heroes of the Storm, duas equipas de cinco jogadores defrontam-se pelo domínio da base adversária em batalhas online, que se afirma com a destruição do seu núcleo. Deixando recair as atenções para as personagens, e o equilíbrio das suas características inerentes à batalha, como também para os mapas onde a carnificina decorre. São estas duas facetas do jogo verdadeiramente essenciais para que os jogadores não se sintam frustrados, para que o jogo evolua saudavelmente conforme o feedback recebido do seu público. E fiquei satisfeito por constatar que o labor da Blizzard dirige-se nesse sentido, com personagens das suas maiores propriedades intelectuais com papéis razoavelmente simples de desempenhar no campo de batalha e arenas dinâmicas que vos obrigam a fazer mais do que oprimir o adversário.

Antes de cada partida é, obviamente, necessário escolher o vosso herói. Escolham um de uma das vossas franquias favoritas - Diablo, StarCraft, Warcraft - e assumam a função de apoio, especialista, guerreiro ou assassino. O leque de escolha é bastante variado, ou mais limitado se não gastarem dinheiro, aí já só podem contar com um conjunto de cinco personagens que vai alternando semanalmente. Mesmo com cinco personagens a utilizar gratuitamente durante uma semana, terão muito por explorar de cada uma; chegarão a um ponto que nem dão conta que já têm ouro suficiente, recolhido das partidas, para comprar um novo herói.

Há muitos aspetos a explorar, nomeadamente, as habilidades e atributos passivos que poderão dar à medida que vão subindo de nível. Normalmente, têm sempre dois ou três escolhas quando vos é indicado que o podem fazer. Contudo, além de evoluírem o vosso perfil de jogador de Heroes of the Storm, evoluem também as personagens, desbloqueando consequentemente novas habilidades para aplicar no campo de batalha. Assim, todo o potencial dos heróis e vilões não fica livremente disponíveis quando os escolhem pela primeira vez. O que aparenta ser uma má decisão da Blizzard esta limitação, é na verdade uma forma de fazer com que os jogadores invistam horas de partidas para compreenderem o quê que cada uma pode fazer, conhecendo assim os seus limites e vantagens nos diversos momentos que pautam uma partida.

Os mapas são uma outra personagem do jogo, pela forma como vão alternando o fluxo da partida com os seus objetivos secundários espalhados pelo campo de batalha, que se forem cumpridos dão uma vantagem significativa à equipa que o atingir primeiro. Em Haunted Mines, um dos poucos mapas com apenas duas alas, quando as minas abrirem, devem recolher o maior número de caveiras para quando o vosso gigante Golem se erguer ser o mais forte possível para devastar os fortes e defesas inimigas até ao núcleo. Assim, isto coloca dois problemas imediatos se a ofensiva for bem orquestrada: ter que lidar com este novo inimigo e com os próprios adversários que aproveitam esta investida. Este tipo de situações torna as partidas muito interessantes, tanto no ataque como na defesa. Mais uma vez, aqui o lema do jogo que se destaca é o trabalho em equipa.

Contudo, além de mapas em que se podem ativar torres que atacam à distância, como em Sky Temple, a variedade não se altera muito. Ou seja, é sempre preciso recolher algum item para ativar ou receber algum tipo de vantagem momentânea. Felizmente, o próprio design dos níveis e a direção artística atribuída a cada um dos sete níveis disponíveis confere-lhes uma personalidade própria. Temos as florestas assombradas de Cursed Hollow ou os jardins botânicos de Garden of Terror facilmente reconhecíveis, mesmo que vejam uma partida online no Twitch sabem imediatamente nos moldes em que o jogo vai decorrer.

Por falar em moldes, está mais do que na altura para tentar dar-vos uma resposta sobre o molde free-to-play abordado pela Blizzard para Heroes of the Storm. Há uns justos, outros que saltam diretamente para a o poço pay-to-win e uns intermédios que recorrem a uma imensidão de grinding para podermos ficar finalmente satisfeitos com a recompensa obtida.Primeiro, comecei por rever o Pacote de Iniciação que me foi entregue para análise, pus-me a escarafunchar à lupa tudo o que estava incluído para comparar o preço que teria de pagar em euros e com ouro do jogo para saber se o preço de 19,99 euros que se encontra nas lojas é uma boa oferta. Contando apenas com os cinco heróis - e vilões - poupam metade do preço se fossem a comprá-los individualmente com o vosso dinheiro. Isto sem incluir uma montada para avançar mais rapidamente no campo de batalha e uma skin para uma das personagens que vem no pacote da versão física.

Mas não são obrigados a comprar o que quer que seja para se divertirem em Heroes of the Storm, mas ficam, como já o mencionei, limitados a um conjunto de cinco heróis que muda semanalmente. Assim o vosso poder de escolha fica reduzido, ganhem ouro e poderão desbloquear novas personagens. É claro que há um inevitável grinding a exercer, "trabalhar" para o ouro, mas no meu ponto de vista este não é injusto. Recebem ouro de várias e diversas formas. Evoluam o vosso perfil com experiência obtida a jogar partidas, assim como todos os heróis com que jogam, em determinados marcos atingidos é-vos dada uma porção de ouro extra. Existem também objetivos diários a cumprir, normalmente que incidem em tarefas como "joga x vezes com personagens de y classe" ou "joga y vezes com personagens de z universo". No meu exemplo, consegui amealhar 4 mil de ouro em menos de quatro horas de jogo, podendo comprar Valla, a Demon Hunter de Diablo. Claro que cada vez que se progride mais no jogo que amealhar ouro poderá tornar-se mais difícil, serão obrigados a trocar de personagens e espremê-las o máximo possível na semana em que estão disponíveis.

Querem mais personagens o mais rapidamente possível? Façam como os jogadores fazem nas Steam Sales, esperem por uma boa promoção (que nunca será tão significativa como exemplo dado) e poderão comprar aquele herói que tinham debaixo de olho há imenso tempo. Os preços variam entre 2.000, 4.000, 7.000 e 10.000 de ouro, com os 10 mil de ouro a corresponder, na maioria das vezes, a 10 euros. As personagens de jogabilidade aconselhada a veteranos de títulos MOBA ou que tenham vindo recentemente juntar-se ao catálogo é que serão mais caras.

Um dos aspetos mais negativos, principalmente para quem vem de outros títulos do mesmo género, é o bloqueio das partidas que contam para a tabela classificativa. Para aceder ao Hero Mode, terão obrigatoriamente que possuir 10 heróis (visto que aqui não podem escolher nenhum herói do conjunto semanal) e ter o nível 30 do vosso perfil. Percebo esta limitação, que até certo ponto faz sentido, mas poderiam abrir um outro modo intermédio onde não haja esta barreira. Querem ser competitivos em Heroes of the Storm? Paguem a vossa entrada, ou então terão muito que trabalhar para lá chegar.

Heroes of the Storm faz uma muito boa entrada neste género, que já começa a ficar muito competitivo para tanta oferta. Aos fãs da Blizzard e do género Multiplayer Online Battle Arena, este é uma experiência gratuita recomendada. A sua aposta em trabalho de equipa faz todo o sentido e acaba por ser um dos seus porta-estandartes para apelar aos jogadores novatos que não são muito experientes ou se perdem facilmente no caos da batalha. Com o passar do tempo tenho a certeza que Heroes of the Storm crescerá entre a comunidade, tal como o jogo de cartas gratuito Hearthstone conseguiu entrar num espaço pouco explorado, mas que agora várias companhias se querem juntar à festa.