Tal como qualquer outra iniciativa na indústria dos videojogos, o sucesso de PlayLink - iniciativa que pretende entregar experiências passíveis de serem desfrutadas por jogadores casuais através dos seus dispositivos móveis e na companhia de amigos - está muito dependente da aposta e apoio que receber. Com um leque de experiências casuais que acabaram por ocupar o vazio deixado pelo desaparecimento de Buzz e a ausência da entretanto regressada série SingStar, a Sony mostrou a intenção satisfazer a audiência que procura os denominados party games

Hidden Agenda Analise Imagens

És Tu!, SingStar e Knowledge is Power são obras que encaixam perfeitamente nessa descrição. Hidden Agenda, no entanto, aparentava ser algo diferente, algo mais substancial, algo capaz de servir como porta de entrada para o cerne deste meio de entretenimento. Dos produtores de Until Dawn - surpreendentemente, um dos melhores exclusivos do catálogo da PlayStation 4 -, esta aventura narrativa parecia ser a prova de que o PlayLink poderia ser mais do que uma mera distração. Contudo, depois de terminado, percebemos que esse não é claramente o caso.

É possível que a qualidade de Until Dawn tenha deturpado um pouco as nossas expectativas para este pequeno título da Supermassive Games, mas a verdade é que Hidden Agenda merecia mais e melhor e são vários os momentos em que se percebe que o potencial para isso estava lá. Infelizmente, em vez disso, temos uma obra que dá a sensação de ter sido produzida em tempo recorde e com um orçamento reduzido. A melhor forma de descrever Hidden Agenda é compará-lo com um daqueles filmes feitos diretamente para a televisão, uma vez que não têm a qualidade ou substância necessária para justificarem a chegada às salas de cinema.

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Essencialmente, Hidden Agenda é um filme interactivo, um jogo assente na tomada de decisões e numa interação mínima com o mesmo. Bem ao estilo do título anterior da produtora ou das obras da Quantic Dream, são as nossas decisões que vão moldar o desenrolar da narrativa e influenciar de forma significativa o seu desfecho. Sem surpresas, esse é o maior trunfo deste jogo, isto é, o número possível de diferentes permutações da história e, por consequência, finais distintos que podem experienciar dependendo das decisões que tomarem.

Assumindo o controlo de uma detetive e de uma advogada, o jogador será colocado no centro da investigação ao assassino em série conhecido como Trapper, um homicida que ganhou nome após matar vários polícias através de cenas de crime armadilhadas. Após um prólogo que nos mostra como o assassino acabou por ser preso, a história dá um salto temporal de cinco anos para acompanhar as horas que antecedem o cumprir da sentença de morte do criminoso e o desvendar de novas informações que poderão ter implicações gigantescas no caso.

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Apesar de alguns momentos inspirados, quase sempre resultantes da satisfação de ver as nossas decisões influenciar os eventos que vemos no ecrã, a narrativa de Hidden Agenda é demasiado pobre para deixar o jogador verdadeiramente investido na experiência. As personagens, incluindo as duas protagonistas, nunca recebem qualquer tipo de profundidade, enquanto outras ficam-se pelo estatuto dos estereótipos habituais deste género de histórias. Também não ajuda que a revelação da verdadeira identidade do assassino não tenha qualquer tipo de impacto e, pelo menos no meu caso, tenha sido demasiado fácil de antever.

Com cerca de duas horas de duração, o jogo é demasiado curto para conseguir contar uma narrativa verdadeiramente interessante, com várias voltas e reviravoltas e com revelações capazes de ter o impacto necessário para elevar a experiência a outros patamares. O ritmo inconsistente, a edição questionável de cenas que tanto acabam abruptamente, como parecem saltar alguns frames, apresentando ainda transições atrozes, enfim, são vários os sinais que a obra nos envia para nos relembrar que estamos a jogar algo de importância secundária, algo que serviu como uma espécie de prova de conceito e não um jogo produzido com toda a "carne no assador".

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Pode ser jogado a solo, sim, mas Hidden Agenda será sempre mais agradável na companhia de amigos. O modo competitivo - que dá nome à obra - é uma ideia interessante que vê os diferentes jogadores tentarem manipular-se uns aos outros na tentativa de influenciar o desfecho de determinadas cenas e da narrativa sem que ninguém perceba as suas verdadeiras intenções. Contudo, parece-me óbvio que este conceito apenas resulta no contexto correcto, isto é, se todos os envolvidos estiveram já bem ambientados com a mecânica em questão.

Dito isto, nem só de decisões se faz o título da Supermassive. Em determinados momentos, o jogo pede-nos também para procurar pistas em cenas de crime, infelizmente, tal como quase tudo nesta obra, esta mecânica não resulta da melhor forma. Arrastar o dedo pelo ecrã do vosso smartphone está longe de ser intuitivo o suficiente para oferecer a precisão desejada, no entanto, o principal problema é o cronómetro que limita o tempo que têm para as procurar. 

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Especialmente a solo, torna-se muito difícil encontrar todas as pistas no pouco tempo que têm disponível, algo que acaba por ser bastante frustrante quando, na vasta maioria destas situações, não existe qualquer justificação aceitável para a limitação do tempo, uma vez que não estamos numa situação de perigo iminente, nem nada que se pareça.

Graficamente, Hidden Agenda é uma obra competente. Assinalável sobretudo na modelagem das personagens, rivalizando com Until Dawn nesse departamento, nota-se facilmente que o mesmo cuidado não foi colocado nas texturas dos cenários que servem de pano de fundo à narrativa. Ainda mais evidente do que na obra anterior da produtora é a sensação de uncanny valley sempre que a câmara se foca na face das personagens e é dado destaque às suas animações faciais. A vocalização das personagens - tanto no inglês original, como na dobragem português - é sólida, mas muito longe do que de melhor já se viu na indústria.

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Longe de corresponder às expectativas daqueles que apreciaram bastante Until Dawn, Hidden Agenda não consegue evitar deixar-nos com uma enorme sensação de desilusão. Uma boa experiência para ser jogada com amigos em que as nossas decisões têm impacto real no desenrolar dos acontecimentos, a obra da Supermassive é demasiado superficial para conseguir transformar-se em algo mais. Com um mistério que acaba quando parecia estar a ganhar tração e personagens pouco cativantes, Hidden Agenda não consegue entregar uma aventura memorável e cairá rapidamente no esquecimento.