A fórmula de Hidden Through Time não é nova. Pegar num livro e simplesmente tentar descobrir onde é que o Wally estava escondido tinha um encantamento peculiar na infância. O colorido e o detalhe daquelas páginas faziam-me investir toda minha atenção, varrendo com os olhos aqueles lugares, ficando desiludido quando o tinha encontrado em todas as circunstâncias. A produção da Crazy Monkey Studios é o adaptar dessa descoberta a videojogo. 

Nem sequer é o primeiro título a fazer isto, bastando recordar aquilo que Hidden Folks (Análise) fez em 2017, ainda que numa proposta a preto e branco. Como o nome deixa antever, Hidden Through Time leva-nos a encontrar pessoas e objetos durante vários períodos da história. Com mais de duas dezenas de níveis no Modo História é possível testemunhar a passagem do tempo, percebendo como o cenário, as pessoas e os próprios objetos se foram ajustando.

A jogabilidade é fácil de compreender: podem fazer zoom in e zoom out em cada um dos cenários propostos. Na parte inferior do ecrã têm uma barra onde são visíveis todos os itens e pessoas que têm que identificar. Com o análogico esquerdo deslocam o cursor pela área e com o análogico direito deslocam a área propriamente dita, o que é bastante útil depois de fazer zoom in. Quando encontrarem um determinado número de pessoas e/ou objetos, desbloqueiam a cena seguinte. 

Hidden Through Time não foi desenvolvido para ser difícil, todavia alguns objetos foram dispostos em locais propositadamente dissimulados. Isto pode ser desafiante, especialmente para os jogadores que quiserem completar todos os mapas a 100% - novamente, não é necessário, mas qualquer jogador colecionista dificilmente resistirá à tentação de o fazer, especialmente se estiverem a trabalhar para o Troféu de Platina. 

Colocar um camaleão verde numa parte do cenário, bem, verde é exigir a máxima concentração. Ou então colocar-nos à procura de itens como ovos ou frutos ou canecas com cerveja numa área enorme. Encontrar um par de óculos, como podem facilmente imaginar, também não é algo que se faça em meia dúzia de segundos. Pode chegar a ser frustrante, porém, Hidden Through Time não engana ninguém: a sua natureza desde o primeiro momento é encontrar itens pelos seus mapas.

Na barra com o que temos para encontrar estão breves dicas, bastando percorrê-las com o d-pad do comando. Algumas são úteis, como “deixei a minha clava no campo de treino”. Outras completamente inúteis. Andar à procura de um porco e ter a dica “persegue o porco” não adianta muito; “onde é que deixei o meu livro de receitas” não esclarece muito como dica, servindo apenas para sublinhar o facto de que, realmente, estamos à procura de um livro de receitas.

O melhor de Hidden Through Time é mesmo seu grafismo. As animações dão vida aos desenhos, como se estivéssemos a ver a sociedade a evoluir em diferentes períodos da história. Desde o ataque do T-Rex a uma vila aborígene, passando por locais que parecem saídos de um Western, ataques a castelos e até pelo Egipto com as Grandes Pirâmides, a atenção ao detalhe é inegável. Numa justa, por exemplo, vemos os cavaleiros a percorrer a pista, mas também toda a vida à volta do acontecimento. Não fosse a música precocemente irritante e valia a pena ficar apenas para olhar para a televisão. 

Podem também interagir com pontos nos cenários fora do que estamos à procura - sendo até obrigatório para concluir cada mapa a 100%. Por exemplo, pressionar o telhado de uma casa, faz com ele desapareça e seja possível contemplar o interior da habitação. O mesmo grau de interação é também válido para as pessoas, para os animais e para a vegetação. São pequenas animações ou efeitos sonoros que complementam o sentido geral da experiência que se têm com a produção da Crazy Monkey Studios.

Como já foi mencionado, são mais de uma dezenas de níveis no Modo História, contudo, por muito charmoso e relaxante que a estadia seja, vai inevitavelmente perdendo ímpeto com o acumular das áreas desbloqueadas. Sente-se um cansaço em estar a fazer, novamente, uma tarefa que tem um princípio que nunca é verdadeiramente transfigurado durante o tempo que lhe dedicamos. 

Fora do Modo História, Hidden Through Time conta ainda com um Editor de Mapas. Talvez seja mais fácil trabalhar os mapas jogando a versão PC da obra, contudo, na PlayStation 4 e, consequentemente, com um DualShock 4, tenho sérias dúvidas que alguém tenha a paciência para colocar o seu talento ao serviço destas ferramentas. Podemos escolher o período temporal em que queremos inserir a nossa criação, assim como obviamente colocar estruturas, adereços (pequenos, médios, grandes), personagens, animais e ainda itens da natureza.

Não exige um tutorial complicadíssimo de entender, falta sim motivação para espraiar a nossa criatividade saltando constantemente entre as diferentes secções. Por outro lado, a obra apresenta também uma componente online, onde podem experimentar as criações dos outros jogadores. Com filtros, uma caixa de pesquisa, um indicador com a percentagem de jogadores que gostou de determinado mapa, e também a possibilidade de jogar um mapa aleatoriamente, a estrutura é robusta, mas resta saber se será alimentada pela comunidade após a janela de lançamento.

Neste momento, a criatividade da comunidade já deu ao jogo, por exemplo, um cenário que é uma partida de futebol, outro que ilustra um assalto a um comboio - tudo muito simples, mas com uma pedra que demora algum tempo até ser encontrada - e um Western com direito a Saloon e tudo, entre outros. Quando terminam um nível online podem informar a comunidade se gostaram ou não do que acabaram de jogar, além de poderem adicionar o nível aos vossos Favoritos.

Hidden Through Time é uma obra que deve ser experimentada de forma espaçada, apreciando a arte no traço que dá vida a cada cena. Vai perdendo fulgor com o passar do tempo, mas ainda assim não se arrasta até ser um frete que só jogam se forem obrigados. A componente online, mais do que a criação de mapas, pode prolongar a estadia no jogo na vossa máquina, desde que a comunidade se deixe estar enamorada pelo conceito durante os próximos meses. Uma nota final para o preço valendo a pena mencionar que estamos a falar de um título que não chega aos dez euros.