Pedro Marques dos Santos por - Jan 4, 2019

Hitman 2 – Análise

Apesar do seu confuso e mal comunicado modelo episódico, Hitman (2016) foi para todos efeitos um sucesso para a IO Interactive. Ok, talvez não tenha sido o sucesso comercial que precisava de ser para que a Square Enix não optasse por abrir mão do estúdio e da propriedade intelectual, mas a obra tinha todos os condimentos necessários para se tornar numa experiência aclamada pela crítica especializada e pelos fãs de longa data, voltando às origens sandbox da série depois da linearidade desapontante de Hitman: Absolution.

Agora em parceria com a Warner Bros., a produtora dinamarquesa tinha em Hitman 2, o sucessor do título episódico, uma nova oportunidade para mostrar o seu valor, para provar que a Square Enix tinha tomado a decisão errada ao mandá-la seguir o seu caminho, para provar que tinha assimilado tudo o que de bom o seu anterior esforço tinha oferecido aos fãs e novos jogadores da série, para iterar numa fórmula que já estava em patamares de excelência e, não menos importante, para provar a viabilidade económica das aventuras protagonizadas por Agent 47.

Acima de tudo, as muitas horas que passei com Hitman 2 transmitiram a sensação de estar perante o culminar de toda a aprendizagem, conhecimento e talento acumulado ao longo dos vários títulos da série que foram sendo colocados no mercado desde a sua estreia, um passo ainda mais seguro em direção ao melhor que esta pode ser. Claro que numa experiência que coloca tanto ênfase na criatividade como esta tem sempre outras direções passíveis de serem exploradas, mas mecanicamente a obra está já no ponto onde precisa de estar.

Mais uma vez, a IO Interactive volta a entregar uma verdadeira lição no que diz respeito ao design de níveis, criando pequenos mundos repletos de vida, de locais distintos entre si, verdadeiros recreios repletos de possibilidades à espera de serem aproveitadas e capitalizadas. A forma como a produtora consegue num único nível levar-nos pelos bastidores de uma corrida de automobilismo até a uma exposição tecnológica, ou das vilas pobres na Colômbia para uma casa de luxo nas redondezas até um campo dedicado à produção de droga, é simplesmente fantástica.

Cada localização contém sempre muito mais do que aquilo que está imediatamente visível à superfície e muita da magia de Hitman passa por descobrir esses elementos escondidos, aqueles locais aos quais temos de trabalhar arduamente – leia-se, matar ou deixar inconscientes os inimigos e obter o respetivo disfarce – para os atingir, os segredos bem guardados dos nossos alvos. Para além de cada nível oferecer uma miríade de locais distintos para explorar, a diversidade entre os diferentes níveis é também assinalável.

Para além dos já mencionados níveis em Milão e na Colômbia, temos ainda as ruas apinhadas de Mumbai – localização ao estilo do nível em Marrakesh do primeiro jogo e que apesar de proporcionar uma das melhores oportunidades de assassinato da obra, acaba por ser o mais limitador devido à quantidade de olhares que temos de evitar -, os subúrbios aparentemente tranquilos de Vermont e uma festa exclusiva – e secreta – numa ilha remota, para além da missão de prólogo que nos coloca a invadir uma casa inicialmente vazia, esperando o nosso alvo e depois escapando.

Mais que a óbvia variedade visual entre os diferentes níveis, são mesmo as oportunidades únicas que cada um deles nos proporciona que lhes permitem transformarem-se em locais que ficam registados em enorme detalhe na nossa mente e não há nada melhor do que iniciar uma nova investida por um nível já superado com o conhecimento necessário para executar cada um dos desafios propostos pelo jogo ou por nós próprios, retirando o máximo proveito de todo o conteúdo à nossa disposição.

E é mesmo muito conteúdo, uma vez que o conteúdo de Hitman (2016) também está incluído no pacote, pelo que no total têm a campanha do jogo episódico, a campanha de Hitman 2, cada um com o seu vasto número de desafios opcionais e oportunidades – agora denominados de Mission Stories – para assassinatos mais elaborados, os Escalation Contracts em constante rotação, Elusive Targets e ainda a criação de contratos que podem depois ser jogados pela comunidade. Tudo o que fez da obra anterior um sucesso junto dos fãs está de regresso.

Uma vez que a jogabilidade propriamente dita não sofreu grandes alterações – ainda assim houve lugar ao regresso da famosa mala de Agent 47, bem como a introdução da possibilidade de se esconderem na multidão a la Assassin’s Creed 2 e na vegetação -, a IO Interactive apostou também na implementação de novos modos de jogos, com especial enfoque no multijogador. Sobre um deles – Sniper Assassin – já tive oportunidade de escrever e uma vez que apenas tem a missão que já havia jogado disponível, resta-me apenas mencionar que seria agradável a adição de mais missões para um melhor aproveitamento do mesmo.

O outro modo é Ghost Mode que coloca dois jogadores em confronto direto pelo assassinato mais rápido possível. Na teoria, este modo podia ser um teste ao domínio dos níveis por parte dos jogadores, mas a verdade é que quase sempre acaba por se prestar melhor a assassinatos rápidos e simples, esperando que ninguém nos detete e que o adversário não consiga assassinar o mesmo alvo nos 20 segundos durante o período que tentam para igualar o marcador. Se matarem civis perdem obviamente um ponto, sendo que mesmo que morram, os inimigos lembrar-se-ão dos vossos atos, pelo que se fizerem asneira com um disfarce podem ver-se privados do mesmo para o resto da partida.

Existe muito espaço aqui para melhorar e o modo ainda é apresentado no menu de jogo como estando em beta, mas no seu estado atual, Ghost Mode é simplesmente uma pequena distração daquilo que Hitman 2 faz melhor, isto é, dar aos jogadores as ferramentas para, demorando o tempo que quiserem, planearem detalhada e cuidadosamente os seus movimentos. Aliás, merece aplauso por se apresentarem simultaneamente acessível para aqueles que pretendem uma experiência mais guiada, bem como uma experiência completamente livre de dicas e ajudas para os mais acérrimos fãs da série.

Relativamente à narrativa, a sequela continua a trama estabelecida no jogo original, dando-lhe, ainda assim, bastante mais destaque e substância ao explorar as origens de Agent 47 e as motivações da parceira da ICA, Diana Burnwood. Apesar de apresentar alguns momentos interessantes, embora o seu tom esteja em constante choque com o da jogabilidade, o simples facto da história ser encarada como um mero episódio ou uma temporada que termina com um cliffhanger, faz com que esta acabe por parecer inacabada.

No departamento técnico, o destaque vai acima de tudo para a diversidade visual em exposição nos diferentes níveis. Hitman 2 não é um portento ao nível do fotorrealismo ou da animação, mas é suficientemente competente para estabelecer com sucesso a atmosfera destes locais e para premiar visualmente a exploração do jogador. A banda sonora nunca se destaca verdadeiramente, já que a obra prefere deixar os sons provenientes dos ambientes que habitamos assumir o destaque principal. Diga-se, contudo, que a vocalização é excelente, embora não seja um dos focos da obra.

Hitman 2 não revoluciona, como já se percebeu, a sua fórmula, nem precisava de o fazer. Acima de tudo, esta sequela é uma iteração extremamente sólida de algo que já apresentava níveis bastante elevados de qualidade. Uma autêntica celebração do que de melhor a série tem para oferecer, isto é, um recreio para assassinarem os vossos alvos das mais distintas e mirabolantes formas possíveis, Hitman 2 é uma obra que delícia os fãs e que se mostra igualmente convidativa a novos jogadores. É uma pena que os novos modos não sejam melhor aproveitados.

veredito

Hitman 2 não revoluciona a jogabilidade, que já era excelente, mas é uma iteração segura do seu antecessor. O design de níveis volta a ser formidável e a oferecer recreios propensos a assassinatos criativos, estratégicos, caóticos e hilariantes.
8 Design de níveis excelentes. Variedade de locais e quantidade de conteúdo. Narrativa fica a meio. Novos modos podiam ser melhor aproveitados.

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Hitman 2

para PC, PlayStation 4, Xbox One

Lançado originalmente:

31 December 2018