Dar personalidade a um conjunto de píxeis, que podemos identificar como uma personagem, é um verdadeiro milagre de programação. Não são os visuais que tornam uma personagem interessante e rica em carácter, mas sim a escrita dos seus diálogos, dos seus comportamentos e das suas emoções que a fazem ser única e, por vezes, memorável.

Horace é o labor de Paul Helman, um apaixonado por videojogos que destilou todo o seu amor por esta forma de arte interativa na sua obra. Este jogo independente é uma verdadeira homenagem aos clássicos jogos que faziam arte com os píxeis debitados por máquinas como a Super Nintendo Entertainment System ou a SEGA Mega Drive. Contudo, o seu grande destaque vai para a emocionante narrativa de um robô que vai ganhando, gradualmente, a sua própria consciência, sem nunca desrespeitar as conhecidas Leis de Asimov.

A narrativa do robô Horace vai crescendo até um ponto em que se vê confrontado com um futuro em que a humanidade está completamente dilacerada, num mundo pós-apocalíptico. Não é tarde que Horace se questiona, a si e ao seu dono, sobre o proprósito da sua vida. Intrigado com esta questão filosófica, o dono do robô diz-lhe que o seu grande objetivo de vida é de limpar, colocando um milhão de objetos que têm o lixo como destino nesse mesmo local: o contentor do lixo. No fundo, podemos assumir que o dono deste robô disse à sua máquina para ser um lixeiro.

A história de Horace é contada de uma forma adorável, com a clara ingenuidade do robô a ser destacada em muitos dos momentos em que há um segmento em vídeo. Para um jogo de plataformas bidimensional, Horace consegue ser muito engraçado, tem uma capacidade inata de ser surpreendentemente cómico para um robô que ainda está a aprender que é um ser não-vivo com consciência própria. 

Qualquer jogo vai, normalmente, muito mais além do seu aspeto gráfico. Contudo, é sempre através da arte visual que se consegue ter uma primeira impressão e Horace deixa-nos bem impressionados desde os primeiros momentos. O jogo de Helman situa-se entre o que já foi produzido em consolas domésticas dos anos oitenta e noventa, a duas épocas conhecidas por 8-bit e 16-bit. É estranho ver estes dois estilos em simultâneo, mas funcionam perfeitamente bem. 

Também a música de Horace merece largos elogios, pois adequa-se muito bem ao que está a acontecer no ecrã. Quando deambulamos calmamente pelo cenário, quase não notamos que a música está lá, mas nos momentos de ação com sinal de urgência o ritmo da música já é bem mais acelerado. É nos acontecimentos com uma forte carga emocional que percebemos a importância que uma banda sonora tem num videojogo e, felizmente, Horace tem um conjunto de músicas que reflete bem a carga sentimental desta jornada. 

Helman já disse publicamente que tem um certo apreço por clássicos de plataformas. A sua produção não deixa dúvidas para este facto, pois não faltam mecanismos da jogabilidade que refletem a sua paixão por grandes clássicos contemporâneos. Por exemplo, os nomes mais sonantes, onde se vê onde Helman foi beber inspiração para Horace, serão Super Meat Boy e VVVVVV. É aproveitada a jogabilidade de enorme precisão e exigente da Team Meat, assim como as mecânicas que nos permitem brincar com a força da gravidade da obra de Terry Cavanagh. Assim, Horace destaca-se por ser um jogo desafiante e bastante original. 

Os níveis estão meticulosamente desenhados, onde muitos parecem impossíveis de resolver. Porém, à medida que se progride vemos a resolução à nossa frente. O robô Horace nunca morre, mas sempre que a sua vida termina, este ressuscita num checkpoint muito próximo do sítio onde perdemos. E caso estejam a ter muitas dificuldades - pois há áreas bem complicadas de ultrapassar - o jogo oferece-vos um escudo que vos permite aguentar mais um ponto de dano. 

Horace é um jogo fenomenal que está particularmente adequado a quem começou a ter contacto com os videojogos nos anos oitenta e noventa. Todavia, mesmo quem descobriu recentemente este meio de entretenimento ficará, certamente, maravilhado com a proposta de Horace. Se gostam de uma boa narrativa e de um bom desafio, Horace é o achado perfeito desta procura.