É muito provável que os jogadores mais novos não compreendam o charme de obras como Horizon Chase Turbo. Claramente inspirado em títulos como Out Run, o jogo da Aquiris Game Studio chegou originalmente aos dispositivos móveis, sendo posteriormente adaptado ao PC e PlayStation 4 em maio e, finalmente, ganhando mais um fôlego de vida com a publicação na Switch e Xbox One no final de novembro.

Aproveitando as novas versões, tive agora oportunidade de experimentar o labor da produtora brasileira e ser agradavelmente surpreendido. No seu cerne está a jogabilidade arcada, obviamente, mas muito do prazer e diversão está intrinsecamente associado aos recantos da memória onde ainda estão armazenadas as corridas disputadas numa outra fase da vida, antes de discos rígidos, DLCs e jogos oferecidos mensalmente pelas diversas subscrições.

Mas antes de soar demasiado a Velho do Restelo, Horizon Chase Turbo conta com quatro modos de jogo, nomeadamente, World Tour, Tournament, Playground (na Switch e na Xbox One) e ainda Endurance, importando destacar que nem todos estão disponíveis assim que começam a jogar. O principal, World Tour, é onde passarão certamente a maior percentagem do vosso tempo, levando-vos a vários locais à volta do Globo, começando na Califórnia e passando pelo Chile, Brasil, África do Sul, assim como por locais mais peculiares, nomeadamente a Islândia, a Índia, a China, o Japão e o Havai, entre outros - são quase 50 cidades espalhadas por 12 regiões.

É um modo com uma longevidade interessante, até porque cada local conta com várias provas (mais de cem corridas) e até provas específicas em que um bom lugar garante melhorias para os vossos carros. Sem grande surpresa, o progresso está associado ao que fazem na pista: o número de pontos que ganham é medido com base na posição em que terminam a corrida, mas também nos Tokens que apanharem e no combustível que têm no depósito quando cruzam a linha de meta. Isto fará com que desbloqueiem novos cenários, tal como novos carros para a vossa garagem - e se estão a questionar se será necessário fazer grinding para progredir, a resposta é sim. Não é o reinventar de nada e são processos já testemunhados em inúmeros títulos dos género.

Também de forma segura, os carros que vão desbloqueando têm vários parâmetros para definirem qual é o melhor para o vosso estilo de condução. Por exemplo, podem sentir-se mais confortáveis com uma bólide que ofereça melhor velocidade máxima ou melhor manuseamento, ou um veículo com melhor aceleração ou melhor nitro. A escolha é vossa desde que tenham o carro desbloqueado. Com o concluir das provas de melhorias, podem ir tendo várias atualizações instaladas.

Os problemas começam a surgir, não na componente da jogabilidade associada ao controlo do vosso carro, mas sim à forma como os adversários ficam progressivamente mais agressivos e, inevitavelmente, acabam por estragar várias corridas sem que o jogador tenha grande culpa. Sendo um jogo arcada a piscar o olho a tempos idos, convém recordar que começam sempre as corridas na retaguarda do pelotão, ou seja, têm um determinado número de voltas para tentar o melhor lugar possível.

Por diversas vezes, vê-se claramente os adversários a ajustarem a trajetória para se colocarem exatamente à nossa frente. Isto aliado à forma como os adversários são por várias vezes dispostos na pista imediatamente a seguir a curvas fechadas, resulta em colisões que fazem o jogador perder segundos que nos níveis mais avançados se revelam ser vitais na altura de almejar os lugares de pódio. As saídas de estrada, particularmente se colidirem com algum objeto, são também convites a recomeçar a prova.

Ganhar é sempre bom, sobre isso não há grandes dúvidas, mas em Horizon Chase Turbo não é tudo. Ao longo das provas há Tokens azuis espalhados pista e apenas se os conseguirem apanhar a todos (e ganhar a corrida) é que ficam com o Super Trophy, sinal que completaram as provas a 100%. Acreditem que se estiverem a tentar o melhor que sabem para desbloquear estes troféus e a Inteligência Artificial estiver na disposição de vos prejudicar, Horizon Chase Turbo vai buscar memórias, sim, mas vai buscar as memórias de quando os jogos dessas décadas eram muito mais penalizadores que as ofertas atuais.

Outro detalhe sobre as corridas que tem obrigatoriamente que ser mencionado é o combustível. Ao longo dos traçados terão que “apanhar” o combustível que está espalhado pelas voltas ou acabarão inevitavelmente por ficar apeados na pista. Lembram-se das diversas caraterísticas dos carros que mencionei anteriormente? O combustível é uma delas. Durante o meu tempo com Horizon Chase Turbo nunca senti que fosse uma condicionante que obrigasse a repensar a estratégia por completo, mas é uma condicionante, um medidor a que terão que prestar atenção, tal como o Nitro.

Além do World Tour, o modo Championship faz jus ao nome e é composto por torneios compostos por um conjunto de corridas, ou seja, nada de extraordinário. Além disso, quando conseguirem desbloquear o modo Endurance (terminar o World Tour ou ganhar todos os Master Tournaments) estão prontos para enfrentar verdadeiras jornadas em frente ao ecrã, pois aqui os campeonatos podem passar a centena de corridas. Isto para escrever que não pensem que vão deixar o jogo para trás em apenas algumas horas, especialmente se quiserem desbloquear todos os Super Trophies.

Uma forma de sanar a IA ocasionalmente estapafurdia é experimentar a componente multijogador da obra. Horizon Chase Turbo mostra que o ecrã dividido ainda não é uma relíquia pretérita, sendo aliás uma boa forma de aumentar a longevidade de um título quando bem implementado. É também ideal para desanuviar dos modos mais longos do jogo, prestando-se bem a curtas sessões que podem ou não desaguar em amuos, restando saber se de quem comprou o jogo ou dos convidados, sim porque o ecrã pode ser dividido até quatro jogadores em simultâneo.

Para o final ficam os capítulos técnicos. Como podem ver pelas imagens que acompanham este texto, a Aquiris foi bastante inteligente na escolha visual que fez. Primeiro porque não se cola em demasia às obras do passado, o que retiraria uma identidade própria ao seu jogo, mas também porque o estilo alicerçado em polígonos de baixa resolução permite que o jogo não tenha quebras notória na framerate, o que é importantíssimo numa proposta deste género.

Associado ao prazer que se retira das provas, o departamento gráfico consegue mostrar uma sensação de velocidade impressionante, chegando a ser quase hipnótica a forma como os traçados se formam e desaparecem à nossa frente. Outro ponto a destacar é a diversidade dos cenários incluídos. Jogar “à volta do mundo” permite que as pistas se estendam desde desertos à neve, passando por panos de fundo icónicos, como a Golden Gate Bridge em São Francisco. O que a produtora fez foi pegar nos recursos que tinha - não, Horizon Chase Turbo não tem a fidelidade gráfica de Forza ou Gran Turismo - e usá-los a seu favor, misturando a velocidade com cores que pegam nas texturas e lhe dão um encanto próprio.

E finalmente, a banda sonora, um dos pontos mais altos do jogo. Composta por Barry Leitch, músico que já tinha trabalhado em Top Gear e Lotus Turbo Challenge, duas das inspirações do jogo, é uma sinfonia em sintetizadores que remetem automaticamente para esses jogos anteriores, mas que se enquadra na perfeição na identidade de Horizon Chase Turbo. É uma banda sonora que vale a pena escutar, mesmo que não tenham comprado o jogo, tal como podem fazer na página oficial da obra.

Resumidamente, bastante do que faz, Horizon Chase Turbo faz muito bem. Evoca alguns dos clássicos arcada que ajudaram a definir esta indústria, mas não chega ao mercado sem uma identidade própria. Tecnicamente inspirada, a obra da Aquiris peca nos picos de dificuldade que vão chegando graças a uma Inteligência demasiado agressiva e a um efeito rubber banding que desmotiva ocasionalmente a aplicação de toda a nossa habilidade. Felizmente, estes momentos não são tudo aquilo que a obra faz e com alguma perseverança é a diversão e a nostalgia que vai reinando. A SEGA podia e devia prestar atenção a obras como esta, pois o público para um Out Run novo está cá e os criadores com talento também.