Pedro Martins por - Feb 23, 2022

Horizon Forbidden West – Análise

O sucesso de uma obra eleva as expectativas para a continuação. Horizon Zero Dawn (Análise VideoGamer Portugal) vendeu mais de vinte milhões de unidades no PC e na PlayStation 4, sendo uma das joias da coroa dos PlayStation Studios desde 2017. Agora, contudo, chegou o momento da Guerrilla Games continuar a aventura de Aloy e companhia em Horizon Forbidden West.

Quando os créditos finais rolam pelo ecrã, é muito fácil sentirmos a grandiosidade da aventura que experienciámos. Foram dezenas de horas que transformaram a protagonista e, consequentemente, deixaram o jogador numa posição bastante diferente da que estava quando os primeiros passos foram dados. É uma sequela memorável e que raramente baixa a intensidade e o sentido de grandiosidade.

Aloy não tem uma vida fácil em Forbidden West, que narrativamente decorre anos após as máquinas terem consumido a vida que animava o planeta Terra. A humanidade está caída de joelhos, mas graças ao projeto Zero Dawn pode evitar a iminente extinção. O argumento entrega os píncaros do que a tecnologia consegue fazer com laivos quase retro de uma sociedade que vive residualmente em bolsas espalhadas pelo mundo do jogo.

No centro da trama está uma Inteligência Artificial (IA) chamada Gaia. O humano devia conseguir cuidar do humano, mas aqui Gaia é essa automatização para tentar manter o planeta a funcionar. Ou seja, devia ser capaz de controlar autonomamente processos que fariam o básico para que os humanos tivessem oportunidade de continuar a viver – funções como tornar o ar e a água consumíveis.

Mas uma IA não consegue fazer tudo sozinha, pelo que havia nas máquinas a manifestação corpórea dessa tarefa. Como provavelmente adivinharam, são máquinas que deixaram de ser ajudas à humanidade, tornando-se progressivamente ameaças mais e mais perigosas. Vítima de um ataque cibernético, Gaia precisa de ser reconstruida e, consequentemente, as suas funções primordiais para a sustentabilidade da humanidade.

É Aloy que fica responsável por essa tarefa, naturalmente. Contudo, antes do arco narrativo terminar, há vários degraus que ajudam a narrativa a ganhar estrutura, incluindo encontrar e convencer um grupo de aliados, uma mistura de rostos conhecidos e novos, para a vossa cruzada que vos levará a reunir Demeter, Poseidon e Hephaestus.

O último terço do arco poderá ser demasiado estapafúrdio para muitos, contudo, importa não esquecer que estamos perante uma obra que não começa no piso zero. Ou seja, as motivações de Aloy apresentam-se num patamar elevado desde os momentos iniciais, pelo que seria expectável que o término da aventura fosse uma oitavas narrativas acima.

Um dos veículos usados para a Guerrilla Games contar esta história não é propriamente uma novidade. Estamos perante uma heroína fraca em comparação à ameaça que terá que derrotar, algo que anda de mãos dadas com a árvore de habilidades da jogabilidade. Há traições e revelações, há mortes que tentam – nem sempre com grande sucesso – embutir momentos emocionais na história e há, como não poderia deixar de ser, uma epopeia pelas várias regiões do mapa antes de nos conduzir às ruínas de São Francisco antes da estocada final.

Horizon Forbidden West apresenta-nos um recreio digital impressionante, diversificado, detalhado. Antes de lá chegarmos, todavia, isto serve para atestar que o argumento do jogo sofre de um mal que afeta incontáveis videojogos em mundo aberto. Realizar apenas as missões principais não é aconselhável, pelo que se sente o estilhaçar da trama graças a um chorrilho de missões secundárias e de pontos de interesse que insistentemente aparecem no nosso mapa.

É verdade que a maioria destas missões não têm o mesmo encanto das que pertencem à linha primária, mas servem não só para fazer o jogador tocar em diversos pontos do mapa, como também para ganharem experiência e para recolherem preciosos materiais. Há recados, tarefas, contratos de sucata, territórios de caça, poços de combate, acampamentos e postos rebeldes, ruínas que contêm relíquias e até uma secção dedicada aos Pescoçudos. Sim, podem acompanhar estas magníficas máquinas, preparar e realizar a sua conversão, algo que nunca perde o sentido de imponência.

Há muito para fazer, portanto, e felizmente é algo que continua mesmo depois de terminarem o jogo. A partir da vossa base, o fim do jogo não é o fim da vossa estadia em Horizon Forbidden West, caso queiram terminar aquilo que ficou por fazer. E, graças a uma mecânica que chega já no último terço da aventura, viajar entre as diferentes áreas do cenário é algo genuinamente prazeroso.

A experiência da produtora holandesa está em evidência em praticamente todos os metros do jogo. Independentemente do que estiverem a fazer, Aloy permite que o jogador desfrute da jogabilidade mediante o seu estilo. Os cenários foram pensados para tirarem partido destas abordagens, ciclos da jogabilidade que nunca me fizeram sentir cansado.

Seja contra um boss ou contra um grupo de máquinas que encontrem no mapa, estudar as suas fragilidades (quais são os seus pontos fracos, seja no seu corpo ou em termos de elementos), passear-nos entre os pontos que permitem a cadência furtiva, e irmos lascando a sua vida, fazendo diferentes peças saltarem do seu corpo até ao derradeiro ataque final, é algo verdadeiramente satisfatório. Ou então, optar por um confronto direto, entrando em cena com uma mistura de ataques leves e poderosos.

Aloy tem arcos, lanças, fisgas, lança-dardos; consegue colocar armadilhas; a partir de um determinado momento, consegue tirar vantagem dos pontos com água, recebe um Puxador (permite puxar objetos), um Escudo Alado (permite pairar no ar), um Detonador e um Corta-Erva, entre outros. A produtora não está apenas a dar-nos motivos para diversificarmos o nosso estilo de jogo, está também a dar-nos razões para regressar a partes dos mapas com as novas ferramentas e aceder a locais anteriormente interditos.

Combinem tudo isto com diferentes fatos, com diferentes munições, com um chorrilho de recursos, e com uma árvore de habilidades dividida em seis categorias, e começam a perceber que a Guerrilla sabia perfeitamente que ter uma aventura com trinta, quarenta, cinquenta ou sessenta horas de longevidade só resultaria se a mesma fosse reinventada diversas vezes durante a sua estadia na consola. E resulta, comigo a reparar que estava a criar munições para tentar algo novo depois de automaticamente ter usado o Foco para procurar pontos de interesse nos cenários e nas máquinas.

O Foco de Aloy é crucial. É graças a esta habilidade que ficam a conhecer os potenciais caminhos que podem seguir graças às saliências que são destacadas a amarelo. Ou, por exemplo, partes do cenário que podem ser acedidas depois de usarem outra ferramenta, como o Puxador. E é também com o Foco que podemos descobrir valiosos baús com materiais para o aperfeiçoamento do equipamento ou para o fabrico de munições.

É impressionante a hegemonia alcançada entre praticamente todas as componentes da jogabilidade. Há um sentido de preparação para os grandes confrontos e há a inquestionável satisfação de saquear o corpo de mais um colosso metálico caído. E os confrontos propriamente ditos são também um constante bailado entre prestar atenção aos adversários e às munições no nosso inventário – o momento para o fabrico e reabastecimento provou ser importantíssimo.

Toda esta experiência sai beneficiada pelo hardware da PlayStation 5, consola onde tive oportunidade de analisar a obra. Já falaremos do grafismo, mas primeiro é imperativo destacar o DualSense. A coluna de som dá profundidade ao jogo, mas é o feedback háptico e os gatilhos adaptáveis dinâmicos que brilham mais alto.

A tensão do arco de Aloy é algo que pode parecer minúsculo, mas que revoluciona a aventura. E sempre que forçam uma abertura com o R2, necessitarão de aplicar força adicional, um detalhe que nos transporta um pouco mais para este universo. Horas após o seu arranque, mesmo quando o factor novidade perdeu ímpeto, são mecânicas intrinsecamente associadas a Horizon Forbidden West e, novamente, uma demonstração do quão bom o comando pode ser quando os criadores sabem como incorporar as suas funcionalidades únicas.

Tecnicamente, estamos perante uma proposta memorável. É verdade que os tempos de carregamento são rápidos, mas o mais impressionante é o mundo que é carregado. A qualidade das texturas, especialmente as que são usadas na modelagem das personagens, não deixará ninguém indiferente, tal como o design das diferentes áreas. A produtora sabe como fazer a sua introdução, enchendo a retina de quem joga e fazendo o queixo cair.

Os efeitos da neve, da água, tanto na forma como dá vida ao mundo, como num determinado nível onde é senhora dos acontecimentos, tudo parece ter sido pensado desde o ínfimo detalhe até à grandiosidade das áreas abertas que ocupam todo o nosso campo de visão. Há momentos em que estamos no meio da vegetação e em que Horizon Forbidden West brilharia mesmo que fosse uma obra assente em cenários pequenos. Mas não. Estamos perante uma proposta com uma fidelidade gráfica que se torna ainda mais impressionante no momento em que percebemos o quão grande é este mundo.

O mesmo pode ser dito sobre o conceito e a execução do design das máquinas. Há algumas que perdem o momentum graças à sua repetição pelo mundo de jogo, mas a maioria marca o momento com a sua imponência. Há um segundo em que apenas as apreciamos, o detalhe dos tubos e dos apontamentos metálicos; os pontos de iluminação nos seus olhos, os efeitos dos seus ataques.

Assimilando o que acabei de viver com Horizon e relembrando a minha estadia em obras como Ratchet & Clank: Rift Apart, torna-se claro que esta geração de consolas, ou a PlayStation 5 neste caso específico, é um triunfo técnico. Forbidden West revela que quando os produtores têm talento (e o músculo financeiro), as ferramentas estão ao seu dispor para a criação de peças de entretenimento como nunca antes.

A sonoplastia também não vacila. A banda sonora é épica o suficiente para acompanhar os grandes acontecimentos do jogo e para nos embalar as ações nos trechos de descoberta. Sabe perfeitamente o que está a acontecer no ecrã e dá-lhe força. A vocalização é dominada pela excelente Ashly Burch como Aloy. Não é a única a ter uma performance notável, mas está claramente num patamar único.

Não há um grande passo dado em falso. Ocasionalmente encontrei alguns erros técnicos, o mais caricato a ser uma personagem que ficou presa num loop sobre si mesma que foi visível durante a próxima cena em vídeo, mas o jogo nunca quebrou a minha vontade de querer regressar uma e outra vez, de querer continuar a explorar e a encontrar segredos. O arco narrativo ganhava em ser mais focado na estrutura do jogo como um todo, mas o que a sequela de Zero Dawn faz bem, faz muito bem.

Fica ainda uma nota para um dos efeitos secundários que senti com o sistema de combate. Como disse, nunca deixou de me deixar investido, mas com o desbloquear de mais e mais habilidades, tornou-se ligeiramente avassalador associar as combinações do corpo-a-corpo com tudo o resto. Felizmente, não é algo que nos penaliza em demasia, uma vez que a obra permite este grau de experimentação. O jogador vai crescendo com esta árvore de habilidades, percebendo o que resulta de maneira mais eficaz com o seu estilo de jogo.

Horizon Forbidden West é um triunfo, melhorando o que o título de estreia tinha conseguido na PlayStation 4 e tornando-se uma das obras PlayStation 5 de 2022. Há muito para fazer até ao momento em que estarão prontos para passarem para um novo jogo. E quase tudo o que fizerem será o despertar de uma boa memória. Estamos perante um deslumbrante recreio digital em que humanos e máquinas são tão díspares quanto idênticos – da sua junção nasce um conto imperdível.

veredito

Horizon Forbidden West é uma epopeia futurista que enche as retinas durante dezenas de horas. Mesmo com alguns soluços narrativos e técnicos, é uma aventura obrigatória.
9 Tecnicamente soberbo na PlayStation 5. Camada adicional de imersão patrocinada pelo DualSense. Mapa pejado de tarefas, missões e pontos de interesse. Narrativa devia ser mais focada.

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Horizon Forbidden West

para PlayStation 4, PlayStation 5

Sequela do aclamado RPG pós-apocalíptico dominado por máquinas animalescas.

Lançado originalmente:

18 de fevereiro, 2022