Depois de quase três anos de adiamentos constantes e de lançamentos exclusivos algo esparsos para aquilo que a produtora nos habituou durante a anterior geração de consolas, estes primeiros meses de 2017 têm sido absolutamente demolidores para os lados da Sony e da PlayStation 4. Em dois meses, a consola de maior sucesso da atualidade recebeu Gravity Rush 2, Yakuza 0 e Nioh, preparando-se agora para receber NieR: Automata e Persona 5 em março e abril, respetivamente. Juntando a estes nomes o de The Last Guardian, que chegou às lojas em dezembro, e percebemos facilmente que o catálogo exclusivo da consola teve um crescimento assinalável e com títulos para todos os gostos durante os últimos meses.

A espera foi longa, mas a PlayStation 4 e os seus fãs parecem estar agora finalmente a colher os frutos de vários meses e até anos de antecipação relativamente aos títulos que os principais membros da Sony Worldwide Studios e parceiros third-party têm estado a trabalhar desde que a consola foi lançada para o mercado em novembro de 2013. Ainda assim, no meio de tudo isto, um nome eleva-se em relação a todos os outros. Apontando por muitos como a próxima grande propriedade intelectual da empresa nipónica, Horizon Zero Dawn está finalmente pronto para agraciar as consolas de todo o mundo depois de ter sido, tal como vem sendo habitual nos últimos anos para os principais exclusivos da Sony, empurrado dos últimos meses de 2016 para o primeiro trimestre do novo ano.

Imagens Analise Horizon Zero Dawn

Naquilo que pode ser descrito como um “abrir das asas” para a Guerrilla Games, estúdio mais conhecido pelo seu trabalho em Killzone, uma série de Atiradores na Primeira Pessoa que nunca conseguiu ter a popularidade desejada pela produtora, Horizon Zero Dawn é a prova de que limitar as mentes criativas de uma equipa à mesma propriedade intelectual e ao mesmo género de forma perpétua é muitas vezes um erro. O novo título é uma rutura com tudo aquilo que o estúdio produziu no passado. Um Role-Playing Game, na terceira pessoa, num mundo pós-apocalíptico e no qual as armas de fogo são substituídas por um arco e flechas. Uma brisa de ar fresco para uma casa de desenvolvimento holandesa que se encontrava estagnada, à espera de uma oportunidade para demonstrar todo o seu potencial.

Apesar de alguns percalços expectáveis, a Guerrilla Games merece todos os elogios que tem recebido pelo seu excelente trabalho na criação de um universo completamente original e pela qualidade da sua primeira aventura no popular, mas difícil de dominar género RPG. Acabadinho de terminar a campanha após mais de 40 horas de jogo e com um taxa de conclusão acima dos 90%, o veredito relativo ao novo exclusivo PlayStation 4 é claramente positivo. Não só estamos perante uma excelente obra, como podemos perfeitamente estar perante um dos melhores títulos que a consola receberá durante todo o seu período de vida. Não é perfeito, como quase nenhum jogo o é, mas consegue permanentemente ofuscar os seus defeitos com momentos de brilhantismo e espetacularidade dignos das melhores experiências videojogáveis.

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Como já referi, Horizon Zero Dawn é um RPG que tem lugar num futuro pós-apocalíptico longínquo, no qual o que resta da humanidade aprendeu a viver com as condições que lhe foram oferecidas. Uma humanidade de regresso à Idade da Pedra, munida com lanças, arcos e flechas e que vive em comunhão perfeita com a Mãe Natureza, natureza essa que aproveitou para voltar a reclamar o território que lhe havia sido retirado por uma civilização cada vez mais sofisticada e tecnologicamente avançada. Dito isto, aquilo que podia ser descrito como o tradicional cenário de um mundo vários anos após o desaparecimento do Homem é completamente estilhaçado pela existência de majestosas criaturas robóticas que coabitam o território com a vida orgânica e cujas origens estão envoltas em total mistério.

Na verdade, o mistério é o elemento condutor de toda a experiência e uma das razões pelas quais o mundo deste título é tão fascinante. A vontade de descobrir o que aconteceu aos Ancestrais, as origens das Máquinas e toda a mitologia inerente ao universo criado pela produtora mantém-nos investidos na aventura do princípio ao fim. Perceber como as diferentes tribos que ocupam o mapa do jogo encaram e interpretam aquilo que não têm a informação, nem o conhecimento necessário para compreender ajuda o jogador a sentir que está num mundo em que nada foi deixado ao acaso, um mundo que existe muito para lá das suas ações, um mundo que já escreveu a sua boa dose de história durante o período que sucedeu a queda da civilização e antecedeu os eventos relatados durante a campanha do jogo.

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Desvendar lentamente o mundo, os mistérios e os segredos de Horizon pode ser o elemento mais importante da experiência, mas a sua qualidade não seria a mesma se a obra não tivesse em Aloy uma protagonista capaz de carregar o título durante as suas dezenas de horas de duração. Repleta de personalidade natural, que pode ser ligeiramente moldada em alguns momentos - demasiado escassos, diga-se - de diálogo, Aloy capta desde os primeiros minutos a simpatia do jogador. Com uma enorme tendência para falar sozinha e para assumir um tom sarcástico - à la Nathan Drake - nas conversas com as várias personagens secundárias do jogo, a protagonista não tem medo de mostrar emoção, de questionar as motivações e intenções daqueles com quem interage e, acima de tudo, assume-se como alguém completamente independente sempre pronta a assinalar a lógica errática dos mitos e das religiões pelas quais algumas tribos se regem.

Fazendo usos de opções de diálogo que prolongam conversas e de colecionáveis espalhados pelo mundo de jogo, o jogo expande a sua mitologia e oferece um sempre importante contexto às nossas ações e aos eventos que se desenrolam à nossa volta, oferecendo inclusivamente um vislumbre do mundo antes das Máquinas. Ainda assim, nem tudo resulta na componente narrativa do título. As últimas horas da campanha, por exemplo, são marcadas por um bombardeamento excessivo de informação que beneficiaria certamente se tivesse sido espalhada por diferentes fases da história. Para além disso, os antagonistas ficam bastante aquém e parecem existir apenas porque era necessário ter um vilão no jogo, enquanto que muitas das principais personagens secundárias também nunca conseguem tornar-se memoráveis.

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Abandonando a mitologia e a narrativa, Horizon Zero Dawn tem na sua jogabilidade e no seu mundo aberto deslumbrante os trunfos necessários para transformar todos os momentos não relacionados com a história em sequências igualmente memoráveis. Extremamente propensa a momentos espetaculares e confrontos memoráveis que vos farão suar e suspirar de alívio após serem concluídos, a jogabilidade destaca-se sobretudo pela sua capacidade para se manter fresca graças à diversidade de opções que oferece e circunstâncias em que coloca o jogador. Sim, os inimigos mantém-se constantes durante a aventura e sim, o objetivo passa quase sempre por destruí-los, contudo, essa descrição está longe de fazer justiça à profundidade apresentada pelo seu combate.

Aliás, a diversidade é a chave do sucesso da fórmula em que assenta a jogabilidade do título, sendo que todas as opções são introduzidas de forma gradual acompanhando o aparecimento de máquinas sucessivamente mais exigentes e desafiadoras. Com um arsenal de armas que inclui arcos capazes de disparar flechas com diferentes danos elementares, fisgas que disparam bombas com efeitos semelhantes, canhões que destroem componentes dos inimigos, armadilhas e o muito útil lança-cordas que imobiliza inimigos deixando-os vulneráveis aos vossos ataques, a abordagem aos confrontos é sempre deixada à discrição do jogador. Apesar da afluência de Máquinas pelo mundo, a sua dimensão e a existência de verticalidade e de vegetação para esconder a vossa presença colocam com sucesso o jogador na pele do caçador, mesmo que muitas vezes a presa tenha uma dimensão superior ou seja mais poderosa que vocês.

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A variedade de máquinas é mais extensa do que o esperado, mas nunca se torna exagerada, acabando por ser utilizada como um método para forçar o jogador a explorar ao máximo o arsenal que tem à disposição. Tal como as vestimentas disponíveis nos comerciantes para Aloy adquirir, cada máquina tem as suas próprias resistências e fraquezas, pelo que os ataques de fogo que destroem rapidamente os Trincadores não têm a mesma eficácia nos Pulverizadores de Fogo. Perceber a melhor estratégia para derrotar um inimigo passa quase sempre pela utilização do Foco para os analisar, uma vez que é também através dele que descobrirão os diferentes componentes de destaque que compõem a máquina em questão e a forma mais fácil dos obter ou destruir.

Mais do que os desafios que por vezes representam, as máquinas são acima de tudo uma fonte de recursos para criar as tão necessárias munições que utilizarão nas batalhas seguintes. Frente aos inimigos mais poderosos que o jogo tem para oferecer, o segredo passa muitas vezes pela destruição das suas armas mais poderosas que, em alguns casos, podem depois ser utilizadas por Aloy para desferir danos significativos. Contudo, é de notar que embora looting e crafting sejam componentes importantes da jogabilidade, não existe qualquer forma de utilizar os recursos para criar poções de cura ou de aumento de vida, sendo que a obtenção destas é feita através dos comerciantes ou através de inimigos derrotados. Existe, no entanto, a possibilidade de colher plantas medicinais espalhadas pelo cenário para recuperarem rapidamente saúde sem gastarem poções.

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Talvez uma das mecânicas mais subaproveitadas é a possibilidade, após a conclusão de determinadas missões, de converter máquinas para se tornarem vossos aliados. Seja para combaterem a vosso lado ou para servirem como montada para se deslocarem pelo mapa de forma mais rápida, dei por mim a utilizar pouco esta mecânica e isso deveu-se muito ao facto do jogo permitir que o jogador suba a personagem de nível a uma velocidade bem mais rápida do que aquela a que introduz inimigos mais poderosos. Em teoria, a conversão de máquinas é mais uma opção útil para delinearem a vossa estratégia de combate, contudo, foram raras as vezes em que senti a necessidade de a utilizar, especialmente porque o mundo aberto dá azo a que seja muito fácil fugir aos inimigos ou, no caso dos mais velozes, afastá-los da manada para combates mais justos no que diz respeito ao número de inimigos.

Como não poderia deixar de ser, Horizon Zero Dawn possui a sua própria árvore de habilidades através da qual poderão melhorar e adicionar determinadas habilidades de Aloy, entre as quais se incluem a possibilidade de chamar uma montada sem necessitar de converter qualquer máquina, aumentar a quantidade de plantas medicinais carregadas, aumentar os danos dos ataques corpo-a-corpo com a lança ou aumentar o tempo de concentração que abranda o tempo para que possam atingir o alvo com maior precisão. Não é, certamente, a árvore de habilidade mais complexa que algumas vez encontrarão num RPG, mas oferece alguns momentos de decisão ao jogador, ainda que provavelmente acabem a campanha já com todas as habilidades desbloqueadas, tal como eu o fiz.

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Dúvido que ainda não o tenham percebido, mas caso ainda restem dúvidas, Horizon Zero Dawn é um jogo lindíssimo. Graficamente impressionante e bem capaz de rivalizar com o que de melhor já se viu nesta consola em termos técnicos, a obra da Guerrilla Games é um regalo para os olhos que faz com que seja muito difícil não darem por vocês a parar momentaneamente o jogo para recorrer ao Modo Fotografia e capturar o cenário e horizonte que vos rodeia para a posterioridade. Jogado numa PlayStation 4 standard, o jogo brilha através do seu uso de cores vibrantes e diversificadas que criam uma atmosfera marcante que é realçada pelos diferentes ambientes que encontrarão ao longo da aventura.

Montanhas cobertas de neve, planícies e vales verdejantes de densa vegetação, cenários desertos e ruínas recheadas de segredos são os ambientes utilizados para criar um mundo cheio de segredos e que premeia visualmente a exploração do jogador. Contudo, como em qualquer outro título de mundo aberto, nem sempre tudo corre bem. Durante as minhas 40 horas com o jogo detectei alguns glitches visuais, alguns bugs que fizeram inimigos ficar presos no cenário ou, no caso de uma missão já perto do final, desaparecerem por completo após ter morrido na primeira tentativa. Já os soluços da framerate foram raros e nunca afetaram a jogabilidade. As transições entre dia e noite e de efeitos climatéricos são também por vezes algo abruptas.

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No entanto, o principal problema técnico de Horizon está relacionado com a qualidade das animações faciais das personagens que é francamente má ao ponto de distrair o jogador durante os momentos de diálogo, sobretudo com personagens secundárias de menor importância. O sincronismo entre o movimento dos lábios e o som é inexistente e os tiques faciais de algumas personagens têm com frequência impacto negativo em momentos que se queriam mais emocionais. No que diz respeito à sonoplastia, o título apresenta uma banda sonora competente que se adapta perante os momentos narrativos e os momentos de jogabilidade, mas que nunca se preocupa em assumir um papel de maior destaque na experiência.

Horizon Zero Dawn é, indiscutivelmente, um dos melhores exclusivos do cada vez mais rico catálogo que a PlayStation 4 tem para oferecer e, muito provavelmente, o início de uma série que se prevê com um longo futuro pela frente. Com um universo misterioso que recompensa constantemente o jogador pelo tempo que lhe dedica, seja através da qualidade da narrativa ou da satisfação oferecida pela jogabilidade, o título do estúdio holandês faz tudo aquilo que se propõe a oferecer com um elevado nível de qualidade. Tem alguns problemas, claro, mas são apenas uma gota no oceano de diversão que é a experiência oferecida por esta obra.

Podem ler mais sobre a minha opinião relativamente à mitologia do universo de Horizon Zero Dawn aqui.