Publicado originalmente no PC em outubro de 2012, Hotline Miami foi adaptado para as plataformas Sony no final de junho e parece ter encontrado o seu habitat natural. Terminei a versão original quando ela foi lançada, aliás, comprei o jogo no dia em que ele chegou ao Steam, tornando-me um dos jogadores pré-correção que incluiu a compatibilidade com o comando da Xbox 360, portanto, sabendo perfeitamente o que é controlar os desígnios de Hotline Miami com um teclado, posso atestar que os comandos da PlayStation Vita refinam ainda mais uma jogabilidade que já era excelente.

Hotline Miami é um jogo de autor(es) e isso está no DNA, ou seja, é irrigado a todas as artérias principais do jogo. A história é literalmente um desculpa para espalharem a vossa crueldade por todas as missões que compõe o jogo. Recebem ordens para concluírem trabalhos sem grande ordem ou razão, são controlados por alguém hierarquicamente superior a vocês numa organização caótica. Não há grandes justificações dadas e poucos pedidos para que tal aconteça. Pelo telefone vão sendo conduzidos como um rato num labirinto que apenas se explica perto do final do jogo. Até lá, a personagem partilha a mesma angústia com o jogador e como em qualquer história sobre alguém que não controla o seu destino, isto serve para que criem laços emocionais com ela. O desespero é uma linguagem global.

O arco narrativo serve como um motor de busca e os resultados que apresenta são o que eleva este jogo ao estatuto de clássico. Como certamente podem imaginar, as tarefas que vos são pedidas estão longe de vos mandar à mercearia comprar fruta. Hotline Miami alimenta-se de uma brutalidade crua e cruel, sobretudo para as centenas que são ceifados à vossa passagem. Não se limitam a matar as pessoas, o jogo faz de vocês uma máquina sádica sem consciência ou sem raízes morais que o prendam a qualquer princípio da sociedade contemporânea.

As primeiras missões do jogo, aquelas que vos apresentam à sua jogabilidade, ainda vos fazem interrogar sobre a causa de tanta barbárie, porém, o maior problema moral de Hotline Miami é que é divertido, ou seja, não demora muito a que o jogador seja tão frio quando o joga. O sangue jorra em pixéis nostálgicos e cada vez mais estão rendidos às suas mecânicas, até que chega o momento de confronto pessoal em que por breves segundos se apercebem que acabaram de cortar a garganta a um desconhecido. Pior era se tivessem um espelho à vossa frente e percebessem que o fizeram com um sorriso nos lábios. Disse que Hotline Miami era divertido, talvez prazeroso fosse um adjetivo mais adequado.

A jogabilidade de Miami é excelente porque coloca imediatamente na prática a ação do botão que acabaram de pressionar. Tudo isto é feito com uma simplicidade atónita: apanham armas, usam-nas e pressionam rapidamente um botão para se certificaram que o alvo sucumbiu à vossa vontade. Tudo acontece a uma velocidade cruzeiro extremamente elevada, o que também fará com que morram muitas vezes, sobretudo quando a estratégia aumenta com o rácio de inimigos por nível. Morrer torna-se tão natural como matar, o que permite que façamos ajustes à nossa abordagem consoante for necessário. Como nunca chegam a perder muito tempo de evolução sempre que morrerem, poucas vezes se instala a frustração por não conseguirem progredir na história do jogo.

Essa estratégia começa quase sempre no ecrã precedente ao arranque de cada missão. Um dos aspetos mais carismáticos de Hotline Miami são as suas máscaras. Cada máscara oferece um efeito secundário que afetará diretamente a jogabilidade. Posso enumerar alguns dos efeitos mais interessantes, como por exemplo terem uma visão mais distante do cenário, andarem mais rapidamente, fazer com que os cães não ataquem, terem mais munições ou começarem o nível já equipados com uma faca. Escolhi estes exemplos porque ilustram bastante bem a amplitude daquilo que é passível de ser ajustado em cada nível. Obviamente, não começam o jogo com as mais de vinte máscaras desbloqueáveis - uma delas, Russel, é exclusiva das versões PlayStation - têm que cumprir certos requisitos para as obter, ou seja, têm um propósito extra para conseguirem encadear mais combos, obter uma pontuação mais elevada, enfim, Hotline Miami não quer apenas que consigam completar cada missão, quer que deem o melhor que têm durante o processo. Além disso, a adição de tabelas de liderança para cada nível é uma motivação extra para se aplicarem a fundo.

Tudo isto que descrevi até aqui trabalha em conjunto para dar a Hotline Miami um carisma inconfundível. Tudo é frenético e caótico, portanto mais cedo ou mais tarde vão começar a abordar as missões por fases, parando para respirar e estudar o que compõe o futuro do cenário em que estão incluídos. A versão PlayStation Vita coloca algumas funcionalidades em cima da mesa, como a habilidade de usarem o seu ecrã tátil para com um deslize do dedo verem um pouco mais à frente ou ainda a possibilidade de tocarem em cima do próximo alvo, fazendo com que a câmara do jogo se centre nele. Se nunca experimentaram o jogo, são pequenos ajustes que complementam uma máquina muito bem oleada.

Se Hotline Miami fosse um carro, a sua jogabilidade seria o motor que vos faz apreciar cada curva, contudo, os campos técnicos seriam o luxuoso interior que vos faz querer prolongar a estadia. O jogo desenrola-se em 1989 e a produtora fez questão que a sua apresentação representasse essa década. Néon por todo o lado, uso e abuso de cores garridas e cenários que nos relembram que a nostalgia é uma condição perigosa. Além da sua apresentação espampanante, o grafismo retro revela pormenores deliciosos, nomeadamente, inimigos a lerem o jornal, a conversar na casa de banho, a passearem o cão ou simplesmente a fumarem, aquilo que ainda não sabem ser o último cigarro das suas vidas. Ou seja, são pormenores que dão vida própria ao jogo, fazendo com que o jogador sinta que é parte passageira da vida daquelas pessoas.

Além disso, a banda sonora é talvez uma das mais icónicas dos últimos tempos. Com mais de duas dezenas de músicas, não há temas fracos que apenas estão no jogo para que quem escreve sobre o jogo tenha que escrever "com mais de duas dezenas de músicas". Jasper Byrne, Eirik Suhrke ou Elliot Berlin são apenas alguns nomes da extensa lista. O jogo avisa o jogador para ligar os auscultadores à PlayStation Vita para desfrutar do jogo e é um conselho sábio. Podia continuar a escrever sobre cada uma das músicas, porém, o melhor elogio que lhe posso fazer é que escrevi esta análise ao seu som, tornando-as importantes além do excelente ambiente que dão ao jogo.

A versão PlayStation Vita de Hotline Miami é uma excelente adaptação de um excelente jogo. O jogo parece ter sido pensado de raiz para utilizar os dois analógicos da portátil da Sony, o que será um alívio para os mais puristas que não equacionavam experimentar o jogo sem o uso de um teclado e de um rato. Pode-se pensar que todos os interessados em Hotline Miami já compraram a versão original, porém, como já passaram alguns meses sobre o seu lançamento, a versão destinada às plataformas Sony é a desculpa ideal para regressarem a abril de 1989.