O regresso a Hotshot Racing faz-se não só, mas sobretudo pela jogabilidade. Um frenético olhar para tempos idos nas propostas arcada, o jogo desenvolvido pela Lucky Mountain Games e Sumo Digital é uma homenagem a essas décadas pretéritas, conquistando o coração dos jogadores dispostos a sentirem imediatamente um emulsionar na nostalgia.

Quem experimentou títulos como Virtua Racing, Ridge Racer ou Daytona USA não precisará de muito tempo para começar a sentir a viagem no tempo que começa mesmo antes de colocarem as mãos no volante. O grafismo com polígonos determinados a ilustrarem os cenários que circundam as pistas e naturalmente a própria modelagem dos carros é uma pista irrefutável.

Inequivocamente arcada, a jogabilidade é facílima de compreender. Durante a contagem descrente antes da partida, tentem colocar as rotações na parte amarela. Se o conseguirem têm automaticamente direito a uma explosão de boost. Na primeira curva chega a coroa: fazer drift é um exercício que nunca se torna cansativo, primando sempre pela satisfação de colocar o carro no centímetro da pista desejado.

Fazer drift faz aumentar a barra de boost, que se apresenta dividida em quatro secções. O que guardam para a última volta, para a reta da meta, fica com a gestão que cada um terá que fazer das suas habilidades. E por falar em retas, colocarem o vosso carro atrás de um adversário é um exercício sempre útil, uma vez que o cone de aspiração tem um efeito vincado e mesmo determinante na velocidade que atingem, com o bónus a ser também o aumento da barra de boost.

Os processos são então objetivos, dando espaço para a habilidade de cada um falar mais alto. É verdade que notei alguns soluços ocasionais na framerate durante as sessões na PlayStation 4 Pro, mas a jogabilidade é alicerçada pelos sessenta fotogramas por segundo que o jogo consegue atingir. Isto faz com que o pensamento rápido seja acompanhado pela ferocidade dos cenários a passarem por nós, como se estivéssemos a bordo de um carrossel sem limite de velocidade.

Para continuar a escrever sobre a jogabilidade é preciso abordar a estrutura de Hotshot Racing. O modo Grand Prix está dividido em diferentes Grandes Prémios e cada um pode ser conquistado em diferentes graus de dificuldade. Contudo, podem participar em cada série de corridas escolhendo uma personagem de um elenco com oito personagens. E, não menos importante, cada uma tem um quarteto de bólides dos quais elegem finalmente aquele com que querem atacar os traçados.

Isto torna-se importante porque cada carro tem as suas próprias especificidades, como Velocidade, Aceleração e, sem grande surpresa, Drift. Podem optar por investir as vossas habilidades no carro que melhor se adequa às mesmas, ou optar por uma opção mais equilibrada, corretamente apelidada de Balanced. Esta escolha traduz-se naturalmente no que conseguirão fazer nas competições, especialmente nos modos de dificuldade Hard e Expert.

A Lucky Mountain Games quer colocar todos a sentirem a emoção da linha de meta cruzada na derradeira explosão de adrenalina. Quase todas as provas resultaram em vitórias conquistadas a palmo, algo que sublinha a importância do boost, sim, mas também denota um efeito rubberbanding bem presente. Por diversas vezes, depois de uma volta bem conseguida, há uma recuperação “milagrosa” da concorrência. Verdade seja dita, é um efeito que também beneficia o jogador, pelo que o sentimento de injustiça é mitigado, mas não desaparece.

Outro dos pontos inegáveis que marcam as corridas é a troca de tinta. Por outras palavras, é complicado realizarem voltas limpas, com a Inteligência Artificial a não ter grandes reticências no momento de atirar a competição contra a traseira do vosso carro ou atalhar pela melhor trajetória, mesmo que isso signifique perder tempo amolgando a chapa poligonal. Ainda assim, este aparente caos nunca chega a ser suficientemente agressivo para nos atirar contra as paredes ou para nos fazer perder o controlo do carro - desde que dediquem às provas toda a vossa concentração e que apliquem os reflexos sempre que forem solicitados.

Fora do modo Grand Prix, Hotshot Racing apresenta ainda corridas individuais, Time Trials, além da sua componente online e do multijogador local. Sobre a primeira opção, note-se que estão incluídos diferentes modos de jogo. Além do modo Arcade, há também Cops & Robbers e Drive or Explode. São interessantes variações, em que na primeira jogamos com um polícia ou com um ladrão, tentando evitar que os ladrões escapem ou tentando nós mesmos escapar. Na segunda opção temos que conduzir acima de uma determinada velocidade enquanto temos que lidar com o dano que sofremos e com a luta para evitar sermos eliminados.

Sobre a componente online, há corridas rápidas e corridas que contam para o rank. Contudo, após várias tentativas, é uma componente marcada pela falta de jogadores, o que não é um bom indício, especialmente se tivermos em consideração que o jogo chegou ao mercado há apenas algumas horas. Poderá vir a ganhar ou não adeptos, mas para já o arranque não é muito prometedor.

Tecnicamente, Hotshot Racing é uma obra com caracteristicas bastante apelativas. Além de ter um charme icónico, o grafismo é variado e pejado de detalhes nas animações próximas da pista. Desde os céus azuis às estradas no deserto ou no meio da selva, passando por troços citadinos, a obra faz um trabalho notável em fazer o jogador sentir-se movido por uma nostalgia com uma identidade contemporânea.

E a sonoplastia não fica atrás, fazendo passar pelos tímpanos temas ritmados e cheios de sonoridades inspiradas nos grandes clássicos intemporais. Um detalhe: na última volta, a banda sonora acelera a cadência, proporcionando um sentido de urgência ainda mais acentuado. E, finalmente, uma nota sobre a vocalização das personagens. Cada uma tem um pequeno arco narrativo que é alimentado por argumentos que sublinham a mensagem a passar e o timbre emocionado e quase sempre dramático.

Por tudo o que faz sentir, Hotshot Racing é uma a ter em consideração, especialmente se são fãs de jogos de condução arcada que vivem há tempo suficiente para ainda terem na memória os clássicos. Pode não fazer muito de novo e pode não ter um conteúdo que está sempre a injetar a sensação de novidade ou de uma grande campanha (ainda que esteja prometido DLC gratuito), mas é uma boa forma de olharmos para o espelho retrovisor e compreender de onde é que este género veio.