Se pararem de ler este texto e olharem com atenção à vossa volta é provável que descubram algumas cores, ou pelo menos algum degradé que nunca tinham reparado. Hue vive de e para a cor, a forma como ela constrói o mundo à nossa volta e como é suficiente para o destruir, ou melhor, para o fazer desaparecer se for devidamente manipulado.

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Hue é também o nome da personagem que controlamos neste compêndio de cenários 2D, deslocando-nos horizontalmente enquanto acedemos a mais uma sala com uma panóplia de desafios pela frente. A nossa motivação é a motivação de Hue: a sua mãe, uma cientista que dedicou a sua profissão a experiências com a cor, deixou-lhe várias cartas espalhadas pela aventura. Hue, o pequeno Hue, corre atrás das cartas e por elas atrás da sua mãe.

Como provavelmente terão adivinhado, Hue é um jogo de plataformas, sim, mas a sua componente de puzzles não pode ser descurada, até porque o sublinhado a retirar desta análise é que o jogo da Fiddlesticks é, afinal, o mesclar dos dois géneros. Não demorei muito a ver os créditos finais, contudo, até lá chegar foram vários os momentos em que transparece a sensação que a produtora não soube quando parar a adição de complexidade, patrocinando alguns momentos de frustração.

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Com o analógico do vosso comando - Hue foi testado na PlayStation 4 - têm acesso a um círculo radial com várias cores. Começam por desbloquear o azul e acabarão com oito à disposição, incluindo lima, fúcsia, laranja, rosa, aqua, púrpura, vermelho. Aceder a essa roda e alterar a cor é tão natural e importante como saltar no momento certo, sendo que quando o fazem o tempo abranda, mas como aprenderão mais cedo ou mais tarde, não para.

Logo no início temos o nosso caminho bloqueado por um monte de pedras azuis. Acedendo ao círculo mencionado e trocando a cor para azul o monte desaparece e temos o trajeto livre. É simples, mas é também o cerne da jogabilidade: Hue está intrinsecamente dependente desta manipulação, com o jogador a ter que equilibrar a conquista das plataformas com a alteração da cor para fazer desaparecer e aparecer objetos com o timing exato.

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Não demora muito até os processos serem edificados sobre esse simples processo: pedras que vem no vosso caminho a serem temporariamente evaporadas graças à troca de cor, o cenário onde têm que fazer Hue aterrar a aparecer e a desaparecer, combinações velozes de cores para conseguirem contornar os obstáculos, caixas que não estavam visíveis, chaves a que têm que aceder para abrir as portas e continuarem, são tudo variáveis adicionadas à equação.

Quando chegarem ao cenário final já serão mestres do processo. Contudo, Hue sabe disse e não facilita a vida. Com o aumento do leque de cores disponíveis, aumenta também as combinações para resolver puzzles, a inclusão de alavancas, água que jorra e pinta os objetos, caveiras que descem para vos matar, espinhos cobertos por terreno colorido e, claro, lasers que estão à espera de vos obliterar, mas também de terem a sua cor guiada.

É muito fácil morrer em Hue. Algumas vezes é por atrapalhação na hora de trocar as cores, mas muitas vezes é porque a produtora não conseguiu caminhar na linha ténue que separa o desafio da frustração. Não me interpretem mal: há aqui momentos para serem celebrados por vocês com a vossa massa cinzenta e com a destreza, mas há também aquela sensação que não, não era preciso morrer estas vezes todas para chegar a algo complicado, desafiante e recompensador.

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Aquele choque de chegar a uma sala nova e ver a complexidade e o estudo que foi colocado ao serviço do jogo é interessante, começando a varrer o cenário à procura do fio da meada, tentando perceber o que fazer/mexer primeiro, quando é que teremos que mutar as cores. Contudo, algumas vezes estive vários minutos a trabalhar uma situação para morrer e ter que começar desde a última porta atravessada.

E nem sempre terão oportunidade de parar e ficar a contemplar os passos até à saída. Quando quer, Hue pode ser um jogo de plataformas visceral, obrigando o jogador a saltar, aceder às trocas de cor a meio do salto, coordenando numa fração do tempo de onde saltou, para onde vai saltar e o que está no seu caminho a meio do salto. Claro que vão morrer várias vezes - algumas justas, outras traídas pela vossa destreza, e outras porque o jogo resolveu que estava na hora de um pico de dificuldade.

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De premeio temos uma narrativa que vale a pena ser acompanhada. Não vai ganhar prémios pela sua profundidade ou pelo final desconcertante, mas é algo assente numa escrita cuidada e, sobretudo, numa vocalização sólida que dá profundidade e emoção a esta procura de um filho pela sua mãe. Há algumas personagens secundárias pelo caminho, mas merece apenas ser mencionada a criatura misteriosa que aparece antes de desbloquearem uma nova cor, uma vez que a sua identidade acaba por ser revelada.

As imagens de Hue contam uma história gráfica que pode ser distorcida. Em algumas imagens que vi, o jogo parece simples e descuidado, algo que não é verdade. Não quero dizer que não há alguns cenários mais vulgares, mas com o avançar da aventura e do aumento da complexidade dos elementos, é uma obra que usa a seu favor o mundo em que se movimenta, ou seja, o mundo das cores.

A equipa sabia perfeitamente que ao usar estas cores, algumas das quais berrantes - imaginem um pano de fundo em lima ou fúcsia e têm uma ideia -, estaria a munir-se de um belo trunfo. O resultado é uma obra de contrastes: preto e tons gritantes. Pode não ser um portento de uma ponta à outra, mas a sua grande fatia assenta num grafismo e num design que conquistam. Além disso, uma palavra para o design das personagens, que pode ser resumido em duas palavras: simples, eficaz.

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Então aqui estamos. Hue, um jogo que oferece alguns momentos inspirados, uma mecânica que alimenta puzzles e denota um cuidado da produtora. É pena que ocasionalmente seja escusadamente complicado e desmoralizador, com a Fiddlesticks a confundir o acelerador e o travão na hora de desafiar os jogadores. Não é o jogo do ano, mas pode ser algo refrescante para quem adora plataformas e passa o dia a sonhar com momentos menos monocromáticos.