Human Fall Flat é um jogo peculiar. Da mesma estirpe de obras como Octodad, por exemplo, esta obra tem na génese do seu design a decisão voluntária, pensada e declarada de complicar o que é fácil ou simples. Um jogo que se diverte a ver o jogador falhar espetacularmente a execução da mais mundana das tarefas, que se esforça para que esse fracasso seja respondido por quem o controla com um sorriso ou uma gargalhada. Nem sempre resulta, é certo, mas quando resulta prova que muitas vezes o fracasso pode ser tão satisfatório ou divertido como o sucesso.

Tal como Octodad, Human Fall Flat parece ter sido criado para um grupo muito específico de jogadores, ou seja, para os mais descontraídos, aqueles que procuram uma obra que não se leve demasiado a sério, que não exija um investimento significativo de tempo e aqueles que não estejam obcecados por acabar o mais rápido possível tudo aquilo que passa pelas suas mãos. Para esse tipo de jogadores, a obra da No Brakes Games pode ser encarada com um caso de sucesso. Para os restantes, não é imaginativo, nem competente o suficiente para evitar que a frustração tenha efeitos nefastos na experiência.

Human Fall Flat Imagens

Na sua essência, este é um título de puzzles baseados num pronunciado sistema de físicas. Composto por vários níveis, cada um deles com inúmeros puzzles para serem resolvidos, o jogo testa, mais do que a sua massa cinzenta, a paciência do jogador. De uma forma geral, os obstáculos colocados no nosso caminho envolvem soluções fáceis de perceber, o problema passa, como provavelmente já adivinharam, em executá-las. Nada é simples ou rápido na jogabilidade desta obra, nada será superado à primeira tentativa e não serão poucas as vezes em que o comando ficará perto de beijar a parede.

Assumindo o controlo de Bob, um humano - ou uma representação deprimente e jocosa de um humano -, o jogador vai cambalear e arrastar-se pelos níveis do título. Se a primeira sequência de níveis e puzzles tem como intuito introduzir-vos às mecânicas e ao arsenal reduzido de habilidades deste ser patético, os níveis seguintes abrem as portas a um mundo de possibilidades e de testes mais consideráveis à nossa persistência. Para lá da lenta movimentação a cargo do analógico e de uma capacidade de impulsão ridícula, o principal desafio de Human Fall Flat passa pelo premir dos gatilhos para utilizar os dois membros superiores do protagonista, sendo que será através desta mecânica que poderão agarrar, arrastar e trepar objetos no cenário.

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Sem surpresas, este esquema de controlos está longe de ser o melhor para os que pretendem uma jogabilidade mecanicamente aprimorada. Os passos necessários para trepar objetos são especialmente complicados e a precisão também deixa muito a desejar, o que faz com que a frustração esteja sempre a poucas tentativas falhadas de entrar em ação. Infelizmente, o título não tem a arte, nem o engenho para ultrapassar este problema. É verdade que os seus vastos níveis incentivam a exploração e a experimentação, mas também é certo que a jogabilidade carece da profundidade necessária para se manter fresca, mesmo para aqueles que conseguirem ignorar as complicações voluntárias da obra.

Por muito que se tente esconder atrás do seu sentido de humor, Human Fall Flat é um jogo não particularmente longo que se mantém inalterado do princípio ao fim. Não há surpresas, não há uma história caricata a incentivar a progressão; no fundo, temos um jogo que parece ser uma série de sketches de comédia que todos juntos não fazem um filme. Sim, a movimentação de Bob e os controlos rebuscados proporcionam várias ações e falhanços espetaculares que funcionam como comédia visual. Sim, a narração que acompanha os tutoriais também tem os seus momentos, mas não é suficiente para compensar a total ausência de uma narrativa.

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Human Fall Flat está no seu melhor quando abraça o ridículo e coloca várias opções à disposição do jogador, algumas delas mais viáveis que outras, isto é, quando o fracasso oferece-nos uma recompensa - leia-se, ver o Bob voar momentaneamente até se estatelar no solo - ao invés de ser apenas um entrave à nossa progressão. A obra da No Brakes Games nem sempre consegue isso e essa é a razão pela qual a frustração será sempre um problema para aqueles que fervem em pouca água.

Felizmente, para apaziguar um pouco a frustração existem checkpoints frequentes e, mais importante que isso, um modo cooperativo local que vos permite explorar os níveis lado a lado com um amigo. Apesar de não ter grandes implicações na jogabilidade, é sempre mais interessante e divertido ter alguém a nosso lado com quem testar as mais insanas possibilidades e estratégias para levar o nosso Bob - que pode ser personalizado com diferentes roupas para ganhar mais personalidade - até ao final do nível. Afinal de contas, se é para falhar miseravelmente, mais vale fazê-lo na companhia de amigos.

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No que ao departamento técnico diz respeito, Human Fall Flat é uma obra competente que se destaca por um estilo visual limpo e minimalista bastante eficaz. Preferindo colocar o foco nos pontos pelos quais o jogador terá de passar e com os quais vai interagir ao invés de criar horizontes recheados e diversificados, o título não desvia atenções da jogabilidade e mantém uma estética simples que não deslumbra, mas que se enquadra bem no seu conceito de jogo. A banda sonora não está sempre presente e mesmo quando aparece não tem grande impacto na experiência, podendo o jogo ser melhor acompanhado pela vossa própria banda sonora.

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Desta forma, chegamos à conclusão que estamos perante um título competente no tipo de experiência que pretende oferecer, mas que cai no mesmo erro que outras obras do género ao não saber como premiar, de forma constante, o fracasso do jogador, evitando dessa forma a queda num ciclo de repetição e frustração. Human Fall Flat é, porventura, um jogo mais indicado para curtas sessões de jogo, uma vez que quanto mais tempo jogarem de seguida, maior será a frustração e mais rapidamente a jogabilidade perderá a frescura de que necessita para manter o jogador investido. Dito isto, o multijogador local confere um importante valor adicional à obra.