Rui Nunes ipse dixit:

a lenha estala. O fogo

torna o esqueleto do tronco

incandescente

É preciso esperar que a jogabilidade, esqueleto de Hyrule Warriors, esteja tempo suficiente ao lume para se revelar, incandescentemente nos sentidos do jogador. O novo exclusivo Wii U é muito mais que uma mescla entre os universos de Dynasty Warriors e de The Legend of Zelda. Apesar de ser um facto, depois de inúmeras horas com GamePad na mão e quase tantas outras à procura de uma definição melhor, cheguei a esta conclusão:

Hyrule Warriors é como ver Ruptura Total (Breaking Bad) depois de termos visto Bryan Cranston como pai de uma família disfuncional da narrativa pintada com tons cómicos em A Vida é Injusta (Malcolm in the Middle).

Sabemos que as circunstâncias mudaram, percebemos que é um mundo narrativo diferente, contudo, ocasionalmente a nossa mente não escusa a fazer comparações entre os dois, motivando sinapses de adaptação, de estranheza e, em alguns casos, de escárnio. Acontece sempre quando um universo popular resvala sobre outro.

Testemunhar Hyrule ser assaltado pela temática de Dynasty Warriors é um exercício inicialmente fascinante, especialmente degustado por jogadores que tenham no seu passado investimento nas duas séries. Que não se diga que a jogabilidade de Zelda foi trocada pela de Dynasty ou Samurai Warriors, mas sim adaptada: os movimentos que definem Link estão lá, contudo, agora são expostos a dezenas ou centenas de inimigos noutros tantos metros quadrados.

Ou seja, o cerne da jogabilidade é o triunfo da quantidade sobre a qualidade. Aqui batalhamos quase ininterruptamente, aprendendo e dominando combinações sobre centenas e centenas de inimigos, hordas de ameaças em fila à espera que a vossa arma seja o ponto final no seu destino.

Beat-em-up na sua génese, Hyrule Warriors espalha Legend Mode, o seu modo principal, por vários cenários, apresentando o jogador à experimentação de várias personagens além de Link, como por exemplo Lana, Sheik, Impa e Darunia, entre outros.

Porém, não é demais ressalvar que alguns níveis exigem um lote restrito de personagens. Hyrule Field, o primeiro, só pode ser jogado por Link. Death Mountains por Impa e Sheik; Twilight Field por Lana. Compreende-se, quanto mais não seja, para que o jogador mantenha o leque de protagonistas em níveis próximos. Todavia, existe um atalho para subirem o nível dos menos usados. No Bazaar podem aceder ao Training Dojo e troco de Rupees podem fazer o treino automático.

A título de curiosidade, em determinado ponto da minha aventura resolvi aferir quanto custava elevar uma personagem de nível 12 para 21, ou seja, colocá-la a par da minha personagem mais desenvolvida na altura. A resposta: mais de 60 mil Rupees. Na prática, é bom termos esta ferramenta de edição, mas não esperem grandes facilitismos à substituição ao árduo trabalho no campo de batalha.

E por falar em Bazaar, local de oportunidades, têm outras opções à disposição. Dependendo da secção escolhida, poderão criar Badges que ajudam no ataque, defesa ou assistência do herói de serviço; melhorar armas; criar misturas com vários ingredientes, enfim, uma personalização que se for bem pensada será útil no campo de batalha.

Para tentar variar ao máximo a jogabilidade, antes de cada cenário somos informados com o elemento mais eficaz, o que leva os jogadores a equiparem a arma melhor talhada para o efeito. Se acedermos ao pedido do jogo somos brindados com um "thumbs up" que faz lembrar Roger Ebert e nos informa estarmos nas melhores condições para o iniciarmos.

Sem abandonar o capítulo da jogabilidade, uma breve menção para o esquema básico dos procedimentos: é verdade que estão presentes as hordas de inimigos já mencionadas, contudo, nem sempre o mais indicado é pressionar os botões à procura de encaixar combinações dos vários tipos de ataques: ligeiros e pesados, assim como acumularem a energia necessária para lançarem os ataques mágicos (Focus Spirit) ou os especiais.

Um pouco de estratégia é necessária para ir fazendo novas conquistas sem perder o que já foi conquistado, aliás, se falharem a proteção à vossa Allied Base preparem-se para recomeçarem desde o último Checkpoint.

Ao longo do caminho vão desbloqueando acessórios de ataque advindos de Zelda, como o boomerangue, o arco ou as bombas, sendo que o seu uso está intrinsecamente ligado à derrota de alguns bosses finais. Na prática, isto equilibra a jogabilidade proveniente das séries Warriors e aquela emprestada a Hyrule.

Tudo isto é interessante na teoria, mas como é que Hyrule Warriors se comporta na prática? O arranque é promissor, sendo uma oferta que motiva os fãs de cada uma das séries e faz as delícias de quem distribui o seu interesse pelas duas.

Contudo, mesmo com as variantes mencionadas e apesar de haver uma alternativa recompensadora a quem aposta em combinações mais elaboradas de movimentos em detrimento de pressionar o mesmo botão indefinidamente, sente-se o cansaço após algumas horas.

Pessoalmente, a maior força motriz foi ver até onde o jogo ia, perceber como a fibra de Zelda foi aproveitada e que matéria da série tinha sido usada numa tela que não pintada apenas pela mão da Nintendo EAD. Porém, é fácil perceber que muitos jogadores sucumbam aos trechos mais repetitivos. Tão fácil como perceber que outro leque de jogadores investirá horas e horas no jogo, fazendo de Hyrule Warriors o seu vício de fim de Verão.

Dois pontos que merecem ser mencionados: o primeiro é que, apesar da dimensão dos mapas, as personagens movimentam-se de forma rápida, o que não transforma a deslocação num procedimento demasiado doloroso. O segundo é ainda mais bem-vindo: no meio de tantos inimigos, o jogo permite bloquear a câmara num alvo específico, o que é extremamente útil no meio de dezenas de inimigos que habitam o ecrã.

Certamente conhecem a nomenclatura Rupees, os cristais tradicionais de terras de Ganondorf. Contudo, bastam algumas horas para adicionarem outro termo ao vosso quotidiano: Materials. Colecionados durante as batalhas, são eles que servirão um papel preponderante nas melhorias feitas às armas ou no fabrico das já mencionadas Badges, haja paciência para repetir o processo.

A costura de toda esta ação é um arco narrativo que, apesar de ter reminiscências de The Legend of Zelda, nunca se atreve a ter tamanha complexidade. Mas reparem, não estamos perante uma entrada na saga referida, portanto vou-me escusar a tecer comparações entre linhagens diferentes.

Resumidamente, Cia, a feiticeira de serviço, quer o Triforce e Link só para ela, o que a faz despachar tropas (as hordas tantas vezes já mencionadas) para atacar Hyrule. Como não poderia deixar de ser, a Link é dada a tarefa hercúlea de tratar do reino e de procurar a desaparecida Zelda.

Além de tudo isto, poderão investir horas suplementares no Free Mode e no Challenge Mode, porém, o modo secundário mais apelativo dá pelo nome de Adventure Mode: uma homage ao primeiro capítulo da série Zelda, ou seja, um valente soco nostálgico no estômago 8-bit que os mais velhos têm.

Ao entrar na recta final da análise, há que mencionar que Hyrule Warriors tem uma componente multijogador com suporte local para dois jogadores em simultâneo e que o GamePad é bem usado para rever em tempo real informação sobre o que está a acontecer no campo de batalha. Obviamente, desde que não estejam a usar para jogarem no comando e deixarem a televisão livre para outra programação.

Tecnicamente, é fácil perceber que o poderio da Wii U foi colocado ao serviço da quantidade, ou seja, apesar de não ser um jogo com cenários e personagens de fealdade assinalável, colocar tantas personagens no ecrã ao mesmo tempo tem efeitos secundários. Ainda assim, é verdade que a consola raramente soluça perante uma população digital superior a algumas cidades portuguesas.

Com muito menos com que lidar, a sonoplastia está cheia de pormenores alusivos a Zelda é à sua lenda. Como o cão de Pavlov, sempre que abrimos um baú ouvimos aquele som que imediatamente nos transporta para uma das séries mais queridas da Nintendo e nos faz pensar no labor de Eiji Aonuma.

Hyrule Warriors poder ser adjetivado de muito, pode ser descrito até à exaustão, porém, a verdade é que esta mescla improvável será apreciada pelos devotos das séries que aqui se cruzam. Mas não o comprem a pensar que estão perante o sucessor caseiro de Skyward Sword, lição que muitos fãs de Snake aprenderam da maneira mais difícil quando compraram Metal Gear Ac!d.