Um dos géneros de videojogos que mais se tem mantido igual a si mesmo é o RPG nipónico, mais conhecido pela sigla JRPG. E tem sido, por isso, um dos campos onde os criadores de videojogos têm tentado inovar cada vez mais, dar um toque contemporâneo a um jogo com características muito próprias. I Am Setsuna é mais uma tentativa da Square Enix de injectar no mercado a tradição japonesa dos RPG, tal como Bravely Default o foi. 

Para que I am Setsuna seja um caso de sucesso há uma santíssima trindade de características que não podem falhar: personagens inesquecíveis, localizações marcantes e uma jogabilidade assinalável. Infelizmente, a Tokyo RPG Factory não entregou com mestria estes três conceitos essenciais. Ainda agora mal recordo os nomes de todas as personagens que passaram pela minha party, apenas aqueles que me foram mais úteis no combate contra monstros que se colocavam no meu caminho.

Imagens Analise I am Setsuna

Endir, ou qualquer outro nome que lhe queiram dar, é a personagem principal deste RPG passado num temporal de neve. I am Setsuna refere-se à personagem secundária Setsuna, que foi escolhida para ser um tradicional sacrifício humano. Uma tradição que se repete a cada nova década e que tem sido mantida pelo povo da insular para afastar os ferozes monstros que ameaçam a população. Nós, enquanto controlamos Endir, teremos o papel de guardião de Setsuna, para que a sua jornada até Last Lands, o seu destino, seja cumprida conforme foi previamente traçado.

Logo no começo, o diálogo toma um rumo muito estranho. Endir é um mercenário com uma função clara: matar Setsuna. No minuto seguinte somos, mesmo que as opções do diálogo nos iludam, obrigatoriamente, o guarda-costas da rapariga que foi escolhida para ser sacrificada. O tempo nevoso parece, de certa forma, tirar a possibilidade de existirem locais maravilhosos e memoráveis. Todos partilham esta característica em comum: estarem cobertos por um manto de neve ou estarem parcialmente destruídos devido à atividade dos seres maléficos que habitam o jogo. Isto cria não só confusão para navegar para o destino que queremos alcançar ou para regressar a um lugar anteriormente visitado. O recordar de uma característica que os distingue é um exercício que se revela fútil. O melhor acaba por ser percorrer tudo e falar com todas as personagens que se cruzam no nosso caminho.

Imagens Analise I am Setsuna

O antagonista, que quer assumir a função à qual não tivemos êxito, eliminar Setsuna, também se manifesta como uma personagem pouco interessante. As suas motivações são mantidas sob segredo, a sua personalidade só é destacada pela sua forma de vestir ou pelo seu diálogo, que não transmitem nenhum traço do seu caráter. Estamos, portanto, perante um robô com traços humanos. É mais uma razão para não levarmos esta narrativa a sério. Um facto preocupante, visto ser um jogo inteiramente dependente do drama para incentivar quem joga a continuar a sua jornada. Mesmo sem estar na melhor das condições, I am Setsuna tem um sistema de combate deveras curioso. 

Se conseguirem ultrapassar os menus arcaicos, muito bem replicados dos clássicos dos quais se inspira, têm um sistema de combate bastante interessante para explorar. Tal como muitos outros RPG, há uma evolução da personagem conforme vai recebendo pontos de experiência. Essa experiência é recebida após os nossos combates vencidos. Pode-se atacar normalmente com a arma que tivermos na mão e utilizar golpes especiais e magias na opção designada de “Tech”. É a gestão de habilidades que torna I am Setsuna uma obra fascinante. 

Imagens Analise I am Setsuna

Os espólios dos combates têm um propósito muito próprio, não servem apenas para acumular dinheiro após a sua venda, mas sim material para criar diferentes Spritnite - habilidades que se associam às várias personagens. Equipem as personagens com uma enorme variedade de golpes e magias, façam a experiência no campo de batalha e se não gostarem, troquem-nas por outras e repitam o processo. É tão simples quanto isso. Claro que algumas personagens estão mais aptas para lidar com magia ou ataques mais fortes com a utilização das armas que tiverem, há liberdade suficiente para que não nos sintamos limitados.

O problema está na aquisição destas tais Spritnite, que requerem determinados materiais numa certa quantidade. O resultado desta forma de adquirir habilidades vai obrigar-nos a passar mais tempo em combate, a regressar aos mesmos locais até adquirirmos o que queremos e precisamos. Não somos obrigados a fazê-lo, de facto, mas para retirar o máximo proveito do jogo e ter acesso às técnicas mais fortes, o grinding do combate é algo que acaba por ser inevitável. 

Imagens Analise I am Setsuna

I am Setsuna tentou recapturar o espírito já perdido de obras JRPG notáveis, mas sem sucesso completo. Infelizmente só o combate é que vale a pena, visto a narrativa previsível e com escolhas de diálogo muito peculiares não ser a mais inspirada do género. Mas se são apreciadores de boa música, aqui não faltam boas peças, compostas essencialmente por piano.