O género dos shoot’em up teve grandes títulos durante a sua popularidade nos anos oitenta e noventa, tanto em consolas como em máquinas arcada nos salões de jogos. Gradius, Space Harrier, Raiden e Contra são só alguns dos muitos exemplos de grandes jogos que aproveitaram bem o hardware para os jogadores se divertirem e, principalmente, competirem entre si. Afinal, muitas obras daquela época eram difíceis pela simples razão de aumentar a longevidade do jogo. Em 2001 (no Japão, na Europa chegou dois anos depois), Hiroshi Iuchi, Masato Maegawa e Yasushi Suzuki criaram aquele que muitos jogadores consideram ser um dos melhores jogos shoot’em up de sempre, Ikaruga.

Agora, quase duas décadas depois, este clássico chega à Nintendo Switch pela mão da Nicalis. Porém, mesmo com o estatuto de clássico que tem Ikaruga, existe uma preocupação sobre a forma como este chegará a um mercado muito diferente daquele que existiu quando foi originalmente lançado. Sinceramente, a minha esperança recaía numa versão do jogo clássico pejada de opções de personalização assentes na forma como consumo este frenético desafio.


 
Esta obra da Treasure é excelente graças a um grande pormenor da jogabilidade. os jogadores controlam uma aeronave bipolar, ou seja, têm a possibilidade de mudar a sua polaridade de branco para preto e vice-versa. Todo o design do jogo gira em torno desta particular mecânica, os inimigos disparam projéteis de uma cor ou outra. Já a nossa nave consegue assumir uma proteção que absorve um destes dois tipos de tiros, caso precisemos de nos  proteger de outro tipo de tiros basta mudar a polaridade da nossa nave. Isto pode parecer muito fácil, mas quando o jogo coloca no ecrã dois tipos de disparos, ficamos à mercê dos nossos reflexos.

Esta mecânica é simplesmente genial, pelo facto de dar uma enorme profundidade ao jogo com uma alteração mínima à jogabilidade. A polaridade não serve só como defesa, pois se absorverem disparos inimigos em quantidade suficiente enchem uma barra de energia e após uma certa quantidade podem lançar um ataque especial devastador. Se Ikaruga chegar a um ponto que é demasiado fácil para vocês, arrisquem receber o dobro dos pontos caso destruam uma nave que tenha uma polaridade contrária à vossa.

Percebida esta jogabilidade, que se revela fenomenal, acaba por ser mais fácil ultrapassar certos desafios. Assim o nosso objetivo passa pelo acumular de pontos, para poderem reclamar o vosso lugar no pódio com milhões de pontos. É preciso jogar com o que se sabe e aumentar a dificuldade, assim como alterar as definições (número de vidas e de vezes que podemos continuar) para nos ser permitido, por exemplo, gravar um vídeo da nossa partida. São pequenos incrementos e alterações que nos permitem gostar ainda mais do jogo. Não é, nem nunca foi necessário, este jogo ter um “New Game +” quando temos tudo na nossa mão para moldar conforme as nossas preferências.

Este título joga-se na vertical e existe, felizmente, uma opção para rodar o ecrã. Assim, se tiverem algum apoio para a Nintendo Switch ficar na vertical - já existe alguns acessórios para o ecrã ficar bem apoiado - desta forma podem jogar Ikaruga a ocupar uma boa parte do ecrã em vez de cerca de um terço, se jogarem na consola como o fazem há imenso tempo. Caso tenham esta possibilidade, é a melhor forma de jogar Ikaruga. A música, escrita pelo próprio Hiroshi Iuchi, criador do jogo, aumenta gradualmente de intensidade, há um crescendo até ao clímax do nível para frisar a ação frenética que o jogo entrega.

Apesar deste género já não ser o mais popular, Ikaruga volta a afirmar que este tipo de jogo ainda tem espaço nesta indústria. Este é um dos melhores atiradores com aeronaves desenhado para ser jogado na vertical. Os inimigos descrevem padrões de movimentos que nos forçam a deslocar a nave de uma determinada forma, sem esquecer a genial mecânica da polaridade. O que acabamos por fazer é lutar pela pontuação mais elevada e pelo domínio da jogabilidade que nos é oferecida. É um jogo que esconde estratégia e resolução de alguns quebra-cabeças, com um manto de tiros com naves a uma velocidade que necessita habituação para acompanhar. Uma excelente adição à Nintendo Switch, que beneficia seriamente pela portabilidade que oferece a mais um jogo, um clássico arcada.