Jacques-Yves Cousteau, o inconfundível oceanógrafo de gorro vermelho, ficaria certamente orgulhoso de uma obra como In Other Waters. A sensação de exploração e descoberta são impares e queremos estar a pressionar continuamente o botão do sonar para saber o que esta à nossa volta, para dar nome próprio ao desconhecido que deixará de o ser.

Apesar da premissa do jogo de Gareth Damian Martin ser similar a Subnautica, a sua abordagem é completamente diferente. Vocês acompanham a jornada de Ellery Vas, uma bióloga marinha, num planeta extraterrestre. Controlam a aventura subaquática da protagonista mas de uma forma indireta, porque assumem o papel da Inteligência Artificial do seu fato para conseguir explorar oceanos extraterrestres em segurança. Descobrem que Gliese 667Cc, um verdadeiro exoplaneta com potencial para ter vida como na Terra, tem um ambiente aquático cheio de vida.

O jogo parece ter uma forma muito aborrecida de apresentar a exploração, descobrimentos e o nosso próposito para continuar a jogar. Contudo, é interessante navegar por um mapa do relevo subaquático e ir de ponto a ponto com um instrumento similar a um astrolábio para nos guiar. Após completar o tutorial e ter debloqueado todas as ferramentas do meu fato subaquático, já navegava de uma forma quase automática de tão intuitiva que a jogabilidade é.

Primeiro, temos de ver o que está à nossa volta para poder avançar de uma parte do mapa para outra mais distante, por isso, carregamos no botão reservado para o sonar para nos dizer o que nos rodeia, se há sinais da mais pequena e rudimentar forma de vida ou se há um ponto seguro para nos deslocarmos. Vemos claramente locais mais perigosos, intransponíveis e toda a vida que o planeta extraterrestre esconde.

Para se manter visível no mapa o que foi sinalizado pelo sonar - locais para onde nos podemos dirigir ou um ser vivo - temos de analisar previamente esses pontos. Enquanto que os pontos para onde nos deslocamos são representados por triângulos, os pontos de maior interesse são representados por círculos, afinal somos uma Inteligência Artificial ao serviço de uma bióloga marinha. O nosso objetivo passa, assim, por catalogar e documentar toda a estranha vida que por ali estamos a descobrir.

Apesar de não vermos o que está simbolizado através de formas geométricas, “vemos” o que Ellery Vas vê. Uma das grandes valências deste título é a sua escrita, que se percebe pelo fascínio e pela forma quase poética com que a bióloga descreve as suas observações. Não estamos lá a ver como os nossos olhos, mas é quase como se estivessemos. Ellery Vas fala sozinha, com os seus pensamentos, apesar de sermos o guia que zela pela segurança de Ellery, não temos uma presença física. Quando temos de responder às poucas perguntas que nos são colocadas por Ellery, a própria bióloga percebe que do outro lado está uma máquina, feita de código, que só responde sim ou não.

Enquanto estão a fazer um estudo ao exoplaneta para a Baikal - empresa que a contratou para procurar tirar proveito financeiro do planeta -, também têm uma história a seguir. Há uma colega de trabalho que já esteve naquele planeta e Ellery faz questão de mencionar os achados e o trabalho analítico que já foi previamente desenvolvido. Desta forma, não há só uma urgência de descoberta de uma vida extraterrestre, mas a dos eventos que ocorreram antes de Ellery lá chegar.

A nossa curiosidade está quase sempre ativa, nem que seja para ver o que são as amostras que recolhemos. Depois de uma breve análise no vosso laboratório, ao qual podem regressar livremente, salvo algumas excepções, fazem a catalogação do material recolhido. Aí, posteriormente, a amostra do material é devidamente denominada, com uma descrição bastante detalhada da sua composição, do comportamento apresentado, assim como uma breve teoria sobre vários aspetos que possa ter. E caso consigam analisar tudo, até ao mais ínfimo pormenor, Ellery junta um esboço do aspeto físico do ser vivo em questão.

É também notável o trabalho que foi desenvolvido no departamento sonoro. A experiência por si só é muito descontraída, não existe absolutamente nada que vos vá assustar, a música e os efeitos sonoros complementam essa sensação que o jogo faz questão de reproduzir tão bem. In Other Waters é um trabalho muito bem feito, uma obra que traduz o porquê de Cousteau ter sido um explorador que trabalhou praticamente toda a sua vida no oceano, rumo ao desconhecido. Há algo de fantástico em conhecer o que nunca antes tinha sido visto e In Other Waters é um jogo como nenhum outro ao replicar essa sensação.