A NetherRealm é, sem sombra de dúvidas, um dos nomes mais relevantes e revolucionários na indústria dos videojogos e, mais concretamente, no seio da comunidade dos fãs dos jogos de combate, luta e pancadaria. Nasceu das cinzas da Midway Games para assegurar a continuidade de uma das mais emblemáticas série do género, Mortal Kombat. Pode-se argumentar o sucesso da mesma se deveu mais à atenção e celeuma que a violência gráfica que caracteriza a série gerou do que propriamente devido à qualidade das obras, mas o que interessa é que conseguiu revitalizar uma propriedade intelectual que se julgava morta e estabelecer-se como uma produtora importante neste género que inclui algumas das mais ativas e fervorosas comunidades na indústria.

Mas tal como Injustice: Gods Among Us o provou em 2013, a história e talento do estúdio não está limitado à saga sangrenta de Scorpion, Sub-Zero e companhia. No papel, um título de combate de uma produtora com provas dadas com base no universo da DC Comics que coloca heróis e vilões em confronto direto tinha tudo para ser um sucesso e a prática assim o acabou por confirmar, uma vez que o sucesso crítico e comercial foi mais do que suficiente para garantir a sua sequela. Ainda assim, Gods Among Us nunca conseguiu distanciar-se e diferenciar-se verdadeiramente de Mortal Kombat e esse era o principal desafio que o seu sucessor teria de ultrapassar.

Injustice 2 Analise Imagens

Felizmente, a casa americana liderada por Ed Boon também percebeu isso e entregou uma experiência que se afirma definitivamente como algo diferente da sua histórica série. Injustice 2 parece, acima de tudo, ter encontrado a sua própria identidade e percebido aquilo que o diferencia dos restantes jogos de luta no mercado. Injustice 2 é um jogo que percebe a audiência para o qual tem a mira apontada, uma audiência que vai muito para lá dos mais acérrimos fãs do género e que se alastra até aqueles que apenas se querem deixar perder em mais uma experiência recheada de algumas das personagens fictícias mais bem conhecidas pelo grande público.

Existem muitos elementos que impressionam nesta sequela, mas a principal é muito possivelmente os elevados valores de produção apresentados ao longo da sua experiência. Não só estamos perante um jogo bastante impressionante em termos gráficos, algo que é pouco comum em títulos do género, como temos ainda uma obra com um enorme polimento técnico e com desempenhos vocais de excelência. No fundo, estamos perante uma experiência que não desilude em qualquer departamento e que surpreende pela positiva em muitos deles.

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A campanha narrativa já tinha sido uma agradável surpresa no jogo original e em Injustice 2 o elevado grau de qualidade continua bem presente. Não é a mais profunda das narrativas, nem tem o peso emocional ou as reviravoltas que alguns poderiam desejar, mas é uma campanha extremamente competente que tem como melhor característica a forma inteligente como introduz as diversas personagens que compõem o elenco do jogo na sua história de forma pouco forçada. 

Aliás, o principal mérito da campanha é, para lá do valor narrativo, a maneira inteligente como força os jogadores a testarem uma parte significativa dos seus lutadores e dá-lhes desde cedo pequenos indicadores de quais aqueles que melhor se adaptam ao seu estilo. Precisei de pouco mais de 4 horas para concluir a aventura - dificuldade normal e com pouca habilidade para jogos do género - e foram 4 horas muito bem passadas. É certo que os finais são algo abruptos - existe um momento de bifurcação perto do final da campanha em que terão de tomar uma decisão que vos levará aos diferentes finais -, mas a história vale sobretudo pela oportunidade de ver versões bem realizadas destas personagens interagirem novamente no ecrã.

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Ligeiramente mais rápido e fluído que o seu antecessor, Injustice 2 mantém-se mecanicamente fiel a Gods Among Us. Antes de vos deixar arrancar com a campanha, o título questiona-vos sobre a realização do tutorial, algo que é extremamente recomendável fazerem. É através dele que fica bem evidente que estamos perante uma obra bastante acessível, que atribui uma diferente ação a cada botão de rosto do comando, que permite realizar ataques especiais sem combinações desnecessariamente complicadas. Injustice 2 quer ser um jogo apelativo para o mais casual dos jogadores e consegue-o, mas isso não significa que não existam várias camadas de profundidade para os mais habilidosos realizarem combinações apenas ao alcance da imaginação dos mais desajeitados.

Com um elenco bastante alargado e diversificado de personagens que vos permitirá encontrar facilmente os lutadores que melhor se encaixam no vosso grau de habilidade e estilo de combate, será difícil não apreciarem o vosso tempo com a obra, independentemente do vosso talento com a mesma. Os Supermoves cinemáticos, os ataques especiais que requerem combinações mais exigentes, as cenas de transição de arena que vos levam de um cenário para outro com um boa quantidade de dano desferido no inimigo pelo caminho, a possibilidade de utilizar objetos presentes no cenário como ferramentas de ataque, enfim, tudo aquilo que caracterizou a jogabilidade do antecessor encontra-se igualmente presente na sequela e mais refinado que nunca.

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Importa, ainda assim, mencionar que cada personagem apenas possui um Supermove e que nem todos são tão espetaculares visualmente como outros, algo que é um pouco desapontante, especialmente porque tal já acontecia em Gods Among Us. São momentos impressionantes e importantes em qualquer combate, mas aquilo que no início era especial torna-se depois rapidamente repetitivo após sucessivas visualizações. Pedia-se por isso uma maior variedade de Supermoves para que o fator surpresa se mantivesse presente durante mais tempo.

Dito isto, a principal novidade de Injustice 2 é, como provavelmente saberão, a introdução de elementos RPG na experiência. Através da realização de determinados objetivos e da vitória em alguns combates, o jogador obterá novo e melhor equipamento que não só oferece bónus estatísticos às personagens - Força, Habilidade, Defesa e Saúde -, como altera de forma significativa a sua aparência. Cada personagem tem o seu próprio equipamento para desbloquear e a sua própria progressão, uma vez que todo o loot obtido tem um nível mínimo para poder ser equipado. 

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Mais do que as vantagens que oferecem em combate - que, como é óbvio, não são aplicadas em partidas online -, é a possibilidade de personalizar constantemente as personagens que mais captará a atenção dos jogadores casuais. Como não poderia deixar de ser, existem vários loadouts passíveis de serem preenchidos de forma distinta e até habilidades para desbloquear através das Mother Box, caixas de loot que, obviamente, podem ser adquiridas gastando créditos obtidos no jogo ou dinheiro real, se assim preferirem. Contudo, o jogo é bastante benevolente com a atribuição de Mother Boxes e créditos, pelo que não estamos perante uma situação em que a experiência parece construída para vos forçar a gastar ainda mais dinheiro.

Aliando esta constante procura por melhor e mais espetacular equipamento aos modos de jogo habituais, temos uma experiência que sabe como premiar e manter o jogador investido em si, especialmente aqueles que não ligam nenhuma à componente online do título. Injustice 2 oferece uma permanente sensação de progresso e o seu inovador modo Multiverse, que cria eventos com diferente nível de dificuldade, recompensas, e limites de tempo para a sua conclusão, faz com que exista sempre novo conteúdo para ser desfrutado e superado. Ao contrário de outras obras do género, falta de conteúdo não é, de longe, um problema aqui.

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Para lá da componente para jogadores solitários e dos habituais modos multijogador local, será na componente online que os mais habilidosos fãs do género passarão a maior parte do seu tempo com a obra e será nela que residirá a sua verdadeira longevidade a longo prazo. Aos tradicionais Player Match, Ranked Match e King of the Hill, junta-se o AI Battle Simulator, que faz também parte do modo Multiverse a solo, em que podem definir equipas de três lutadores a serem controlados pela inteligência artificial e atacar ou defender os ataques de equipas de outros jogadores igualmente controladas pela IA. É um modo interessante, sobretudo porque vos permite amealhar algumas Mother Box sem grande trabalho.

No entanto, talvez o elemento mais interessante da componente online de Injustice 2 são as Guilds, aglomerados de jogadores que trabalham em conjunto e contribuem para a conclusão de eventos numa versão multijogador do Multiverse. Embora a vossa utilidade e capacidade de contribuir para o grupo fique sempre muito dependente da vossa qualidade neste tipo de obras, especialmente porque a inteligência artificial pode ser absolutamente brutal em alguns casos - Black Adam e Brainiac, por exemplo -, o facto de receberem recompensas pelo sucesso da vossa Guild e de poderem participar, possivelmente, na demanda que consiste a batalha contra o Boss que conclui este eventos e que requer o esforço consecutivo de vários jogadores, garante que este modo se apresente como uma parte cativante da experiência, ainda que mais direcionada para a secção de jogadores mais habilidosos.

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Como já referi, o título de combate da NetherRealm destaca-se de forma decisiva pela qualidade dos seus departamentos técnicos. O grafismo impressionante e a atenção ao detalhe na constituição dos vários cenários pelos quais a história e os combates vos levarão são exemplos perfeitos de uma obra extremamente polida e aprimorada em que nada é deixado ao acaso e a atenção ao detalhe é inegável. A excelente vocalização ajuda igualmente a conferir uma maior qualidade à sua componente narrativa, uma vez que é ela que traz à vida este elenco de personagens, sendo que dois destaques são Kevin Conroy como Batman e Tara Strong como Harley Quinn. As já destacadas animações faciais são igualmente notáveis e do melhor que já se viu na indústria.

Concluindo, Injustice 2 é um excelente exemplo de como criar uma obra capaz de cativar uma enorme fação de jogadores num género pouco convidativo aos mais casuais. Com uma jogabilidade sólida e acessível, mas sem comprometer na profundidade expectável de um título de combate, a obra protagonizada pelos heróis e vilões da DC é, sem qualquer dúvida, um dos de melhores jogos do género dos últimos anos. A procura de melhor equipamento e o Multiverse premeiam e incentivam o jogador a continuar ligado à experiência, enquanto as Guilds dão um maior apelo aos casuais para explorarem a componente online da obra. Alguns modos parecem mais indicados para os mais competentes e rodados nestas andanças e os Supermoves podiam e deviam ser mais variados, mas isso são apenas detalhes numa obra que se destaca pela positiva em praticamente todos os seus departamentos.