Comecem por pegar numa pitada de espírito retro. Juntem muita cultura portuguesa. De seguida, polvilhem com humor e misturem tudo num recipiente que respeite as regras básicas de um bom jogo de apontar e clicar. Muito bem, acabaram de recriar a receita de Inspector Zé e Robot Palhaço em Crime no Hotel Lisboa. O jogo de estreia da Nerd Monkeys acabou de ser disponibilizado. Depois de alguns meses num forno que - em parte - já conheceu Under Siege ou Toy Shop Tycoon, o título da produtora portuguesa encontra-se finalmente à vossa disposição.
Se ao longo das últimas semanas atravessaram um longo período de hibernação, então talvez seja oportuno referir que, tal como já foi dito, o jogo que hoje temos entre mãos se trata de um point n' click retro, marcado fundamentalmente por retratar a cultura portuguesa que se reflete numa cidade de Lisboa dos anos 80 e que acompanha o quotidiano de uma dupla de investigadores peculiar. Inspetor Zé e o seu hereditariamente adquirido Robot Palhaço vão ser incumbidos de investigar um estranho caso de suicídio em que a vítima se esfaqueou nas costas... catorze vezes. Como podem calcular, o enredo não vai ficar por aqui e rapidamente damos por nós colocados no olho de um furacão que envolve polícias corruptos, travestis e hotéis com quartos que merecem ser explorados - fica desde já a dica.
Como não poderia deixar de acontecer num bom jogo policial - ainda que este rótulo deve ser aqui colocado com algum cuidado - também vamos ter direito a algumas sequências de interrogatório onde nos é pedido que utilizemos a pista correta em conjunto com a pergunta mais pertinente de uma lista de três, para tentar sacar o máximo de informação possível do nosso suspeito. Infelizmente, aquilo que poderia ter sido utilizado para dar mais profundidade e variedade ao jogo acabou por revelar-se numa espécie de boneco de palha desprovido de alma, servindo apenas para aumentar um pouco a longevidade e quebrar a rotina de tempos a tempos.
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Crime no Hotel Lisboa apresenta um mundo pequeno mas suficientemente dinâmico para convidar a uma exploração detalhada dos cenários nas primeiras horas de jogo. E ainda que tenhamos margem de manobra suficiente para percorrer a curta lista de ruas disponíveis no título a nosso bel-prazer, o desenrolar do jogo é maioritariamente linear. É certo que estão incluídas algumas "saidequestes" que fazem com que nos seja dada a opção de gerir o nosso tempo da forma que acharmos melhor, mas durante grande parte da aventura não se coloca sequer a necessidade de fazer grande escolha. A progressão através do guião é simples de ser feita, mas em determinadas situações vai requerer alguma atenção mais pormenorizada por parte do jogador, na observação dos cenários que o rodeiam, ao estilo de um bom point & click. Isto claro, no caso de não se quererem ver obrigados a percorrer todas os locais vezes e vezes sem conta à procura da agulha no palheiro, como aliás me aconteceu.
Em nenhuma situação esta jornada é dificultada pela jogabilidade, que se encontra implementada de forma a que tudo seja fácil e bastante intuitivo. Navegar pelos cenários em busca de objetos é uma tarefa simples de ser efetuada e todos os diálogos com os NPC's decorrem sem problema algum. Ainda assim, deverão estar alerta para o aparecimento ocasional de erros, como foi o caso de um pequeno bug que, depois de imenso tempo sem perceber o que tinha de fazer, me obrigou a ter de sair e entrar novamente no jogo para que a cena seguinte fosse desbloqueada, de modo a possibilitar-me a progressão na aventura.
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No que às notas musicais que pautam o ar diz respeito, torna-se importante sublinhar bem alguns aspetos. Se tiveram a oportunidade de ler a antevisão que fiz a este jogo há aproximadamente um mês, lembrar-se-ão com certeza dos elogios tecidos à mesma, em particular pela existência de músicas criadas de origem para figurarem em Crime no Hotel Lisboa. De facto, é de louvar o esforço feito pela Nerd Monkeys neste aspeto, uma vez que tudo aquilo que foi criado a pensar no jogo revela uma qualidade bastante surpreendente.
No entanto, e apesar de todo este trabalho positivo, com o avançar da história a banda sonora em geral torna-se rapidamente saturante. Uma vez que para que a progressão no jogo seja feita somos obrigados a visitar imensas vezes os mesmos lugares, o pequeno trecho musical associado a cada um deles revela-se insuficiente. Já no final, dei por mim extremamente tentado a aceder ao menu de opções para acabar de uma vez por todas com os tons repetitivos usados nas ruas de Lisboa e num ou outro lugar chave do jogo.
Repetindo aquilo que tinha dito há cerca de um mês, quando experimentei pela primeira vez o jogo, durante as primeiras horas não pude deixar de reparar que me sentia como uma verdadeira criança na manhã de Natal. Existem espaços interessantes para explorar, personagens para conhecer, referências à nossa cultura para admirar, enfim, toda uma panóplia de detalhes que faz com que o jogo se comporte como um verdadeiro Easter Egg gigantesco. Apesar disso, nem tudo é um mar de rosas e à medida que o total de horas de jogo vai aumentando, parte desta sensação de descoberta e encanto com tamanha diversidade de referências vai sendo perdida. Prova disso, é que ao jogar a versão de antevisão tinha ficado com uma sensação muito mais positiva do jogo, que se vai perdendo conforme o número de horas começa a tender para números com dois algarismos, as piadas se vão esgotando e os cenários já explorados repetindo.
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Essa longevidade deverá estar definida por volta das sete ou oito horas de jogo, que poderão estender-se facilmente caso façam questão de vasculhar pormenorizadamente todos os recantos em busca de algo que faça o vosso tempo extra valer a pena. Em adição, a partir de certa altura, os jogadores passam a ter acesso a um novo modo de jogo bastante simples que envolve acertar na piada correta durante uma atuação de humor em que vestimos a pele do (nem) sempre engraçado Robot Palhaço. É um modo de jogo simples, pelo qual podem passar quando estiverem a precisar de desanuviar depois de terem ficado presos num dos puzzles a envolver as pistas do crime.
Inspector Zé e Robot Palhaço em Crime no Hotel Lisboa não é, em qualquer circunstância, um magnum opus da indústria dos videojogos. Não tem um enredo brilhante, e não oferece uma jogabilidade do outro mundo. Mas na realidade, a proposta também nunca tinha sido elevar essas fasquias. Em vez disso, é preciso manter uma mentalidade aberta e saber apreciar a experiência que a equipa da Nerd Monkeys nos propôs e que consegue estar à altura das expetativas.
O jogo vive do seu ambiente fantástico, recriando ao detalhe uma Lisboa dos anos 80. Respira uma atmosfera pautada por um humor único, singular e por uma série de referências excelentes, especialmente concebidas para serem apreciadas pelos fãs portugueses e que pessoalmente, nunca esperei ver num videojogo. Independentemente da componente técnica, gráfica, ou sonora, tenho a certeza de que esta se trata de uma obra que deve ser experimentada por todo e qualquer amante português de videojogos.

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