Seja como matéria-prima dos simuladores ou como uma recompensa num jogo em mundo aberto, os aviões nos videojogos têm quase sempre um papel marcante. Publicado há pouco tempo no PC e com versões confirmadas nos dispositivos Android e iOS, Jetstream tem no seu cerne um avião, contudo, é a chave - ocasionalmente de forma literal - para conquistar aproximadamente uma centena de níveis com puzzles.

Recentemente terminei a versão já disponível e tornou-se evidente que a Clockwork Acorn criou a sua obra a pensar em sessões curtas sem que se sinta que perderam o fio à meada. Composto por nove capítulos principais, o jogo vai construindo sobre o que vamos aprendendo graças a uma constante apresentação de mecânicas novas. Na prática, há quase sempre algo novo para aprender e enquadrar no quadro geral da jogabilidade.

Quando começamos um nível, a obra coloca o nosso avião num determinado ponto do cenário e o jogador pode movimentá-lo em quatro direções: cima, baixo, esquerda e direita. É ainda possível anular esses movimentos deslocando-nos precisamente na direção oposta ao movimento original. É este o básico da jogabilidade, com as complicações a serem exercidas graças às variantes e às condicionantes dispostas nos próprios cenários.

Quando o avião se desloca pelo mapa deixa um rasto branco do seus seus motores e não pode cruzá-lo. Ou seja, estão a ocupar espaço nos cenários que aqui são representados como se fossem tabuleiros. Outro aspecto que é preciso ter em conta é que quando deslocam o avião, o mesmo só pára quando encontrar algo sólido, como os limites do cenário, o tal rasto, ou algo inserido no design do nível em questão, como nuvens ou obstáculos estrategicamente dispostos.

Esses obstáculos são derradeiramente o nervo das adversidades que teremos pela frente. Uma vez que o objetivo de Jetstream é sempre chegar do início a um destino marcado nos cenários com um ponto vermelho, estamos sempre a negociar o melhor caminho para lá chegar. É verdade que mais perto do final do jogo há outros fatores a ter em consideração, nomeadamente, os limites removidos de algumas partes dos cenários, nuvens que desaparecem e reaparecem acompanhando os nossos movimentos, mas a polpa dos puzzles são as alterações ao comportamento da aeronave.

A Clockwork Acorn vai complicando a nossa chegada ao destino proposto com a inserção, por exemplo, de pontos que transportam o nosso avião de um ponto de entrada para uma saída noutro quadrante do cenário como se as leis espaciais fossem um mito, outras destas novidades são pontos que limpam os rastos e abrem novamente o caminho, com o jogador a ter assim que pensar algumas jogadas à frente. Jetstream brinca com a sua própria fórmula sem nunca se tornar um pesadelo de lógica para quem o está a experimentar.

Outra das mecânicas mais interessantes é aquela que transforma o avião temporariamente num veículo terrestre, convidando os jogadores a terem que solucionar trechos de determinados mapas com as rodas no chão. Ainda outra novidade é o facto de algumas das nuvens que temos pela frente estarem literalmente fechadas a cadeado, o que nos obriga a passar com o avião por cima das chaves noutro ponto do mapa para as desbloquear e fazer desaparecer. De sublinhar que há também algumas nuvens pretas com relâmpagos que significam o final da viagem, obrigando-nos a retroceder o último ou últimos movimentos feitos e a reavaliar a nossa estratégia.

Ainda que na teoria possa parecer que estamos perante uma obra penalizadora, na prática tal não se verifica. Como é tão fácil andar para a frente como para trás, mesmo quando ficamos presos num cenário estamos perante uma obra que não castiga a experimentação e que não cobra as tentativas que se revelam um desastre. Isto revela-se útil especialmente em “Flight Plan” e “Final Approach”, os dois últimos capítulos disponíveis. É aqui que Jetstream finalmente desafia os jogadores e obriga-os a pensar seriamente e com toda a atenção em como solucionar um problema.

Quando a produtora tinha finalmente uma oportunidade para manter esta dificuldade e testar durante mais alguns níveis ou capítulos a tenacidade dos jogadores, eis que chegam os créditos finais. O jogador sente a criatividade e a temporização com que as novidades vão chegando para evitar uma estagnação precoce da jogabilidade, todavia, a novidade constante e o final fazem com não haja o aprofundar de alguns desses processos, o que pode ser particularmente frustrante para os fãs que estão a desfrutar do jogo, mas que foram também habituados a puzzles mais exigentes.

Seria interessante que alguns desses exercícios tivessem mais tempo de antena. Um bom exemplo é quando o avião se transforma numa carrinha, tal como já foi mencionado. É evidente que os jogadores estão perante algo que poderia ter mais ramificações, sem nunca esquecer que estamos perante uma obra que tem “Jet” no título. Há aqui muito que de facto resulta durante duas tardes de jogo, mas há também algo que revela alguma insegurança no design da obra, parecendo que estava a tentar tudo com a esperança que algo funcionasse.

Nos departamentos técnicos, Jetstream sublinha a sua índole tranquila a piscar o olho ao zen. Os cenários apresentam-se em tons pastel assentes em texturas sólidas e estilizadas, combinação que executada com esta atenção à composição dos mapas e à inserção dos puzzles como uma camada adicional é de facto uma janela para um mundo mais calmo. Até mesmo os efeitos dados aos obstáculos não agitam a nossa paciência - quando o avião cai numa nuvem preta há apenas um piscar sem dramatismos.

Este estilo gráfico é sempre um risco, pois qualquer exagero ou passo mal dado leva-nos a ficar com uma experiência esterilizada e sem pingo de carisma. Felizmente tal não é o caso de Jetstream, que é seguro na forma como vai expondo os diferentes desenhos. Não são radicalmente diferentes entre si, é certo, mas mesmos dezenas de níveis depois, não se sente a repetição e o incluir de novos níveis apenas para fazer número.

A banda sonora continua esta simplicidade com estilo. Os temas não são apenas a repetição do mesmo arranjo, mas vestem a mesma sonoridade. Não querem o estrelato para si, ou seja, permitem que o jogador esteja focado nos puzzles até que pára e pensa no embalo que está a sentir junto dos tímpanos.

Resumindo, Jetstream pega no tema da aviação e cria um jogo à sua volta, transportando-o para o género de puzzles. A plasticidade e a sonoridade carismática e tranquila são uma boa toalha para pôr as mecânicas dos puzzles. A incessante apresentação de novas regras, porém, ainda que consiga manter a jogabilidade viva, não dá tempo às melhores mecânicas para brilharem verdadeiramente.