Com uma sensação de incompletude, um círculo defeituoso - porque lhe falta uma fatia para estar inteiro - embarca numa jornada para encontrar a peça que lhe falta, para se poder sentir, finalmente, completo. Com uma grande variedade de personagens que se vão juntar à jornada introspectiva do nosso círculo, Journey of the Broken Circle tem tanto de cómico como de sério, fazendo-nos pensar nas vicissitudes e complexidades da vida.

Este jogo de plataformas desenvolvido pela Lovable Hat Cult transmite uma mensagem sobre a vida e os relacionamentos que nela se desenvolvem. O nosso círculo imperfeito sofre de algo que quase toda a gente passa num determinado momento da sua vida: solidão. É fácil reconhecer qual é o grande problema da personagem de Journey of the Broken Circle: como lhe falta uma peça, isto significa que não pode rolar com a suavidade que as curvas de uma circunferência deviam permitir.

Procurar novos amigos é, em algumas ocasiões, uma atividade cheia de emoções fortes, contudo, depois de estar com alguém é normalmente rejeitado pela sua personalidade difícil de tolerar. Todavia, apesar de ter uma certa dificuldade nos relacionamentos que vai fazendo ao longo da sua aventura, o círculo incompleto é bastante otimista quanto ao seu futuro, embora perca pontualmente esse otimismo contagiante.

Em cada nível em que o nosso protagonista se desloca, o jogo dá-nos mecânicas para este se poder movimentar suavemente para o próximo nível, utilizando os atributos associados a cada uma das personagens que travam uma relação de amizade com o círculo. Numa determinada área do jogo, por exemplo, o nosso círculo encontra um amigo pegajoso que se cola a todas as superfícies, o que é útil para ultrapassar as inclinações acentuadas que aparecem posteriormente. Numa outra área do jogo, o círculo sobe até ao céu com um amigo balão, que precisa de ser enchido de vez em quando para sobreviver ao ambiente agreste que se avizinha.

Perto do início da aventura, o nosso círculo depara-se com o primeiro colecionável: um cogumelo. Se um número suficiente destes fungos for recolhido, o jogo desbloqueia-nos um nível extra. Intencionalmente ou não, o nosso círculo truncado questiona-se quanto ao cogumelo que ingeriu e se este não lhe provocará nenhuma reação alucinógena. Talvez esta viagem seja ela própria uma alucinação desta personagem, depois de consumir um fungo da qual não sabe a sua origem. 

Quem tem uma visão pessimista do mundo e da sua vida, vai perceber o comportamento de muitas personagens que travam uma relação de amizade com o círculo incompleto. Muitas destas personagens vêem medo e pânico em todos os sítios; têm receio de um futuro que não conhecem. E é precisamente este comportamento que eleva o nível da escrita carregada de humor.

Quando confrontados com um desafio intimidante, o “quase-círculo” tem um entusiasmo contagiante, porém, todos os companheiros que o acompanham na sua viagem ficam quase sempre apoavorados de enfrentar um desafio que tenha uma ponta de perigo. Os companheiros que completam o círculo incompleto deixam-no quando vêem que a sua segurança ou estabilidade está em risco e assim o nosso círculo parte novamente em busca de uma nova forma de se sentir completo, mesmo que lhe falte uma fatia do seu corpo durante todo esse processo.
 
Resolver os quebra-cabeças que aparecem em Journey of the Broken Circle, um jogo de plataformas bastante sólido, é um exercício de lógica simples: basta evitar os obstáculos que se encontram no nosso caminho para podermos chegar ao destino que está reservado para este círculo incompleto. O nível de dificuldade das plataformas aumenta notavelmente na reta final do jogo, por isso quem pensar que as fases iniciais são um exemplo daquilo que nos espera até ao fim do jogo, será bem surpreendido. No entanto, a dificuldade não diminui de forma alguma a experiência deslumbrante do jogo.

A equipa de produção criou uma experiência que mostra como é que uma vida cheia de ansiedade e preocupação se revela em algo inútil, visto que conseguimos ultrapassar as dificuldades que o jogo nos coloca - mesmo quando temos um inimigo bastante assustador a perseguir-nos.

Este jogo não ostenta um grafismo com arte, é muito básico mas, tal com Thomas Was Alone, prova que uma narrativa focada como esta pode suplantar algo que coloca formas geométricas a percorrer cenários igualmente enfadonhos. Esta obra lançada na Nintendo Switch é uma viagem à saúde mental através da superação de medos, com uma impressionante atenção aos detalhes narrativos, que nos mostra que o esforço para a evolução pessoal pode trazer bons resultados.