por - Jul 22, 2019

Judgment – Análise

Apesar de não apresentar no seu título qualquer indicação nesse sentido, Judgment é efetivamente um spin-off da série Yakuza, a saga de jogos de ação do estúdio Ryo Ga Gotoku protagonizados por Kazuma Kiryu. Esse facto torna-se por demais evidente à medida que as horas passadas novamente pelas atribuladas ruas de Kamurocho se vão acumulando. Podem não surgir caras conhecidas para aqueles que jogaram os muitos capítulos da série principal, mas a fórmula em que assenta essas obras tem a sua impressão digital bem presente nesta nova aventura.

O mesmo é dizer que, para o bem e para o mal, Judgment é mais um jogo onde praticamente tudo se resolve ao soco e pontapé. Ainda que o sistema de combate permaneça tão eficiente e visualmente espetacular e recompensador como sempre, fica a sensação de que o título precisava de uma abordagem diferente para se distanciar das obras que lhe deram origem e se apresentar como algo verdadeiramente distinto do que já foi colocado no mercado. 

Esse é efetivamente o principal problema do novo jogo publicado pela SEGA, isto é, a sua incapacidade para se afirmar como algo diferente, algo capaz de dar nova vida a uma fórmula já mais do que conhecida e familiar, algo que surpreenda ao oferecer uma nova perspetiva em relação ao mundo dominado pela máfia japonesa. No entanto, aquilo que tenta oferecer de novo alterna entre o desinteressante e, na melhor das hipóteses, o mal aproveitado.

Judgment não é um jogo fraco, pelo contrário, a "fórmula Yakuza" pode ser familiar, mas continua a ser eficaz na entrega de uma experiência recheada de conteúdo e que mantém o jogador ligado à aventura até ao seu final. Contudo, fica a sensação de que não é tão bom, tão especial como tinha potencial para ser. O potencial desperdiçado acaba por deixar um sabor amargo na boca, especialmente quando o título nos dá vislumbres do que poderia ter sido apenas para depois voltar a refugiar-se na solução de sempre.

Pertencendo à família de jogos Yakuza, não é surpreendente que a sua aventura volte a ter a organização criminosa e as constantes lutas de poder entre fações internas no cerne do seu arco narrativo. Ainda assim, desta vez não assumimos o controlo de um Yakuza, mas sim de um detetive privado. Mais concretamente, de um antigo advogado transformado em detetive privado depois de ter inocentado um homem que logo de seguida assassinou de forma macabra a sua namorada.

Yagami, nome do protagonista, é assim um detetive atormentado pelo desfecho terrível de um caso proporcionado pelo facto de ter feito um bom trabalho enquanto advogado de defesa. Apesar de já não exercer, o seu talento acaba por voltar a ser requisitado quando um capitão de uma família do Tojo Clan, o clã Yakuza transversal às obras da série principal, é preso por um homicídio que diz não ter cometido. O arranque da aventura leva-nos numa investigação para tentar provar a sua inocência, mas é a procura pela identidade do verdadeiro homicida que guia a história e a demanda do detetive.

Já se sabe que o estúdio Ryo Ga Gotoku tem capacidade para produzir narrativas envolventes repletas de personagens memoráveis, momentos caricatos e reviravoltas constantes que mantêm o interesse do jogador até ao rolar dos créditos pelo ecrã. Judgment não é exceção e tem na sua história um dos seus elementos mais fortes. Ainda que sofra com um ritmo que por vezes se torna demasiado lento, algo que pode ser exacerbado pela tendência do jogador para se dedicar momentaneamente ao muito conteúdo secundário disponível, o arco principal da obra não desilude.

Mesmo que a revelação da identidade do homicida em série se torne relativamente fácil de adivinhar ainda cedo na aventura, a forma como a história vai ganhando várias camadas e a conspiração no centro da mesma se vai adensando e tornando cada vez mais interessante é indispensável para uma experiência que coloca aqui muito dos seus trunfos. E sim, apesar do mistério e dos crimes macabros, há espaço para momentos mais bem humorados que cortam um pouco a tensão e permitem igualmente às personagens mostrarem-se de outra forma.

Claro que o caricato de algumas situações é utilizado sobretudo ao serviço dos inúmeros casos secundários e eventos de amizade que podem realizar ao longo da campanha. Ainda assim, também aqui fica a sensação de que o jogo não faz muito para aproveitar o facto de estarmos a controlar um detetive privado para oferecer objetivos distintos daqueles que ocupavam o tempo a Kiryu em Yakuza. Há momentos inspirados e interações que colocarão um sorriso na face do jogador, mas não esperem encontrar aqui investigações e mistérios de alto interesse, com várias revelações ou com apelo ao vosso intelecto, pois tal não é o caso.

Tanto na campanha principal, como no seu conteúdo secundário – onde se incluem os muitos minijogos e ainda a possibilidade de estabelecer relacionamentos amorosos -, torna-se frequentemente frustrante a forma como as investigações de Jugdment encerram-se quase sempre com cenas de pancadaria. Aliás, o capítulo final é um exemplo perfeito disto mesmo, porque quando pensamos que tudo se vai resolver com o julgamento e com a apresentação das provas obtidas até então, eis que o jogo decide colocar isso para segundo plano de forma a levar-nos para o que é essencialmente um confronto com um Boss.

Para uma obra protagonizada por um detetive, há estranhamente pouca investigação propriamente dita. Sim, é certo que Yagami não é um polícia e que os seus métodos de obtenção de informação colidem muitas vezes com a lei, mas pedia-se maior capacidade para diversificar os processos da jogabilidade. Também não ajuda que algumas das mecânicas introduzidas para representar esse processo de investigação sejam bastante aborrecidas.

Essas mecânicas incluem a procura de pistas num determinado local com uma perspetiva na primeira pessoa, perseguições a alta velocidade, abrir fechaduras para chegar a locais de interesse, seguir personagens de interesse e interrogatórios com opções de diálogo ou com a necessidade de apresentar a prova correta no momento certo. Os mais interessantes são, de longe, os momentos com opções de diálogo, mas mesmo aqui o facto de ser essencialmente impossível falhar acaba por lhes retirar muito do seu impacto. A sua pouca utilização é também desapontante.

De resto, abrir fechaduras é um minijogo pouco entusiasmante, as perseguições terminam quase sempre em pontos pré-definidos independentemente da nossa maior ou menor azelhice nos Quick Time Events, e a procura de pistas também raramente tem o peso necessário para cativar, ou seja, não envolvem cenas de crime interessantes. Por fim, resta referir que se as missões de seguir personagens em Assassin’s Creed não eram boas, em Judgment continuam a ser más, prolongando-se durante um doloroso período de tempo que deixa o jogador sempre a desejar pelo seu final.

Acima de tudo, percebe-se que Judgment é mais competente quando utiliza as bases de Yakuza, isto é, quando traz para o centro das atenções a narrativa, a escrita e o combate. Este último continua aprimorado e espetacular como sempre, havendo uma enormidade de habilidades para desbloquear e aumentar o vosso arsenal de movimentos nas batalhas, assim como dois estilos de combate – um mais focado no combate um contra um com inimigos que se protegem com frequência e outro mais adequado para combates contra vários oponentes em simultâneo. 

Tecnicamente, o novo título apresenta-se bastante similar aos mais recentes lançamentos da série principal. O grafismo é sólido, embora a modelagem das personagens nem sempre deslumbre, e o jogo faz um bom trabalho em dar vida às ruas de Kamurocho, preenchendo-as de transeuntes e pontos de interesse. A banda sonora adequa-se bem aos diferentes momentos da experiência, seja os pontos mais emocionais da narrativa, os momentos de maior tensão e mistério ou o caos da pancadaria. Ao contrário de Yakuza, Judgment conta com vocalização em inglês que é de uma forma geral sólida.

Judgment pode não ter Yakuza no título, mas tem Yakuza no seu ADN. Infelizmente para a sua jogabilidade e conteúdo secundário, é precisamente quando se mantém fiel às origens que produz melhores resultados, o que significa que falha no momento de entregar as novidades que lhe permitam cortar o cordão umbilical ligado às obras protagonizadas por Kazuma Kiryu. Mesmo assim, há uma narrativa interessante e um combate que se mantém espetacular para suportar o vosso tempo na aventura de Yagami.

veredito

Judgment é mais um competente jogo de ação dos produtores de Yakuza, mas sofre por não se afastar o suficiente da fórmula da série principal. A tentativa de dar mais ênfase à componente de investigação é infelizmente atraiçoada por mecânicas de jogabilidade desinteressantes ou mal aproveitadas.
7 Combate corpo-a-corpo continua sólido e espetacular. Narrativa interessante. Desaproveita a componente de investigação. Ritmo por vezes demasiado lento.

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Judgment

para PlayStation 4

Lançado originalmente:

01 January 2019