Kamiko não é um jogo de ação, apesar de oferecer bastantes confrontos resolvidos com a nossa espada, flechas ou escudo. Estas batalhas fazem parte de um puzzle, são mais um elemento necessário à sua resolução. Os esforços destes produtores - um labor colaborativo da Flyhigh Works, Skipmore, Kan-Kikuchi e Circle Entertainment - reside especialmente no design destes quebra-cabeças que prima pela simplicidade e minimalismo. Tal como ocorreu em Fairune, como o argumentei há cerca de cinco meses, é o design que destaca as qualidades do jogo.

O jogo não propriamente rico na sua narrativa. No momento de escolher a vossa personagem é-vos dito que foram incumbidos com a função de remover magia maléfica dos típicos santuários das espiritualidades xintoístas japonesas. Só ao tornarem-se verdadeiras princesas Kamiko é que vão conseguir cumprir o vosso dever ao desbravar por inúmeros inimigos e libertar as estruturas Torii das forças que nelas estão encerradas.

Imagens Analise Kamiko

Comecei a jogar com Yamato, a personagem que está na capa do título, uma mulher que empunha uma enorme espada. Uma jogabilidade muito tradicional à força da lâmina para desferir vários golpes. Todavia, ainda tinha duas outras opções: a arqueira Uzume e a versátil Hinome. Esta última personagem que mencionei atira um escudo e enquanto este faz a viagem de ida e volta à sua dona, pode golpear outros inimigos com o seu curto punhal. Cada uma delas oferece uma experiência bastante diferente de encarar os inimigos, contudo, nenhuma delas esconde o arcaísmo do sistema direcional. É com a arqueira que se nota bem esta fragilidade, onde só se pode disparar as flechas em quatro direções. Os combos permitem ataques mais fortes, mas não consegue colmatar esta falha por si só. 

A nossa principal função não é atacar, mas sim chegar ao portal que nos transportará para o nível do boss. Para isso termos de ligar interruptores, utilizar chaves e ativar botões que nos permitem abrir portas. Queremos o nosso caminho sem os obstáculos para podermos purificar os santuários com a energia acumulada da aniquilação dos monstros que encontraram o seu destino determinado pelo nosso equipamento bélico. Completem esta tarefa na sua totalidade, ou seja, purifiquem todos os quatro Torii do nível em que se encontram e poderão avançar finalmente para o boss.

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Infelizmente, esta fase que deveria ser o auge da conjugação dos elementos de qualquer nível, em Kamiko é algo demasiado fácil a ultrapassar. O desafio é encontrar a forma de poder atingir a esfera vermelha que se encontra escondida no monstro mecanizado que temos de enfrentar. Uma vez que conseguimos acionar a abertura da defesa do inimigo, é pegar na arma que estiver à mão e dar o maior número de golpes possível enquanto o boss estiver num estado de vulnerabilidade. No meu caso, bastou-me achar esta característica de um inimigo que deveria ser supostamente difícil apenas uma vez e ficou derrotado em menos de dois minutos.

Foi estranho reparar deste detalhe, mas a estética e um apelo tão grande à exploração aproxima muito Kamiko de Hyper Light Drifter. Todavia, esta proposta mais minimalista e simples na eShop da Nintendo Switch não está tão dependente de uma aprendizagem tentativa/erro ao combate. E ainda tem uma leitura e dinâmica de resolução de puzzles muito fluída, foram raras as vezes que fiquei bloqueado sem saber o que posso fazer. Onde Hyper Light Drifter complicou, Kamiko simplificou para o bem da experiência que quis entregar. Contudo, sente-se que não há a mesma ambição de criar algo mais memorável. 

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Um dos grandes destaques é a sua direção técnica. Tanto o som como os visuais evocam nostalgia através de melodias chiptune e do recurso ao pixel art para dar vida aos monstros e a uma das três personagens que controlamos. A diversidade destes dois elementos também é uma das suas mais valias, sobretudo a música que se adapta sempre à temática visual do nível em questão. 

Se estão à espera de encontrar aqui uma epopeia ao estilo de Link to the Past, procurem novamente, pois Kamiko não vai satisfazer esta necessidade de aventura. Mas caso queiram um desafio das vossas capacidades de leitura de um design de níveis conseguido, então encontrarão aqui uma autêntica pechincha de cinco euros pela relação entre preço e conteúdo.