Depois de ter jogado Kelvin and the Infamous Machine, fiquei surpreendido com o que foi possível atingir com um modesto sucesso no Kickstarter, longe dos milhões atingidos por outros em situações similares. Esta aventura gráfica, como é tradicionalmente apelidada, contém o melhor que o género point'n'click tem para oferecer. Personagens carismáticas, piadas hilariantes e uma narrativa interessante de seguir são algumas dos muitos elementos válidos que servem de apelo à sua audiência.

Kelvin and the infamous

Quando se trabalha exaustivamente num projeto e este acaba por não ser reconhecido pelo público, ou no mínimo pela comunidade da área em que se trabalha, começam a acenderem-se sentimentos de frustração, raiva e depressão. Quando Dr. Edward Lupin criou uma máquina de viajar no tempo, a comunidade científica não lhe deu a atenção que merecia, dado o design ser de um vulgar duche com cortina, dando-lhe um prémio equivalente aos Razzies. Furioso, Lupin decidiu viajar no tempo e roubar todas as glórias e avanços científicos importantes de vários génios. E é aqui que entra o protagonista Kelvin, que dá nome ao jogo, o assistente de pesquisa de Dr. Lupin, para salvar a humanidade dos estragos feitos pelo seu patrão.

Um herói inesperado, um trapalhão que não tem a competência para uma tarefa desta envergadura. Ou seja, temos a personagem ideal para entregar piadas e envolver-se em situações no mínimo cómicas. Esta aventura irá levá-lo para três diferentes épocas, de três diferentes génios da música, ciência e arte. Ludwig van Beethoven, Isaac Newton e Leonardo da Vinci serão os grandes génios aos quais Lupin impediu que alcançassem as conquistas que todos conhecem: a Quinta Sinfonia, a Lei da Gravidade e a Mona Lisa. Todas obras consideradas como pináculos das suas carreiras e de inegável importância na humanidade.

Kelvin and the infamous

Visto que Lupin está numa demanda para impedir que estes artistas e cientistas atinjam a sua capacidade intelectual máxima, as implicações para o futuro são desastrosas. Assim, Kelvin e a colaboradora de Lupin vão estar juntos para que estas descobertas aconteçam custe o que custar. Beethoven tem que criar uma das obras da sua vida, Newton tem de revolucionar a Física e da Vinci tem que pintar uma das mulheres mais famosas do mundo imortalizada numa tela que ainda hoje se encontra exposta no Louvre.

Como é habitual em qualquer obra point'n'click, há que varrer o ecrã com o cursor para ver que opções o jogador tem para interagir com o mundo que se apresenta. O cursor age como qualquer obra recente inserida neste género. É tão simples quanto isso. Contudo, é nas conversas com as personagens que se obtém o contexto e direção para onde queremos seguir, são elas que detêm a chave para abrir caminho à nossa progressão.

Kelvin and the infamous

Ou seja, o que vai acontecer na obra da produtora argentina Blyts é que terão de encontrar encadeamentos lógicos para conseguirem avançar. Para conseguirem ter acesso a uma bebida alcoólica bem forte têm de primeiro apanhar uns amendoins, comê-los para se dar uma reação alérgica, para assim o médico vos passar uma receita para poderem serem servidos com a bebida especial, esvaziarem um copo que têm no vosso inventário e por fim servir a bebida nesse copo limpo. Esta é uma das várias sucessões de tarefas, claro, com pausas pelo meio. Nem sempre o que deve ser feito é tão claro como água.

Ver Kelvin a desempenhar várias ações depois de um clique no rato é sempre uma surpresa, na maioria das vezes. Não que seja mau por si próprio, mas retira algum controlo ao jogador. Sim, Monkey Island estava repleto de verbos que podiam confundir o jogador, mas eram oportunidades bem aproveitadas para a escrita de novas linhas de humor. É por isso que Thimbleweed Park, do grande Ron Gilbert, se está a tornar cada vez mais interessante, principalmente por fazer regressar esta particular mecânica.

Kelvin and the infamous

Todavia, para um Kickstarter que foi tão modesto em comparação com muitos que receberam quantias na ordem dos milhões de dólares, Kelvin and the Infamous Machine é um feito único. É curto, cerca de quatro a cinco horas, conforme a vossa habilidade para resolverem puzzles, mas é um condensado de elementos, mecânicas e sistemas que se complementam entre si, não uma obra diluída onde se tem dificuldade em encontrar motivos para continuar pela aventura gráfica.

O grande poder para agarrar o jogador está definitivamente na narrativa. Esta é original e realmente capaz de fazer sorrir, quando às vezes não nos faz soltar uma pequena gargalhada. O título sabe que é uma comédia e quando aparece uma situação em que o jogador afirma para si próprio "como se isto fosse possível", Kelvin faz questão de comentar a situação com um comentário adequado. Por exemplo, quando colocam itens que seriam inadequados para colocar na sua mochila, como uma vela acesa ou algo de proporções demasiado elevadas. As referências à cultura popular também fazem a sua aparição e acertam muitas vezes em cheio. Colocar personagens a ler Harry Potter, é simplesmente genial.

Kelvin and the infamous

Uma outra parte do jogo que não se poderia deixar de mencionar, é a excelente vocalização entregue pelos atores. Estes dão vida e muito caráter às personagens que interpretam. O sotaque tem sempre o tom correto para a época em que viajamos e para as caricaturas que querem representar. O estilo escolhido para a animação e desenhos do jogo estão em concordância entre si. A comédia sobressai bastante dos desenhos. Tem um estilo muito similar à nova arte que foi dada à remasterização dos dois clássicos da LucasArts, da série Monkey Island.

Sinceramente, Kelvin pode ser curto, mas o que entrega pelo preço pedido é muito bom. Tem argumentos para fazer rir, uma narrativa interessante onde nos interessamos muito para ver até onde chegam os níveis de loucura do cientista frustrado com a sua situação, assim como o do seu assistente que tenta reparar os danos causados por ele. É pena ter de sofrer da modernização dos jogos de aventura gráfica, perde sobretudo na construção de novos puzzles e de novas piadas à custa destes. Se são grandes fãs de jogos de aventura clássica point'n'click, sobretudo pela história que os acompanha, este título vindo da América Latina não desilude.