por - Oct 11, 2013

Kingdom Hearts 1.5 HD ReMIX Análise

Mesmo antes de chegarmos ao primeiro conto de Milan Kundera incluído no seu livro “Um Encontro”, pode-se ler:

…encontro entre as minhas reflexões e as minhas recordações;

entre os meus velhos temas (existenciais e estéticos) e os meus velhos amores Rabelais, Janeck, Fellini, Malaparte…)…

Não sabia quando o escreveu, nem eu o imaginava quando o li pela primeira vez, mas estas linhas são quase tudo o que importa dizer sobre Kingdom Hearts HD 1.5 ReMIX. Composto por Kingdom Hearts e Kingdom Hearts Re: Chain of Memories em formas jogáveis e um terceiro capítulo da série, Kingdom Hearts 358/2 Days, sob a forma de novela gráfica, ou seja, não terão oportunidade de o jogar, apenas de assistir a todas as suas cenas de vídeo, sente-se que os títulos estiveram à passagem do tempo, o que enalteceu alguns dos seus pontos mais fortes e expôs sem piedade as suas fraquezas.

Depois de várias horas passadas com os dois títulos jogáveis, fiquei com a sensação que tinha ido ao sótão e aberto um velho baú. Não tanto pelo lado retro dos jogos, afinal, o primeiro Kingdom Hearts foi lançado na PlayStation 2 há menos de doze anos, mas sim porque me pareceu estar a ler antigas cartas de amor entre a Square e a Disney. A produtora confessa o seu amor à casa do Mickey enquanto ela lhe confia a recriação digital dos seus preciosos mundos. Sim, hoje existem inúmeros videojogos que usam e abusam da licença Disney, contudo, convém não esquecer que estamos a falar de um acordo que provavelmente começou a ser falado no século passado.

A estrela do conjunto é Kingdom Hearts Final Mix, a versão do primeiro jogo da série que nunca tinha sido lançada fora do Japão até agora. Esta versão implica novas armas, novas cenas e alguns ganchos narrativos que não estavam presentes na versão ocidental do jogo. Não revoluciona – e muitos nem reparação na adição de conteúdo – porém, vale mais o gesto da produtora em terminar com a sua exclusividade oriental. A história do título coloca o jogador na pele de Sora, um jovem aborrecido com a vida que leva na sua pacata ilha. Um dia, o seu vinculado desejo por uma aventura que lhe proporcionasse os dias mais animados da sua vida torna-se realidade e, juntamente com um elenco de personagens como Riku, Kairi, ou do lado Disney, nomes como Donald ou o Pateta. Aliados, inimigos e mundos, é aqui que a magia da Disney entra em campo e proporciona aquele sentimento quente de estarmos a jogar nos mundos e com ou contra as personagens que fazem parte da nossa vida desde sempre.

Na sua essência, Kingdom Hearts mistura aventura com elementos ligeiros de Role Playing com enfoque na ação. Muitos chamar-lhe-ão demasiado simples, porém, o seu sistema de combate mais linear ajuda a dar ênfase à componente de aventura. Pessoalmente, gosto de Role Playing Games um pouco mais profundos, contudo, desde que terminei o jogo na PlayStation 2, fiquei com a sensação uma maior complexidade não se justificava. Como as mecânicas se mantêm inalteradas face ao lançamento original, a câmara de jogo continua a tirar a paciência a um santo. Seja em modo automático ou manual, seja invertido ou não, por diversas vezes senti que o jogo tem uma dificuldade atroz em lidar com mais do que um inimigo ao mesmo tempo no ecrã, o que se torna um fado com o avançar da aventura. O sistema de autobloqueio também não é muito prestável, pois o problema esta nas mudanças aleatórias de plano.

Existem outros pontos no jogo que continuam a causar algumas dores de cabeça. Enquanto a maior parte das secções de salto são frustrantes, em boa parte devido à câmara que não parece aceitar o nosso pedido de tréguas. Além disso, as zonas em que somos obrigados a usar o infame Gummi Ship permanecem demasiado obtusas e escusadas. Não fazia sentido remover estas partes na nova edição, contudo, tal como disse no primeiro parágrafo da análise, o tempo encarrega-se de expor de maneira irrefutável os pontos menos conseguidos da obra.

O segundo jogo do combinado, Kingdom Hearts Re: Chain of Memories, oferece mecânicas de combate muito diferentes. O jogo assenta em cartas para gerir aquilo que fazem frente aos vossos inimigos, ou seja, Sora deixa de depender apenas da sua arma para infligir dano, aqui terá que ativar as cartas que tem no seu baralho. Na prática, a sequela é mais complexa que o original, fazendo-me lembrar o salto – e o choque – que os jogadores tiveram quando o Kojima tirou da cartola Metal Gear Ac!d. Obviamente, levando sempre em conta as diferenças entre os combates dos dois jogos, quem os experimentou deparou-se com algo diferente – melhor ou pior é subjetivo – mas sem dúvida diferente. Importa ainda mencionar que as cartas também influenciam a maneira como exploram o mundo. A história de Chain of Memories continua a dar o lugar de protagonista a Sora, contudo, a narrativa é agora apresentada como uma série de lembranças baseadas em memórias.

As diferenças mais imediatas nos jogos são, indubitavelmente, relacionadas com o seu grafismo. Esta compilação é particularmente feliz, pois os mundos encerrados nos jogos que a compõe têm um aspeto muito próprio e apelativo. Coloridos, vibrantes, charmosos, todos os adjetivos em que possam pensar, ganham uma outra dimensão em Alta Definição. Existem várias fases de gerir este melhoramento: a surpresa inicial, a estabilização das diferenças – penso que por estarmos tão habituados aos elevados padrões técnicos dos melhores jogos desta geração de consolas e, se forem como eu, a comparação direta de alguns mundos. Façam o mesmo exercício e vão constatar como a vossa memória, talvez embrenhada pela nostalgia, pinta um quadro muito melhor que a qualidade dos jogos original tinha. Não são jogos feios, porém, acreditem que esta pintura faz toda a diferença, dando vida a pormenores que se calhar até passaram despercebidos à mão dos agora escassos 128 bits da PlayStation 2.

A qualidade da banda sonora é transversal aos jogos de Kingdom Hearts HD 1.5 ReMIX. Yoko Shimomura fez um excelente trabalho a embalar os jogadores pelas dezenas de horas oferecidas pelos dois jogos principais. Infelizmente, a vocalização deixa algo a desejar. Nunca encarei os jogos Kingdom Hearts como infantis, portanto, acho que em alguns pontos as linhas de diálogo são demasiado simples e quase condescendentes com os jogadores que tenham mais de quinze anos.

Lançar Kingdom Hearts HD 1.5 ReMIX foi uma luta contra o tempo. O tempo estava a passar e a grande questão era quantas das novidades introduzidas pela Square Enix iriam limar as arestas levantadas pelo envelhecimento. Analisar Kingdom Hearts em 2013 é muito diferente de o fazer em 2002, pois algumas das falhas continuam as mesmas, porém, os padrões subiram consideravelmente, elevando aquilo que os jogadores esperam de um jogo. Apesar de sucumbir em diversos aspetos, os dois títulos jogáveis ainda conseguem oferecer entretenimento e alguns momentos genuinamente emocionais. Não deixa de ser uma pena que 358/2 Days não esteja jogável, pois as praticamente três horas que duram as suas cenas de vídeo não têm a qualidade necessária para manter o jogador interessado.

veredito

Ainda que o tempo tenha exposto todas as fragilidades dos originais, estamos perante duas aventuras memoráveis.
8 Duas aventuras enormes Alta Definição dá um novo impacto ao grafismo dos jogos Algumas secções dos jogos estão ultrapassadas Câmara de jogo continua a não colaborar

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Kingdom Hearts 1.5 HD ReMIX

para PlayStation 3

A compilation for the PlayStation 3 to include both Kingdom Hearts Final…

Lançado originalmente:

13 September 2013