Quando o nome Kingdom Hearts 3 apareceu na minha televisão, um dos meus primeiros pensamentos foi a tentativa de compreensão da minha vida quando o nome Kingdom Hearts 2 foi avistado. São mais de dez anos entre estas situações, o que permitiu que um mar de acontecimentos tenha sido navegado. Alguns adicionaram, outros subtraíram às nossas vidas, mas sobretudo é um mar que as amadureceu.

Muitos terão certamente chegado a pensar que Kingdom Hearts 3 nunca seria uma realidade, mas a verdade é que a nova aventura criada por Tetsuya Nomura é uma realidade, chega-nos cheia de fogo de artifício e volta a ter na combinação entre as personagens de um Role Playing Game nipónico e os mundos da Disney e da Pixar o seu principal cartão de visita. Sente-se a ambição e uma certa magia na definição destas dezenas de horas que nos fazem sentir um pouco mais velhos a matar saudades de velhos amigos.

Voltamos a vestir a pele de Sora, o adolescente de cabelo desgrenhado e vestimentas tão berrantes quanto algumas linhas de diálogo que lhe vão sair da boca para fora durante as horas seguintes, linhas de diálogo que encontrarão eco noutras personagens. Traços nipónicos e um espírito jovial inabalavelmente otimista na mensagem a transmitir, um otimismo que roça a irritação por inúmeras vezes.

Sora, o herói que falhou o Mark of Mastery na sua tentativa para se tornar um Keyblade Master em Kingdom Hearts 3D: Dream Drop Distance, tem aqui, juntamente com os seus companheiros de batalha Donald e Pateta (entre outros que vão entrando e saindo da equipa), a tarefa de formar os setes Guardians of Light e assim tentar evitar que Xehanort consiga ter sucesso na sua cruzada para dominar o Universo.

Sem grande surpresa, Kingdom Hearts 3 não coloca todos os ramos da sua narração numa única árvore. A trama conta também com a presença de Riku e Mickey, dupla de heróis que chegam de mundos diferentes para tentarem resgatar Aqua, que está aprisionado no Realm of Darkness. Este malabarismo narrativo faz os jogadores sentirem que Nomura devia aos fãs da saga o atar de várias pontas soltas, o que vai sendo feito ao longo da aventura, mas sem conseguir evitar um argumento convoluto em determinados momentos - mesmo que tenham jogado todas as obras até então, mesmo que Kingdom Hearts 3 vá resumindo o que aconteceu em diversos flashbacks.

O argumento é alimentado por uma escrita que tem a sua dose de tiradas juvenis, algumas das quais capazes de fazerem os fãs revirar os olhos. Ainda assim, perceber qual é o seu objetivo, é perceber que estas são as personalidades que já faziam parte deste universo, ou seja, mais do que uma obra em que a escrita se apresenta com menos profundidade, é sim um sinal do que os jogadores foram amadurecendo e a sua capacidade para avaliar o que é dito - e muitas vezes feito - é diferente, mais crítica. A história continua a ser essencialmente a luta do bem contra o mal e uma demonstração do poder da união, da confiança e, acima de tudo, da amizade.

Como Role Playing Game de ação que é, Kingdom Hearts 3 precisava de ter uma jogabilidade capaz de sustentar esta maratona. Felizmente para quem está a pensar começar a empreitada, além de permitir várias abordagens e vários graus de dificuldade que tornam a aventura acessível a todos, estamos perante um sistema de combate que conta com várias camadas que permitem aos jogadores retirar tanto quanto investem. Além disso, é um design de processos que consegue fazer isto sem se esquecer de divertir e motivar os jogadores enquanto transforma quase tudo num acontecimento visual.

Para fazer frente aos diferentes tipos de Nobody, Heartless e Unversed, os jogadores têm pela frente um manancial de equipamento e de habilidades, o que combinado e gerido permite um leque variado de ataques e magias. Fazendo a gestão das armas, podem agora ter até três Keyblades diferentes equipadas, mas também da armadura, acessórios como anéis e amuletos, e ainda os itens que levam para as batalhas, torna-se claro que a obra pede para irem experimentando. E, no entanto, é um sistema de combate que não deixa de validar os jogadores que não querem saber de nada disto e estão dispostos a abrir caminho pressionando desmesuradamente o mesmo botão.

Sobre o sistema de combate, destaca-se ainda a inclusão do mundo que rodeia as personagens graças ao Flowmotion, funcionalidade que permite rodopiar em vários objetos presentes nos cenários. As Formchanges estão também presentes, o que permite aos jogadores encherem um medidor com os ataques das Keyblades, que assumem posteriormente uma nova forma que oferece ataques mais devastadores. Durante as batalhas é ainda possível executarem ataques que vão buscar atrações da Disney, como um carrossel, uma montanha-russa, carrinhos de choque, enfim, um espetáculo de cores garridas que, ainda que não consiga espevitar a jogabilidade, dá aos jogadores uma sensação de grandiosidade.

Será assim fácil compreenderem que a jogabilidade é edificada em processos que podem ser aproveitados para algo profundo, ou pelo menos que se presta a ser profundidade. Caso precisem de ainda mais incentivos, Kingdom Hearts 3 permite também coordenar ataques com outros membros da equipa e também chamar personagens do universo Disney para ajudarem momentaneamente na hora dos ataques especiais. Nomes como Simba ou Ariel podem assim ser aliados temporários e a mostra que a Square Enix e a Disney trabalhar em conjunto para recolher os dividendos desta unificação dos diversos mundos de entretenimento.

Quando uma obra tem um acessório, o Gummiphone, para o jogador consultar aquilo que foi acontecendo na sua aventura até esse momento, é porque a própria produtora tem a noção que a sua obra será de digestão lenta. Informações variadas sobre tesouros, Lucky Emblems, glossários, um álbum com fotografias que foram registadas, está tudo aqui, assim como receitas - sim, Kingdom Hearts 3 permite recolher ingredientes e cozinhar vários pratos com o rato de Ratatouille. São entradas, pratos de peixe ou carne, sopas e sobremesas que vão dando bónus temporários.

Entre os diversos mundos que formam o alinhamento da obra, viajamos na Gummi Ship, funcionalidade que regressa de outros títulos da saga e que permite controlar uma nave. São secções que transformam o Role Playing Game num shoot-em-up ligeiro, sendo agora possível a movimentação ligeiramente mais livre. Aqui há tesouros para encontrar e inimigos para abater, porém, são trechos que raramente ficam na memória, não só porque a jogabilidade não é profunda ou diversificada, mas também porque o vazio do Espaço é precisamente isso: vazio. Há também aqui o esforço para que seja o jogador a personalizar e a melhorar a nave, mas nunca são processos para que estas secções sejam antecipadas, funcionando mais como o preenchimento possível entre os palcos principais do jogo.

São precisamente esses mundos que voltam a encantar. Com quase uma dezena de cenários, Kingdom Hearts 3 tem ainda assim menos palcos do que os seus antecessores, o que não quer dizer que a variedade não esteja presente. Obras como Entrelaçados, Toy Story, Piratas das Caraíbas, Monstros e Companhia, Hercules, Frozen e até Big Hero 6 graças à inclusão de San Fransokyo estão presentes, o que é aproveitado pela casa nipónica para colocar inúmeras personagens Disney a conviver com os protagonistas enquanto não perde nenhuma oportunidade para diluir a linha entre formas de entretenimento.

Claro que o tamanho do sorriso variará consoante for o vosso investimento nas obras aqui incluídas, mas ver Pascal de Entrelaçados marcar breve presença como um pormenor, ou testemunhar como o aspecto da obra muda em Piratas das Caraíbas para fazer jus às películas é reconfortante e até emocional de certa forma, pois leva-nos até aos diversos momentos das nossas vidas em que estávamos quando vimos os filmes. Frozen, por exemplo, consegue fazer isto de forma até algo surpreendente, não sendo apenas a fácil inclusão de Let it Go. Visitem Toy Box, o mundo de Toy Story, e o desafio é não se lembrarem das emoções que tiveram quando comungaram com Woody, Buzz e companhia.

Nem todos os mundos conseguem oferecer este nirvana, mas esta foi e volta a ser uma das facetas que mais nome e carisma dá à série. A Square Enix sabe o quão avassalador tudo isto pode ser para o jogador, pelo que é uma agradável surpresa quando é a própria obra a ironizar com a situação. Sem estragar a surpresa aos fãs, em determinado momento Kingdom Hearts 3 quebra a quarta parede e a Square Enix brinca com as suas Propriedades Intelectuais e o seu estilo característico, como se estivessemos a experienciar “um jogo dentro de um jogo”. As personagens olham para Sora como uma personagem dentro de um jogo fictício, tecendo comentários sobre a situação que é o mais próximo que Nomura está de confidenciar um “nós sabemos que vocês sabem”.

Todo este carisma e atenção ao material original enquanto nos vamos movimentando pelos cenários que já tínhamos visto sem direito a exploração em nome próprio são acompanhados por uma excelente banda sonora. Yoko Shimomura não se escusa a enveredar pelo pomposo e pelo épico, o que acaba por dar uma nova camada de grandiosidade ao que se está a passar no ecrã. Nem todos os temas foram criados de raiz para Kingdom Hearts 3, mas em vez de ser desleixo, é na verdade um relembrar do passado, não apenas da série, mas da relação que foi criada entre videojogo e jogador.

É uma obra que mesmo sem chegar a ter uma longevidade de centenas de horas oferece muito para fazer, para aprender e para ver. São incontáveis sessões de jogo para compreender o que Kingdom Hearts 3 vale e torna-se evidente que vale bastante. É verdade que a escrita conta com frases que os jogadores poderão achar frívolas e as secções com a nave praticamente não serão recordadas; é também verdade que no miolo da aventura há certos períodos em que o encantamento é colocado em segundo plano. E ainda assim, quando Kingdom Hearts 3 é uma exultação mais contundente que estes momentos mais apagados. Foram anos e anos à espera que dão assim lugar a horas e horas a conviver com vidas que nunca chegaram a ser completamente esquecidas.