Filipe Urriça por - Apr 13, 2022

Kirby and the Forgotten Land – Análise

Esta nova entrada na série da pequena personagem cor de rosa da Nintendo foi o melhor que poderia ter acontecido a Kirby. Os jogos de Kirby sempre foram feitos com uma injeção de criatividade com a seringa bem cheia, mas sem exigir muito a quem joga; sabia-se uma habilidade básica e fazia-se o jogo de uma ponta à outra sem esforço absolutamente nenhum. É esta a magia do design imaculado de Kirby, uma habilidade tão simples como aspirar inimigos pode ser tão interessante para explorar as restantes mecânicas do jogo.

Para fazer um bom jogo Kirby convém não mexer nas mecânicas basilares do pequeno ser cor de rosa. Tal como Mario salta para esmagar Goombas e Link brande a Master Sword para partir vasos de cerâmica; Kirby aspira inimigos e digere-os para ficar com os seus poderes. Kirby and the Forgotten Land não desconfigura a personalidade, nem as características de Kirby; a personagem da Nintendo continua a ser o que foi nos títulos lançados na Game Boy, NES e Super Nintendo. Poder dizer isso é reconfortante, porque os lançamentos mais recentes de Kirby na 3DS são demasiado fáceis e lineares, enquanto que as entregas na Switch não são mecanicamente ricas. Kirby and the Forgotten Land é, por isso, um regresso à forma.

A melhor comparação que se pode fazer com o título da HAL Laboratory é com um tradicional jogo de Super Mario. Estruturalmente e mecanicamente, Kirby and the Forgotten Land foi beber muita inspiração à série da Nintendo com o canalizador de chapéu vermelho. Para uma personagem como Kirby e todo o seu universo de inimigos e amigos, que fazem parte dos seus jogos, faz sentido que tenham feito algo como Forgotten Land, dado que há material mais que suficiente para realizar algo mais robusto e sem a necessidade de facilitar mecanismos. Todos os elementos do jogo, como as mecânicas de Kirby e as diversas personagens conjugam-se muito bem uns com os outros; o design brilha em todo o seu esplendor quando percebemos que nada foi feito ao acaso, tudo tem um nobre propósito: a nossa diversão.

O jogo abre com uma cinemática para nos explicar o contexto da aventura e o porquê de irmos, de nível em nível, até ao próximo boss. Aparentemente, Kirby e todos os seus companheiros foram arrastados para um outro universo, através de uma fenda que se abriu no céu. Foram todos para um mundo estranho, um local pós-apocalíptico onde há restos de uma civilização humana reclamada pela natureza. Aqui há níveis construídos com base num centro comercial e num autódromo, só para citar alguns exemplos – e ainda há outro que parece estarmos num western spaghetti. À medida que completam níveis, podem passar para outros até chegarem ao último dessa zona onde está um boss que, depois de vencido, abre espaço para a próxima zona.

Jogar Forgotten Land é como jogar Super Mario 3D World, ou seja, andam com Kirby num mundo tridimensional e têm de ir do início ao fim de diferentes níveis que, normalmente, são feitos para irem da esquerda para a direita e de baixo para cima. Nem todos têm este sentido e direção, mas há sempre um início e um fim, onde vos espera um trio de Waddle Dee para serem salvos. Ao longo de todos os níveis, há mais alguns Waddle Dee para serem resgatados das jaulas onde se encontram e, apesar de opcional, convém libertá-los, pois o somatório de todas estas criaturas que conseguem resgatar dá-vos alguns benefícios para uma aventura mais variada e, por conseguinte, mais agradável, graças às novidades que recebem.

A primeira função destes Waddle Dee é a de abrir os portões do nível onde está o boss, caso não tenham a quantidade exigida vão ter de repetir níveis à procura dos sítios onde se escondem as várias jaulas. Estes vossos companheiros, depois de salvos, regressam à sua aldeia que pode e deve ser visitada sempre que o desejarem. Com um determinado número de criaturas Waddle Dee salvas abrem novos edifícios que vos dão, por exemplo, acesso a minijogos divertidos ou a um útil ferreiro que melhora os poderes de Kirby. Por isso, uma boa parte do jogo passa por este objetivo: resgatar todos os Waddle Dee que puderem. Assim, acabamos por estar mais atentos a todos os segredos que um nível pode ter. Vão começar a perceber que há atalhos, caminhos alternativos e locais escondidos no próprio cenário.

O design de Kirby and the Forgotten Land está todo construído em torno dos poderes do nosso protagonista de palmo e meio. A mecânica principal é simples: aspiram um inimigo com uma habilidade especial e assumem-na automaticamente, sem terem de pressionar para baixo no botão direcional como se fazia em outros títulos. Caso o inimigo não tenha poder nenhum, Kirby fica com a boca cheia, pronto para cuspi-lo contra outros inimigos. Assim, caso seja possível, façam de conta que estão a jogar bowling e tentem arrumar o máximo número de monstros possível num único lançamento.

Podem ter o poder de um espadachim que ataca, como é óbvio, com uma espada, assim como o poder de um caçador que empunha uma caçadeira de longo alcance. Enfim, há toda uma variedade de poderes e habilidades que nos obrigam a olhar para o jogo de forma diferente. Porém, se há um inimigo que cospe fogo, é muito provável que tenham de absorver a sua habilidade, pois é provável que o nível esteja desenhado para um Kirby que também cospe fogo. O jogo está propositadamente desenhado para os poderes dos inimigos que estão no nível, caso tenham a teimosia de manter Kirby com a sua forma natural podem perder parte da diversão que foi criada em específico para uma habilidade a ser usada pelo jogador. Curiosamente, uma das novidades que Forgotten Land traz é a habilidade Mouthful, que nos dá mais um leque de formas para ultrapassar partes de um nível.

A forma que mais curiosidade despertou nos jogadores, durante as apresentações promocionais, foi quando Kirby aspirou um carro e não o engoliu por completo e passou a poder movimentar-se com esse mesmo automóvel. Obviamente, o carro era só a ponta do icebergue. Kirby pode aspirar, sem engolir, vários outros objetos que lhe permitem, nem que seja por breves segundos, atravessar uma secção do nível propositadamente desenhada para as novas capacidades de Kirby. Sinceramente, por muito que o modo Mouthful seja algo passageiro, associado ao nível em que se encontra, é uma excelente adição à fórmula e à mecânica nuclear da pequena esfera cor de rosa.

Tal como a grande parte dos jogos Kirby, Forgotten Land também é extremamente fácil e é por isso que acho estranho haver um Wild Mode, com uma dificuldade considerada normal (mas que continua a ser fácil, mesmo para um jogador com pouca prática), assim como haver a dificuldade Spring-Breeze Mode que é ainda mais fácil, não há praticamente nenhuma recompensa por conseguirem aniquilar inimigos mais fortes, que vos deixa apreciar a alegria da descoberta porque este Kirby tem imensos detalhes para descobrir. Se há quem levante a voz nas redes sociais para que se baixe a dificuldade dos jogos da FromSoftware, é pena que não haja ninguém que peça o contrário para os jogos da HAL Laboratory. É por isso que os níveis Treasure Road são tão bons de completar porque, apesar de serem pequenos, é aqui que se encontra o verdadeiro desafio.

Nos níveis Treasure Road, o jogador tem de ultrapassar desafios num determinado tempo limite. Estes desafios são muito bons, porque exigem que o jogador domine as habilidades dos diferentes poderes permanentes que transformam Kirby. Por exemplo, o poder de fogo torna Kirby num cuspidor de, bem, fogo. São nos Treasure Road que ficamos com o melhor level design de Forgotten Land, é pena que esta lógica de game design não tenha sido aplicada ao longo da campanha nos níveis regulares. Os Treasure Road são opcionais, se não os completarmos conseguimos seguir em frente, lá não há nenhum Waddle Dee para salvar. Contudo, convém fazê-los, porque recebem uma pedra preciosa em forma de estrela. Este prémio, por conseguirmos dominar um determinado poder, é fundamental para chegarmos às evoluções dos poderes de Kirby.

Na aldeia dos Waddle Dee temos a possibilidade de melhorar os poderes. Estes não são melhoramentos básicos que aumentam a característica de uma capacidade qualquer, por exemplo, quando Kirby é um cuspidor de fogo a evolução não lhe aumenta, hipoteticamente, o alcance das labaredas cuspidas ou a temperatura do fogo de forma a provocar mais dano; não há nada disso – a evolução transforma completamente a forma como se encara o poder que é adquirido. Isto é realmente muito interessante e refrescante porque revigora a jogabilidade quando os poderes já estão a ficar repetitivos – evitando que se instale qualquer frustração. Assim, a campanha não cansa absolutamente nada e o que pensávamos ser uma sessão que demoraria um determinado tempo, estende-se naturalmente sem darmos conta das horas a passar.

Artisticamente, Kirby and the Forgotten Land está muito bem conseguido, é bastante coerente e pode-se afirmar que é bem bonito como qualquer outro título que se passe no Reino Cogumelo. Por isso, além de Kirby assumir formas curiosas, que revelam a grande criatividade que a equipa de produção teve durante o processo de desenhar os elementos estéticos e mecânicos do jogo, o mundo é bastante colorido e com uma variedade quanto baste nos cenários. É muito raro virmos a sofrer de qualquer tipo de repetição, o que se salienta é grande imaginação por detrás dos cenários que mistura a realidade humana com a da fantasia dos mundos Nintendo.

Kirby and the Forgotten Land dá a forma que a emblemática série da casa de Quioto tanto precisava. Kirby, se tiver o mesmo cuidado no level design como Forgotten Land teve, tem um futuro promissor. Sim, inspira-se muito nas clássicas aventuras de plataformas de Mario, mas se mantiver a sua identidade, formada há décadas, os produtores de Kirby terão um futuro entusiasmante e vão se sentir pressionados a fazer sempre o seu melhor quando for anunciado um novo jogo. Joguem Kirby and the Forgotten Land, acrescentará muito valor à vossa coleção de jogos da Switch.

veredito

A nova obra da HAL Laboratory foi cuidadosamente desenhada com uma estrutura tridimensional onde os níveis brilham e as mecânicas são bastante divertidas. Este é o caminho certo para Kirby ganhar nova relevância no rico catálogo de séries da Nintendo.
9 Design dos níveis. Mouthful Mode foi bem pensado. Criatividade do jogo. Várias missões para repetir níveis.

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Kirby and the Forgotten Land

para Nintendo Switch

Primeira aventura de plataformas 3D de Kirby.

Lançado originalmente:

25 de março, 2022