Pedro Martins por - Nov 28, 2013

Knack Análise

Knack é um jogo bem-disposto que almeja colocar todos os que o experimentem nesse estado de alma. A Sony sabia que colocar o jogo a partilhar as prateleiras com a PlayStation 4 traria os seus frutos: juntamente com LEGO Marvel Super Heroes – que também é um jogo de lançamento – é o escape ideal para pais, mães e filhos se reunirem em frente à consola nipónica e confraternizarem, usando os videojogos na sua melhor acensão. Apesar de não cumprir com tudo o que tinha prometido, se lhe dedicarem o tempo necessário para aprender as suas mecânicas e as suas intenções, conseguirão espremer algumas horas de diversão, sobretudo se o partilharem com outro jogador.

O argumento é desengonçado e não tem estofo suficiente para fazer com que os jogadores se interessem pelo que vai acontecer no próximo capítulo. Knack é a criação do Doutor, que acredita que com esta tecnologia conseguirá colocar cobro à batalha travada entre humanos e goblins. Depois de concluídos todos os capítulos que compõe a narrativa do jogo escrito e realizado por Mark Cerny, figura que saltou para a proa da indústria quando lhe foi creditada a arquitetura da PlayStation 4 e da PlayStation Vita, fica-se com a sensação que a boa disposição mencionada na abertura desta análise resulta numa conclusão em que tudo acaba bem para todos, com os vilões a serem punidos de forma politicamente correta e os heróis a serem consagrados pelos seus atos. Ainda que os jogadores mais imberbes se possam deixar encantar, qualquer um que tenha mais de dez anos ficará a digerir a sensação que o jogo não corre um único risco e que as reviravoltas podem ser adivinhadas à distância.

Curiosamente, ao longo das onze horas que me demorou a completar a aventura, as criaturas inimigas que nos propomos a combater quando assumimos pela primeira vez o controlo de Knack na missão que serve para o Doutor demonstrar a sua criação não são o mais vil que o jogo tem para oferecer. As atitudes mais gananciosas e desmesuradas chegam dos humanos que contracenam com o Doutor, Lucas e Ryder, nomeadamente, Viktor e Katrina. Pelo caminho ficamos a saber o que aconteceu a Charlotte, a amada do Doutor. Os caminhos originados pela ramificação nunca chegam a ser verdadeiramente explorados e caminham muito próximo uns dos outros.

A história é sofrível, contudo, o ponto mais delicado de Knack é a sua jogabilidade. Não é tão boa como queriam que fosse nem é tau má como pode parecer. A primeira impressão é que é extremamente superficial e que não evolve além do premir desenfreado dos botões de rosto do DualShock 4, contudo, o jogo oferece algumas combinações que facilmente poderão ser aprendidas e executadas. Além disso, como a câmara do jogo é fixa, o analógico direito fica livre para ser usado na evasão aos golpes adversários. Escolham a dificuldade mais baixa e o jogo é extremamente aborrecido e passível de ser concluído espremendo ao máximo o quadrado, porém, dediquem-lhe tempo e aprendam a sua dança e conseguem retirar algo do seu sistema de combate.

Importa mencionar que ao longo da aventura vão apanhando pedras solares que fazem subir medidores circulares. Sempre que encherem um poderão lançar um ataque devastador que arrasa completamente os inimigos fracos e danifica consideravelmente a energia dos mais robustos.

Sim, porque apesar da sua aparência, Knack não é um jogo fácil. Mesmo no modo de dificuldade mais acessível, alguns ataques resultam numa morte instantânea, independentemente da energia que ainda vos resta. Este tipo de acontecimentos deixa uma sensação mista: em alguns casos percebo perfeitamente que morri porque não fui astuto o suficiente, porém, outros casos são injustos e praticamente previsíveis e defensáveis. Isto ganha um contorno ainda mais frustrante quando o último ponto de controlo foi feito há vários minutos atrás, o que resultou na repetição de um trecho da aventura por diversas vezes. Estes picos de dificuldade são ocasionais, ou seja, nem sempre acompanham a progressão na história. Aconteceu-me mais que uma vez morrer várias vezes num ponto e posteriormente passar uma ou duas horas sem grandes dissabores.

Indubitavelmente, o jogo ficará conhecido pela maneira como o seu protagonista aumentou e diminuiu de tamanho ao longo do jogo. Knack tem a habilidade de aglomerar relíquias que o fazem crescer, tornando-o mais forte. Obviamente, a sua versão original é extremamente fraca e debilitada, todavia, ir reunindo os cristais e vê-lo aumentar de tamanho deixa-nos com a sensação que aquele é o resultado do nosso trabalho. O que possivelmente não saberão é que existem vários tipos de cristais. Por exemplo, em determinadas áreas do jogo recebemos cristais que o tornam invisível, ou cristais de gelo apanhados numa caverna que derretem quando somos expostos ao sol, pedaços de madeira que ardem quando chegamos perto de uma fogueira e, mais perto do final, pedaços metálicos que são sugados quando nos aproximamos de um íman. Estas condições são primariamente usadas para resolver puzzles, mas servem também para o jogo determinar com exatidão o tamanho que devemos ter para defrontar um específico grupo de inimigos, o que faz com que todos os jogadores tenham a mesma hipótese de sucesso.

Isto ajuda a diversificar a jogabilidade, apesar dos puzzles serem extremamente simples. Também simples é a progressão no jogo, recorrendo à velha receita eliminar todos os inimigos de uma divisão para desbloquear a divisão seguinte. Não há maneira de explorarmos os mapas e de passarmos mais tempo a fazer o reconhecimento de todos os cantos do cenário, simplesmente porque quase sempre todos os cantos estão à vista. Outro ponto que deixa a desejar é a quase ausência de plataformas, sendo os exemplos de maior relevo duas explorações verticais no último terço da aventura. A jogabilidade só teria a ganhar com a maior exposição do jogador a estas áreas, porque resultam invariavelmente num controlo mais técnico e aprimorado, servindo como um corte às velhas fórmulas já explicadas neste texto.

O jogo é recheado de colecionáveis. A grande diferença é que estes são necessários à evolução da vossa personagem. Dispositivos e Relíquias de Cristal são as duas secções principais. Não pensem que basta apanharem um para terem acesso à nova habilidade em questão. Por exemplo, o dispositivo Trasmutador – que liberta relíquias quando a vossa saúde estiver em baixo – é composto por seis peças diferentes. Só depois de apanharem a sua totalidade é que o poderão equipar. Existem um total de oito dispositivos, sendo que a composição de cada um poderá ir de três a sete peças. As três Relíquias de Cristal permitem desbloquear novos estados para o Knack. Por exemplo, se apanharem as quinze partes que compõe a Relíquia de Rubi, desbloqueiam o Knack Vampiro; se desbloquearem a Ametista (20 peças), ficam com o Knack Sombrio e, finalmente, a Água-Marinha (10 peças) dá direito ao Knack Frágil.

Pessoalmente, a maior diversão que obtive de Knack foi no seu multijogador. Em qualquer altura da aventura um segundo jogador pode iniciar sessão e jogar ao vosso lado, assumindo o controlo de um Knack metalizado. A PlayStation 4 que o VideoGamer Portugal recebeu não trazia um segundo DualShock 4, porém, isso não foi impedimento para partilhar a minha aventura. A PlayStation Vita serve como segundo comando quase na perfeição. Os controlos são responsivos e funcionam sem problemas, contudo, ocasionalmente o ecrã – que funciona como um segundo dispositivo, ou seja, o jogador pode jogar sem olhar para a televisão – sofreu de alguma latência, mas nada que fosse frequente ou que colocasse em causa a experiência como um todo.

Tecnicamente, o maior destaque vai para as centenas de peças que compõe Knack. Sempre que as vamos reunindo ou que as fazemos explodir num ataque especial, a consola aguenta com todo esse detalhe sem nunca mostrar abrandamento. O grafismo propriamente dito é colorido e apelativo, mostrando que um jogo pode ser bonito sem ser foto realista. À semelhança do que acontece com Killzone: Shadow Fall, também Knack está totalmente em português. A localização está bem conseguida e oferece um pormenor delicioso: a voz do Knack pequeno é completamente diferente da voz usada pelo protagonista em formato XXL. Um pormenor que chamou a minha atenção durante a conclusão da campanha principal é que, ocasionalmente, a legendagem varia ligeiramente da vocalização. Falo de exemplos como “Conversar com ele” e “Dar-lhe uma palavrinha” ou como “Vou tentar empatar” e “Vou tentar diminuir a velocidade”.

O ponto mais forte de Knack é o seu multijogador, o que no meu caso serviu para provar que o ecossistema PlayStation está de boa saúde e que a Sony está a capitalizar a integração com a sua portátil. Não é tudo o que estávamos à espera, em boa parte porque nunca chega verdadeiramente a arriscar nada fora dos cânones que foram implementados pelos jogos do género há algumas gerações atrás.

As combinações com o analógico direito ajudam a diversificar um pouco a jogabilidade, porém, não escondem que o jogo poderia ter incluído algumas variantes que só o beneficiariam. A quantidade de colecionáveis não foi pensada para ser recolhida na sua totalidade quando terminamos o jogo pela primeira vez, daí a opção de podermos começar o jogo novamente com tudo aquilo que apanhamos até então. Aliás, quando terminei o jogo pela primeira vez desbloqueei três opções novas: a possibilidade de escolher um capítulo diretamente, o Desafio por Tempo e o Ataque de Coliseu, alternativas para testar as nossas habilidades.

veredito

Knack entretém sobretudo quando partilhado mas deixa por capitalizar muitas das suas ambições.
6 Localização total em português ajuda a que os mais novos o possam desfrutar Ver cada uma das partículas que compõe Knack é um deleite visual Falta de um sentido genuíno de exploração Picos de dificuldade fora do controlo do jogador

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Knack

para PlayStation 4

Get adventurous with PlayStation 4.

Lançado originalmente:

29 November 2013