por - Sep 3, 2019

Knights and Bikes – Análise

Saído da mente de antigos elementos da Media Molecule e financiado com sucesso no Kickstarter, Knights and Bikes tem muitos pontos a seu favor, mas falta-lhe algo mais para entrar no terreno do memorável. O mesmo é dizer que estamos perante uma experiência que, mesmo sem cometer erros críticos na sua execução, carece do brilho, espetacularidade ou entusiasmo necessário para manter o jogador ligado à sua aventura do princípio ao fim.

Desde o seu arranque, o jogo da Foam Sword exuda charme e é muito por aí que capta a atenção e a boa vontade de quem o joga. No entanto, não demora muito até se perceber que falta substância a uma aventura que mesmo não sendo longa, não consegue evitar largos minutos de monotonia. Apesar de apresentar um mapa explorável de dimensões simpáticas, nota-se uma clara ausência de atividades para maximizar o tempo útil da obra, com as frequentes viagens entre ponto A e ponto B a revelarem-se um vazio com poucos pontos de interesse.

É uma pena que assim seja, especialmente quando estamos perante um título que tem no poder da imaginação um dos seus principais temas. De uma forma geral, há demasiados períodos de silêncio que não deveriam existir numa aventura protagonizada por duas jovens raparigas extrovertidas. Existem situações em que o jogo sobrepõe leves desenhos sob o cenário que representam aquilo que as jovens fazem de conta existir no local em que se encontram, mas são raros os momentos em que isso é utilizado para sedimentar as personagens ou enriquecer a aventura.

Nesse sentido, é difícil não ficar ligeiramente desapontado com o título de estreia da Foam Sword, pois fica a sensação que o seu conceito e as suas ideias não são aproveitadas ao máximo. O charme pode ser imenso, mas isso não é suficiente para suportar uma aventura por si só, isto é, sem ser acompanhada por uma narrativa cativante e uma jogabilidade recompensadora. Infelizmente, Knights and Bikes é demasiado simplista ao nível das mecânicas para dar maior riqueza à experiência.

A comparação mais fácil de se fazer é com as obras LEGO da TT Games, uma vez que também aqui temos mais do que uma personagem jogável, cada uma delas munida com um arsenal de equipamentos distintos que terão depois de ser utilizados não só em segmentos de combate pouco exigentes, como na resolução de puzzles. A exigência nunca é muita e, quando jogado a solo, a Inteligência Artificial trata muitas vezes de colocar imediatamente a respetiva personagem a resolver o obstáculo à progressão sem a ação do jogador.

Não querendo abusar desta comparação, também Knights and Bikes se apresenta como uma experiência passível de ser desfrutada por miúdos e graúdos, ainda que as diferentes faixas etárias retirem maior proveito de distintos elementos da aventura. A simplicidade de processos significa que a barreira de entrada para qualquer jogador é praticamente inexistente, mas significa também que é uma aventura que saberá a pouco para aqueles que procuram algo mais substancial.

Como já foi referido, o título utiliza a imaginação como um dos seus instrumentos narrativos, o que não demora muito a levantar dúvidas nos jogadores em relação à veracidade daquilo que se vai desenrolando no ecrã. Aliás, esse é um dos principais méritos desta aventura, a forma como joga com a imaginação fértil das protagonistas, alternando entre o que é claramente produto dessa mesma imaginação e aquilo que poderá ou não ser. A resposta surge no final, momento em que a narrativa se eleva e a sua mensagem louvável é entregue de forma extremamente eficaz.

Em Knights and Bikes acompanhamos a história de Demelza, uma jovem que vive sozinha com o pai numa ilha cada vez mais deserta fora do período de atividade turística. Numa das mais recentes entregas de mercadoria, outra jovem, Nessa, chega à ilha de forma infiltrada e acaba por encontrar em Demelza um abrigo e uma aliada. Depois de ficarem conscientes das dificuldades financeiras por que passa o seu pai, a filha e a nova amiga partem em busca de uma lenda que dá conta de um tesouro escondido na ilha e da maldição que o protege.

Não é uma narrativa pródiga em voltas e reviravoltas inesperadas, mas também não precisava de ser. Precisava, isso sim, de ser capaz de capturar a magia de uma infância na qual a imaginação reina de forma suprema, numa época ainda longe do domínio tecnológico, e isso é de facto conseguido com distinção. Lamenta-se apenas que a história não tenha uma presença mais assídua ao longo da aventura, sobretudo ao nível das interações entre o duo de protagonistas, algo que poderia ajudar a minimizar os já mencionados momentos de vazio que se verificam durante a viagem entre os diferentes locais da ilha.

No âmbito do departamento técnico, é fácil perceber pelas imagens que acompanham este texto que estamos perante um título com um estilo visual bastante apurado. Com cenários e personagens que parecem feitos a partir de recortes de papel, a obra faz uma utilização inteligente das cores para dar vida e personalidade aos locais da ilha, entregando inúmeros ambientes de excelsa beleza. A banda sonora é competente na forma como acompanha a aventura, mas nunca assume um plano de maior destaque.

Knights and Bikes é assim uma oferta interessante sobretudo para sessões de jogo cooperativas. A sua jogabilidade carece de uma maior profundidade capaz de lhe dar mais motivos de interesse e a exploração da ilha tem demasiados momentos em que nada acontece, mas o seu charme e a mensagem no cerne da sua narrativa compensam um pouco os seus elementos menos inspirados. Ainda assim, a obra da Foam Sword não é tão especial como talvez pudesse ter sido.

veredito

Knights and Bikes é uma aventura repleta de charme que nos faz regressar a uma infância dominada pela imaginação. Contudo, há demasiados momentos monótonos e poucos segmentos memoráveis.
6 Aventura charmosa. Mensagem louvável. Jogabilidade simplista. Muito tempo morto.

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Knights and Bikes

para PC, PlayStation 4

Lançado originalmente:

01 January 2017