Não escondo. Tenho um carinho especial por L.A. Noire desde que o joguei pela primeira vez no já longínquo ano de 2011. Mesmo sem nunca tapar os olhos em relação aos seus problemas, que são vários, o título da defunta Team Bondi publicado pela Rockstar entregou algo de verdadeiramente diferente, uma experiência capaz de transformar o jogador num detetive sem o guiar sempre pelo caminho correcto, uma obra num género explorado até à exaustão em filmes e séries de televisão, mas frequentemente ignorado nos videojogos.

LA Noire Imagens Analise

Agarrado desde então à esperança de que uma sequela se viesse, a dada altura, a materializar, foi com surpresa e agrado que recebi a notícia do seu relançamento nas consolas da atual geração e de uma adaptação aos dispositivos de realidade virtual. Apesar de não acreditar que esta decisão tenha nascido de uma vontade de perceber o real interesse da audiência num hipotético sucessor, pelo menos isto significaria que uma nova geração de jogadores teria oportunidade de experienciar a aventura protagonizada por Cole Phelps e o seu trajeto pelas várias divisões da LAPD.

Dito isto, jogar L.A. Noire novamente em 2017 não tem o mesmo impacto daquele primeiro interrogatório, daquela primeira detenção. Não, jogar L.A. Noire seis anos após o lançamento original é colocar a nu todos os seus defeitos e imperfeições, tudo aquilo que na primeira estadia na Cidade dos Anjos eram apenas pequenas inconveniências e frustrações. Isto não significa que não continue a haver aqui muito para apreciar e valorizar, significa sim que a passagem do tempo não foi propriamente simpática para a obra e que a memória pode ser por vezes traiçoeira.

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Aliás, já aquando da sua estreia no mercado, este título destacou-se pela receção mista que despoletou junto da crítica especializada e percebe-se facilmente porquê. Para tudo aquilo que L.A. Noire faz de bem, existe algo que faz igualmente mal. Para todos os momentos em que nos captura por completo a atenção, existem outros que nos coloca num estado de total aborrecimento. Acima de tudo, a obra da Team Bondi é incrivelmente inconsistente, alternando entre o melhor e o pior com uma frequência admirável.

L.A. Noire está no seu melhor quando nos coloca a fazer o trabalho de detetive, quando estamos a procurar pistas com o auxílio da banda sonora e quando utilizamos a informação à nossa disposição juntamente com a ainda excelente tecnologia de captura de movimentos faciais para interrogar as pessoas de interesse para o caso em questão. 

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Sim, alguns mentirosos não têm grande jeito para a coisa, mas saber que provas temos para os contrariar ou quando é necessário um pulso mais firme na conversa para obter a informação necessária envolve uma real habilidade por parte do jogador. De notar que as opções Truth, Doubt e Lie foram substituídos por Good Cop, Bad Cop e Accuse para melhor representarem as ações de Cole, evitando assim aqueles momentos inesperados em que o protagonista decide ser agressivo do nada com o suspeito, ou melhor, eles continuam lá, deixam é de ser inesperados.

Claro que a ilusão é um pouco quebrada quando temos um desempenho fraco nos interrogatórios e mesmo assim os casos são sempre concluídos com sucesso, mas o jogo faz um bom trabalho em provocar em nós um sentimento de gratificação quando temos uma performance imaculada, sendo que o inverso também é verdade. No fundo, o principal mérito da obra é a forma como nos faz sentir verdadeiros detetives, os únicos capazes de resolver o enigma em questão, como a pessoa mais inteligente na sala.

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Tudo isto está assente numa narrativa que, embora evolua de forma bastante lenta, nos mantém interessados. Com performances de qualidade de um elenco de luxo recheados de caras bem conhecidas do público, a aventura de Cole Phelps, veterano e herói de guerra transformado em protetor da sociedade, não se escusa a mostrar-nos o que de pior a humanidade tem para oferecer, a escumalha que opera na escuridão da noite, a complacência das forças policiais e toda a xenofobia associada ao período histórico em que nos encontramos.

A Los Angeles dos anos 40 é um local cheio de vida e fielmente recriado nesta impressionante obra lançada na anterior geração de consolas. A cinemática de abertura permanece excelente e serve como um espelho para tudo aquilo que vamos experienciar nas várias horas que se seguirão, um vislumbre do lado escondido do Sonho Americano. Cole, o nosso protagonista, ajuda também a cimentar esta visão da cidade. Sim, é um veterano de guerra, mas está longe de ser o protótipo protagonista afável e respeitável, algo que é evidente na forma como é frequentemente tratado por aqueles com quem interage.

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Infelizmente, não é só de investigação, interrogatórios e cinemáticas narrativas de que se faz L.A. Noire e é por isso mesmo não este atinge os píncaros que tinha potencial para atingir. Os tiroteios são pouco entusiasmantes e pouco fluídos, com a entrada, saída e transição entre coberturas a ser robótica e pouco funcional, a condução idem aspas e as perseguições aos fugitivos têm um scripting tão óbvio que torna bastante evidente que estamos a seguir um caminho pré-determinado. O combate corpo-a-corpo também não é propriamente brilhante.

Basicamente, o título falha em praticamente todos os departamentos da jogabilidade que não estejam relacionados com o trabalho de detetive e, tendo em conta, que todo o conteúdo secundário da obra está assente em variações de tudo aquilo que mencionei no parágrafo anterior, percebe-se facilmente que uma parte demasiado significativa da obra simplesmente não é divertida de se jogar. Esse é o maior crime cometido por este jogo: a forma como é incapaz de se manter num nível constante de qualidade e entretenimento.

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E se estão a pensar que o problema pode ser evitado seguindo apenas as missões principais, desenganem-se. Também aí a obra tropeça ao fazer uma péssima gestão do seu ritmo, arrastando-se demasiado tempo, progredindo a uma velocidade de caracol que torna tudo muito mais aborrecido do que tem de ser. L.A. Noire torna-se facilmente numa experiência cansativa quando jogada durante horas a fio, pelo que a possibilidade de utilizar a portabilidade da Nintendo Switch para sessões mais curtas torna-se bastante apelativa.

Testado na consola da Nintendo, o título denota algumas concessões na qualidade visual do grafismo comparativamente às versões rivais. Claramente mais poderoso quando jogado através de uma televisão e, apesar da melhoria de algumas texturas e da modelagem das personagens, estamos perante um jogo que, embora ainda esteticamente agradável, revela facilmente a sua idade. A framerate soluça em alguns momentos, mas nada que perturbe a jogabilidade. Ainda assim, importa mencionar que os Joy-Con intensificam ainda mais os problemas nos tiroteios e na condução devido à sua precisão questionável.

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Sem os óculos da nostalgia e sem a magia da primeira vez para se apoiar, L.A. Noire acaba vítima das suas muitas vulnerabilidades. Continuo a recomendá-lo a quem nunca o jogou e continuarei a desejar uma sequela que capitalize o verdadeiro potencial do conceito aqui explorado, mas seria insidioso da minha parte ignorar os problemas bem reais deste título. Assim, termino esta análise dizendo que L.A. Noire foi uma obra que adorei jogar pela primeira vez, mas detestei jogar uma segunda vez.