Apesar da sua inquestionável qualidade, as obras recentes da Crystal Dynamics têm dividido os fãs de longa data da série protagonizada por Lara Croft. Não pela sua qualidade ou falta dela, mas sim pela escassa presença dos elementos que tornaram a série popular durante os seus humildes princípios na original PlayStation. Os spin-offs de Lara Croft - Guardian of Light e Temple of Osiris - tentaram oferecer uma experiência mais próxima daquela pela qual a série se celebrizou, contudo, percebia-se facilmente que nenhuma delas tinha como suporte uma equipa de grandes dimensões ou um elevado orçamento de produção.

Lara Croft GO também não é, certamente, a resposta às preces destes fãs insatisfeitos, mas é uma experiência que coloca no centro de todas as atenções um dos elementos a que mais se aponta o dedo a Tomb Raider e Rise of the Tomb Raider: os puzzles. Depois do sucesso encontrado por Hitman GO tanto nas plataformas móveis, como na sua chegada no início do ano à PlayStation 4 e PlayStation Vita, agora é a vez da obra inspirada numa das mais reconhecidas séries da indústria dos videojogos dar também o salto do  iOS e do Android para as plataformas da Sony.

Imagens Lara Croft GO Analise

Tal como o nome indica, Lara Croft GO aplica a fórmula utilizada em Hitman GO ao universo de Tomb Raider, ou seja, a jogabilidade assenta em curtos níveis, cada um deles com um ou mais quebra-cabeças, no qual o jogador se movimentará através de uma grelha pré-definida de posições, tentando chegar ao seu destino sem sentir o frio beijo da morte. Significa isto que terão de ultrapassar armadilhas, alçapões, vários tipos de inimigos, utilizar as emblemáticas pistolas de Lara, fogo e luzes refletoras para chegarem até ao final do nível e ficarem um pouco mais perto da tão desejada relíquia que vos trouxe até estes locais inóspitos.

Pelo meio terão também de evitar lâminas mecânicas bem afiadas e descobrir como utilizar pilares presentes no cenário e até os próprios padrões de movimentos dos diferentes inimigos para acederem a plataformas que mudam de posição com a ativação através do peso aplicado em determinados locais. Como é óbvio, sempre que se movimentarem pela grelha, também o cenário se vai alterando, sejam os crocodilos que vos perseguem após vos avistarem pela primeira vez, pedras rolantes de grandes dimensões ou as já mencionadas lâminas. Ultrapassar com sucesso um nível passa por saber analisar e prever as alterações no cenário após o vosso próximo movimento de forma a conseguirem as condições ideias para a sua conclusão.

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Quando analisei Hitman GO, comparei-o a um jogo de tabuleiro. Tal comparação continua a ser válida em Lara Croft GO. O título da Square Enix pode não necessitar da habilidade e capacidade de antecipação apresentada pelos jogadores de Xadrez, mas pede aos jogadores que pensem e analisem a situação antes de agir até porque, em muitos dos níveis, o mais pequeno passo em falso pode retirar-vos imediatamente a possibilidade de o concluírem. Felizmente, o jogo percebe que o processo de tentativa e erro será um elemento importante da experiência e opta inteligentemente por recorrer a níveis de curta duração ou, em alguns casos, à utilização de checkpoints, pelo que o vosso fracasso e experimentação nunca é castigado por uma perda significativa de progresso.

Com uma curva de dificuldade suave ao longo de toda a aventura e uma introdução esporádica de novos elementos aos quais o jogador se terá de adaptar, a obra protagonizada por Lara Croft é, de uma forma geral, bastante mais acessível do que a do seu antecessor. Se bem se lembram - principalmente se tiverem perseguido o elusivo Troféu Platina -, os níveis de Hitman GO tinham uma dificuldade acrescida proveniente dos desafios opcionais que vos incentivavam a concluí-los respeitando determinadas regras. Esse sistema não existe nesta obra, sendo os colecionáveis escondidos - uns melhores que outros - no cenário os principais responsáveis para motivar o jogador a regressar a níveis já concluídos.

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Se o conteúdo original de Lara Croft GO se revelar demasiado soft para a vossa atividade sináptica, as versões PlayStation 4 e PlayStation Vita prometem colocar-vos verdadeiramente à prova através das expansões The Cave of Fire e Mirror of Spirits. Não só contam com quebra-cabeças que requerem um período mais extenso de tempo para serem decifrados e executados com sucesso, como introduzem novos elementos, entre os quais estão pilares com fontes de luz que controlam determinadas plataformas e também variações dos inimigos do jogo que regeneram após alguns movimentos. 

Basta dizer que demorei quase tanto tempo a concluir cada uma das expansões como o tempo que precisei para concluir todos os capítulos da aventura original. Não será nada demais para os jogadores que se deram ao trabalho de concluir os níveis de Hitman no menor número de movimentos possíveis, mas será um aumento de dificuldade notório para os que estavam à espera de mais desafios semelhantes ao que tinha sido proporcionados pelos níveis originais da obra.

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Tecnicamente, Lara Croft GO brilha tanto através de uma banda sonora extremamente atmosférica, como através de um estilo visual bastante apelativo que cativa o jogador através de cenários que, mesmo não sendo tão variados assim, oferecem planos de fundo repletos de cor e detalhe. Notam-se claros progressos relativamente a Hitman GO, seja nas animações de Lara ou na forma como é possível ver, em alguns níveis, criaturas que não fazem parte do nível a percorrer o ecrã - e não, não me estou só a referir à serpente gigante -. 

Contudo, é importante salientar que a framerate soluça com frequência na PS4 e na PS Vita, algo que embora não afete a jogabilidade, não deixa de ser incomodativo, e que os ecrãs de carregamento na portátil da Sony são demasiado longos para uma obra que assenta que nem uma luva na plataforma e na qual terão de recomeçar níveis por diversas vezes.

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Em suma, a adaptação de Tomb Raider à fórmula GO da Square Enix Montreal é mais um caso de sucesso depois do bastante bom Hitman GO. Os níveis originais são incrivelmente satisfatórios, mas mais acessíveis do que muitos desejariam. A produtora respondeu a isso lançando duas expansões que não demorarão muito até vos fazerem arrancar cabelos, mas sem nunca perder a noção daquilo que torna estas obras tão apelativas. Os soluços técnicos e os longos ecrãs de carregamento, sobretudo na PlayStation Vita, são um problema contrabalançado por um excelente estilo visual que acompanha toda a obra.