A arte está por todo o lado neste casarão de "mil janelas cegas", como descreveu Ginsberg os olhos de Moloc. Piano, incontáveis quadros, livros pelo chão. As velas e a lareira dão tons quentes ao sumptuoso, a escuridão desolação ao resto. A noite é chuvosa e conhecemos de ouvido a trovoada e o vento. Layers of Fear almeja o desconforto, a feroz experiência do susto.
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Somos um pintor a perseguir a sua obra-prima, vivemos a sua personalidade pérfida. Além da arte, há também garrafas espalhadas pela casa, indícios de alumiações. Os contornos da personalidade são ambíguos, ajustam-se, mas transversal ao perfil que vamos gizando está a instabilidade psicológica e emocional; uma espiral que nos leva a jogar com alguém complexo, volátil, só, que vai quebrando amarras com a realidade.
No centro do estúdio salpicado a tinta verde, amarela e encarnada temos um cavalete que exibe uma tela praticamente em branco. É aqui que será pintada a obra-prima e, para tal, temos que deambular pela solidão da casa e do protagonista, procurando certos itens que farão a pintura avançar e aparecer diante dos nossos olhos enquanto contemplamos o que poderá ser.
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Os itens não são convencionais e revelá-los poderia estragar a surpresa a quem ainda se vai aventurar pelos círculos desta tortura criativa; porém, para terem um vislumbre da sua natureza, basta desvendar que um deles é um dedo. Durante estas três horas e meia à procura dos meios e indagando se justificarão o fim, fica clara a vontade da Bloober Team, produtora polaca que assina Layers of Fear, de que ninguém navegue com a água pela cintura, apenas com a boca perto da superfície, soerguendo o pescoço no sofá à procura de um pouco de oxigénio para continuar a descer, a descer, até que o protagonista bata no fundo.
Todavia, a execução fica consideravelmente aquém da intenção. Enquanto patrulhamos a casa raramente nos sentimos com as costas contra a parede. Parte poderá ser atribuída à mecânica básica de procurar chaves para abrir portas e desbloquear o caminho, prosseguindo até encontrar o escasso puzzle e não ter grandes dificuldades em conquistá-lo. Raramente há superação ou a sensação de que estamos em sintonia com a produtora, como se cantássemos em uníssono o refrão da obra.
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Os cenários não são estanques, ou seja, há uma transfiguração das divisões à nossa passagem, um jogo de ilusões que mostra que a porta que está lá à nossa entrada pode ser uma parede à tentativa de saída, por exemplo. É uma forma relativamente eficaz de ilustrar a alucinação e a paranoia de um indivíduo preso num local sem planta definida.
Como jogo de terror, há alguns processos que funcionam e outros que falham completamente. É quando envereda pelo caminho do cliché e do susto fácil, leia-se o surgir de algo a um palmo da câmara, objetos que se movem sozinhos ou a aparição de figuras fantasmagóricas, que Layers of Fear se torna uma experiência decalcada de tantas outras já publicadas. Felizmente, há alguns momentos em que o terror é psicológico através da tensão e da deturpação da realidade.
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A produtora foi inteligente a escolher o tema, pois há um encantamento próprio e altamente eficaz na manipulação dos quadros, seja, por exemplo, sobrepondo vários rostos, seja no grotesco, seja até na edificação da personalidade agreste do protagonista, elucidando o jogador da sua figura austera com quem o rodeou, com quem foi matéria da sua arte e, sobretudo, com ele próprio, perfeccionista cronicamente insatisfeito à procura de elevar o seu talento.
Apesar de o final ser eficaz a explicar o que andámos a fazer durante as últimas horas, rematando com uma cena que não deverá deixar ninguém com dúvidas e que provavelmente fará alguns estremecer apenas com a metáfora da prisão perpétua da mente, fica a vontade de que a personagem fosse mais aprofundada. O jogo apresenta um caminho espinhoso ao jogador, fazendo-o caminhar pelo vale da insanidade, e não é justo que alguns parâmetros permaneçam insondáveis.
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O tema da pintura presta-se também a alimentar o que refulge de Layers of Fear: o departamento gráfico. Algumas texturas são desenxabidas, mas a ilustração da alucinação por meio da pintura é carte blanche à criatividade da produtora. Desde rastos de tinta que fazem lembrar a capa de The King of Limbs, passando pelas já mencionadas mutações dos quadros, a uma parte da casa em escombros onde o sentido da orientação é manipulado, ou a uma cena que decorre no quarto de criança em que o sombrio dá lugar à iluminação, apenas para que o choque seja maior.
Na sonoplastia há a ocasional voz rouca do protagonista um pouco menos urgente do que a assombração sugere, Frank Crumit a ecoar pela mansão, o canto ao fundo que torna o chamamento e o embalo densos, os sons estridentes que nos relembram permanentemente do género em que se enquadra a obra.
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Escusados os excessos, fica o pavor da senilidade e o que se pode cometer em seu nome como a nata do que propõe Layers of Fear. Porém, a produtora não resistiu à tentação de adornar a crueldade desse sentimento com o que pensava tornar o jogo mais assustador e temível, algo que não resultou, fazendo-o resvalar e cair em ocasionais clichés do género. Há a arte, a sua decomposição e manipulação, a contemplação do grotesco nascido seda.

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