Há umas noites atrás, vi num programa sobre investimento e negócios, um gestor dizer que "não vale a pena entrar no negócio dos brinquedos, a LEGO esmaga a concorrência". E é verdade. Apesar de existirem algumas alternativas como a Playmobil ou a Meccano, pensar em blocos de construção, é pensar em LEGO. Face a tamanho sucesso, não foi de estranhar quando a empresa dinamarquesa resolveu expandir a sua marca para novos mercados e muito menos quando essa expansão chegou à indústria dos videojogos.

Até ao dia de hoje já foram produzidos cerca de quarenta e cinco videojogos baseados nos vários universos LEGO, porém, os mais populares são aqueles baseados em universos populares, entre outros estão a Guerra das Estrelas, Batman, Harry Potter ou O Senhor dos Anéis. Também entregue à produtora que concebeu todos os exemplos mencionados, LEGO City Undercover não precisa de se alicerçar em nomes pomposos, apenas precisa de se inspirar no universo que lhe dá nome, o universo LEGO.

City Undercover é, ao lado de Monster Hunter 3 Ultimate, o lançamento mais esperado desde que a Nintendo Wii U foi lançada, portanto, não é surpresa nenhuma que os jogadores da plataforma anseiem este exclusivo como pão para a boca.

A história de Undercover coloca o jogador na pele de Chase McCain, um polícia que inicia o jogo a regressar a LEGO City, a sua cidade. Como em quase todas as histórias centradas num polícia, também aqui o objetivo é ir atrás de um criminoso, papel entregue a Rex Fury. Contudo, não é preciso avançar muito na trama para perceber que além da perseguição ao evadido, existe também um interesse amoroso a colorir a aventura. Apesar de já termos assistido a este argumento inúmeras vezes, Undercover tem o jogador quase sempre onde quer. Em vez de entregar tudo de bandeja nas primeiras horas de jogo, vai alimentando quem está atrás do Gamepad com pequenos desenvolvimentos que asseguram o regresso a LEGO City até os

créditos finais aparecerem no ecrã.

Todos os jogos LEGO entregues pela Traveller's Tales têm um denominador comum: o humor. Já sabíamos à partida que este jogo não ia ser exceção, mas não sabíamos que iria ser um dos pontos altos do jogo. Desde as tiradas do acompanhante pateta às várias referências espalhadas pela cidade, é impossível passar mais de uma hora com o jogo sem esboçar um sorriso. Não se pode pensar em City Undercover como um jogo para crianças, o seu humor inteligente e refinado irá fazer as delícias dos jogadores mais velhos e com uma cultura geral mais abrangente.

Quase todas as personagens, desde McCain a Fury, passando por todos os papéis secundários que os rodeiam, são carismáticas. É certo que nem todas têm o mesmo grau de encantamento e algumas depressa caem em exageros, contudo, fica a ideia que todas foram inspiradas por criações que já apareceram no cinema ou em séries televisivas. E ao sentimento de "já vi isto em algum lado", cedo se vai juntar a curiosidade de perceber quem foi inspirado em quem e, em casos mais agudos, o IMDB vai ser utilizado.

Se até aqui tudo é ouro sobre azul, as mecânicas que o jogo oferece e as estruturas das missões são os primeiros pontos em que o jogo vacila. A unir todas as missões do jogo está um mundo aberto bastante interessante. É certo que não é um colosso ao quadrado, mas ainda assim oferece áreas exploráveis bastante dispares entre si.

O problema não é área de jogo ser demasiada pequena, o problema é que as missões que nela decorrem são parcas em originalidade. Sente-se que a produtora não arriscou nos objetivos, colocando o jogador num padrão que cedo se torna previsível. Existem algumas exceções, como por exemplo andarem a apanhar uma vara de porcos em fuga, mas cedo voltámos a perseguir pessoas ou objetos. Outro ponto que deixa algo a desejar são as mecânicas de jogo, mais especificamente as lutas e as secções de plataformas. A juntar-se a um combate superficial em que praticamente apenas dois botões são utilizados, estão plataformas em que o jogo faz quase tudo por vocês. Estes dois pontos levam-nos a outro ponto menos conseguido: o jogo é demasiado fácil e nunca oferece um desafio digno desse nome.

Como nos outros jogos LEGO já referidos, também City Undercover recompensa o avançar da história com novos fatos. Desde bombeiro a astronauta, passando por agricultor ou ladrão, estes novos fatos desbloqueiam áreas até então inacessíveis. A norma é desbloquearem determinado fato, usá-lo na missão em que ele é oferecido e depois aceder-lhe com um toque nos gatilhos do Gamepad e usarem-nos para explorarem as áreas em que ele garante acesso. Apesar de parecer frustrante, é um bom impulso para revisitarem áreas da cidade e ajuda a que a exploração nunca tenha término, portanto, é justo afirmar que vão passar muito mais horas com o jogo depois de terem concluído as tarefas principais destinadas a McCain.

Quando terminarem a história principal, estão muito longe de terem esgotado a vida útil do jogo. Aliás, é muito provável que terminem o jogo com menos de metade do jogo concluído. Agora à vossa frente têm a cidade para explorar, inúmeros segredos para descobrir e outras tantas peças colecionáveis, para completarem o jogo a 100% vão precisar de várias dezenas de horas. Tal como já disse, a área de jogo oferece uma diversidade bastante interessante, evitando que a exploração se torne maçadora e um frete. E quando estiverem cansados de andar de carro, por esta altura já têm helicópteros, ferrys, barcos, enfim, vários meios de locomoção desbloqueados, portanto, têm várias alternativas para passarem a cidade a pente

fino.

O vosso companheiro de aventura é o Gamepad e a sua utilização é bastante interessante. É certo que 90% das vezes que olharem para o comando será para consultar o mapa, porém, as personagens usam-no para comunicarem com vocês durante o jogo, mas é também através dele que pesquisam as fontes de ruido para ouvirem as conversas, ou o melhor ângulo para tirarem fotografias que posteriormente podem ser publicadas no Miiverse. Apesar de cumprir com o que lhe é pedido e de ser um bom complemento à jogabilidade, não há nada que possa ser feito apenas através dele.

City Undercover é um jogo bonito. A juntar-se a todos os detalhes em LEGO temos texturas que não envergonham nenhum jogo do género. As áreas florestais e as ilhas que mais tarde exploram estão bastante detalhadas e as áreas interiores onde se desenrolam uma boa parte das missões estão ao nível dos outros jogos LEGO, ou seja, está a par do que foi visto na Xbox 360 ou na PlayStation 3. Curiosamente, é nas passagens entre a cidade propriamente dita e estas áreas que está o maior problema técnico do jogo: os tempos de carregamento. Sempre que é necessário carregar uma área "à parte", preparem-se para ficarem a conhecer muito bem a barra de progressão. Apesar de não acontecerem muito frequentemente, arruínam o ritmo de jogo e a paciência de qualquer um.

Falar do capítulo sonoro é falar obrigatoriamente do excelente trabalho de localização feito pela Nintendo. O jogo está totalmente vocalizado e legendando em português. O trabalho feito é bastante sólido e percebe-se que a produtora recorreu a um casting de vozes reconhecíveis das séries de animação que passam ou passaram na televisão portuguesa. À semelhança do que aconteceu em Luigi's Mansion 2, o humor não se perdeu nas traduções e é notável o esforço dado para que as personagens da zona rural tivessem um sotaque diferente das citadinas. É verdade que alguns destes sotaques podem soar um pouco a cliché - sotaques das beiras e alentejano -

todavia, de uma maneira geral, é uma localização que não envergonha ninguém.

LEGO City Undercover é uma boa entrada no catálogo da Nintendo Wii U. Existem algumas particularidades para as quais não arranjamos explicação, nomeadamente os tempos de carregamento penosos e a ausência de uma componente multijogador cooperativa, porém, a cidade é interessante e a exploração é motivada por um sentido de progressão quase sempre presente. É pena que as missões não sejam mais variadas e que o sistema de combate não seja mais profundo, mas é seguro que vão passar umas dezenas de horas bem interessantes em LEGO City.