LEGO é um punhado de saudades da minha infância. Mesmo competindo com a posse das minhas primeiras consolas e Spectrum, sempre que vejo o logótipo da marca dinamarquesa, como o cão de Pavlov, recordo-me imediatamente das tardes de Natal e de aniversário passadas debruçado sobre uma mesa que na altura me dava uma vista idêntica à de um mapa-múndi e de toda a família reunida a ajudar-me a construir alguns modelos cujas peças ainda devem jogar às escondidas com os meus pais. Inicialmente o meu papel era terciário na sua edificação, limitando-me a perceber que peça encaixava em cada secção, porém, com a passagem dos anos fui assumindo as rédeas arquitetónicas das oferendas, culminando na minha total independência na sua construção. Seja como for, LEGO acompanhou o meu crescimento e o meu crescimento regeu-se pela fabricação destas memórias intemporais.

Este curso tirado na faculdade de Billund permite-me olhar para os videojogos baseados no brinquedo mais popular do mundo com a destreza necessária para me deixar envolver pela sua magia sem nunca ignorar as suas falhas tantas vezes escondidas nos escombros do deslumbramento. A mais recente iteração da série abrange os super-heróis da Marvel e prova ser uma das mais sólidas da saga, demonstrando a sua maturidade e segurança para deleite dos fãs e admiradores dos dois mundos que aqui têm uma colisão amigável.

O arco narrativo arranca quando Silver Surfer tem um acidente ao tentar aterrar na Terra. Os heróis da casa de Stan Lee querem recuperar os pedaços da prancha para a consertarem. Porém, não são os únicos interessados. Uma aliança de vilões que trabalha para Doctor Doom e Loki querem deitar a mão aos blocos cósmicos para construírem uma arma devastadora. Curiosamente, estes blocos são feitos do material da prancha do Silver Surfer. Nada disto é uma coincidência e serve perfeitamente o propósito de albergar o maior número possível de personagens dentro de uma única membrana narrativa. Não demora muito a que o jogador mais devoto ou os participantes casuais sintonizem a sua atenção noutros pontos de interesse, todavia, a narrativa é sempre pautada por cenas de vídeo bem trabalhadas que nos relembram que há uma causa a defender e uma desgraça a evitar.

O primeiro ponto do jogo que impressiona é a lista de personagens incluídas. Seria bastante fácil à produtora dar a ideia de grandiosidade de escolha incluindo todas as personagens principais, porém, a Traveller's Tales foi mais longe e devotou a sua produção, não só aos rostos mais conhecidos, como também a heróis obscuros que muitos vão conhecer aqui pela primeira vez. Os Vingadores, X-Men, Quarteto Fantástico, Homem Aranha, enfim, o número total rondará a centena e meia de personalidades jogáveis, transformando LEGO Marvel Super Heroes numa enciclopédia jogável, uma feira de vaidades que, graças às habilidades únicas de alguns dos eleitos, diversifica também a jogabilidade, um dos pontos mais fracos das entradas anteriores.

O cerne da mecânica de jogo permanece idêntico, ou seja, começam num ponto do cenário e têm que chegar ao seu final destruindo quase tudo o que o compõe e as peças em que se esvai. Pelo caminho existirão alguns puzzles que requerem a habilidade exclusiva de uma personagem em particular. Seja o Homem Aranha para lançar uma teia e puxar parte do cenário, a força do Hulk para destruir algo que esteja a obstruir a progressão ou a elasticidade do Mister Fantastic. Se estiverem a jogar sozinhos, a troca de personagem está à distância de um botão - no caso da PlayStation 3, a versão testada, é o triângulo - e é sempre interessante descortinar e desconstruir os puzzles, tentando perceber qual foi a lógica usada pelos produtores. Infelizmente, continuo à espera de cadeias de raciocínio mais complexas e desafiantes. Como é apanágio na série, a dificuldade é praticamente inexistente, o que poderá maçar os jogadores mais competitivos. Sim, o encanto do jogo não está em encontros com bosses que nos façam lembrar Demon's Souls, porém, perceber o padrão dos seus ataques é algo quase instantâneo.

Por falar em bosses, são vários os vilões incluídos no jogo. Desde Sandman a Venom - que me fez lembrar a desastrosa performance de Topher Grace em Homem Aranha 3 - passando por Doctor Octopus ou Dr. Doom. Na maior parte destes encontros, o ensamble depende também muito do cenário em que decorrem, quase sempre atirando para a reconstrução do local onde decorreram originalmente. A verdade é que a sua conjugação resulta, combalindo o jogador com uma viagem pela faixa da nostalgia. Seja em pensamento ou em voz alta, é fácil exclamar que nos lembramos desta situação, que nos relacionamos de alguma maneira com controlar os desígnios do que já tínhamos assistido como espetadores.

Rematando a jogabilidade, além das habilidades únicas de algumas das personagens, a sucessão de inimigos convida a que o jogador enganche combinações e experimente ataques que não sejam viciados no pressionar crónico de um único botão. Contudo, nem sempre é possível explorar a nossa veia artística e aprofundar a lista de combinações. Quando isso acontece, recaímos em mecânicas antiquadas e repetitivas que fazem adormecer o cérebro e deterioram o espetáculo no ecrã. Felizmente, essas situações são agora mais esparsas, beneficiando os sentidos dos jogadores e o seu estado alerta para absorver as inúmeras referências. Numa nota breve, importa mencionar que o humor continua a ser uma das marcas de proa, corrosivo quanto baste e quase nunca recorrendo a golpes baixos. Os mais jovens vão apreciar a comédia mais física, enquanto os veteranos vão apanhar as pequenas nuances que foram ali colocadas quase para que apenas alguns as percebessem.

Enquanto a maioria das missões decorrem numa determinada localização, entre elas têm a cidade de Nova Iorque para ser explorada em mundo aberto. A área de jogo é bastante generosa e detalha, oferecendo aos jogadores a possibilidade de passearem por quase todos ex-libris da Metrópole. Não demorou muito tempo a vaguear pelas ruas da "Grande Maçã" para me lembrar de LEGO City Undercover, o exclusivo Nintendo Wii U. Ironicamente, o mundo aberto do jogo denota um dos seus pontos mais frustrantes: o voo. Pegando em Iron Man como exemplo, é quase impossível fazer com que a personagem assuma a rota definida, promovendo a frustração de termos que percorrer trechos do voo ziguezagueando em redor da rota que queríamos que a personagem cumprisse. Existem outras situações mais secundárias que também têm a sua dose de frustração. Por exemplo, colocar poças com um material viscoso negro num cenário escuro. Sempre que a personagem passava por essa área, o jogador tinha que pressionar repetidamente um botão. A minha solução foi trocar de personagem sempre que isso acontecia, fazendo com que a Inteligência Artificial socorresse o herói, porém, é um exemplo de um design que poderia ter sido facilmente contornado.

Existem dois pontos sobre esta série de jogos que, por esta altura, são factos: primeiro, a diversão aumenta se não forem gananciosos e partilharem o vosso jogo com outro jogador de carne e osso. As piadas têm mais piada, as quedas do cenário são mais hilariantes, as referências são descobertas a dois - momento a que se segue a paragem no jogo e meia hora a discutir o que está a ser referenciado e, em alguns casos, uma visita à Internet para confirmar quem tem razão - enfim, o factor humano exponencia a diversão extraída do jogo. O segundo facto é que quando virem os créditos finais não vão ter conseguido completar o jogo a 100%, o que leva à inevitável visita ao modo "Free Play", onde poderão revisitar os cenários de jogo com novas personagens e consequentes habilidades.

Logo no início do jogo defrontamos Sandman, o que fornece um dos pontos mais altos do grafismo do jogo. Com milhares de partículas a inundar o cenário de jogo, o primeiro pensamento que tive foi Knack, o exclusivo PlayStation 4. LEGO Marvel Super Heroes aguenta com tudo o que é atirado ao ecrã nesse momento, apenas para revelar algumas fragilidades técnicas pouco depois. Em diversas vezes, a framerate peliça e provoca alguns solavancos na hegemonia gráfica pretendida. Felizmente, estas situações não acontecem frequentemente e não chegam para atrapalhar a jogabilidade, porém, notam-se algumas discrepâncias técnicas. Além disso, impera mencionar que a câmara de jogo também tem pontualmente os seus momentos com vontade própria, oferecendo planos poucos colaborantes com o que está a decorrer no ecrã. No campo sonoro, o trabalho é sólido. Sim, a vocalização não está entregue aos atores e atrizes originais, porém, aliada a uma banda sonora que empolga quase todas as tarefas, qualquer um perceberá as emoções que a produtora quer transmitir.

LEGO Marvel Super Heroes não reinventa a roda da fórmula que anda a explorar desde 2005, todavia, nota-se o limar de algumas arestas mais afiadas para o goto dos fieis devotos e dos recém-chegados à série. Na prática, têm muito que fazer, um cardápio de personagens que ilustra na perfeição o legado da Marvel, cenário aberto à exploração. Não podemos ignorar todos os pontos menos conseguidos descritos até aqui, mas também não posso deixar de deixar claro que, no seu todo, é uma experiência agradável e divertida, que atingem um tom maior quando partilhada com um amigo que, infelizmente, continua a ter que ser localmente.