Algumas pessoas ascendem pela criatividade. Essas manifestações são a base da arte, da cultura que deixamos que nos absorva. Se olharmos para um quadro ou se lermos um livro sabemos que estamos a apreciar o plateaux a que outra pessoa chegou. Os videojogos também são demonstrações de criatividade, de uma elevação alicerçada pelo técnico para que nos possamos perder naqueles mundos e naquelas histórias com aquelas personagens.

Todavia, há alguns videojogos que dão essa ferramenta a quem os compra. Minecraft, por exemplo, é criatividade a alimentar criatividade. Agora chegou ao mercado outra obra que pertence a uma índole parecida: LEGO Worlds. A Traveller's Tales pega nos ensinamentos da obra da Mojang e adapta-os ao universo LEGO, com um resultado que mesmo sem atingir grandes píncaros, não é um desastre total.

Imagens Analise LEGO Worlds

Depois de criada a nossa personagem, chegamos ao primeiro mundo. O derradeiro objetivo é atingirmos o estatuto de “Master Builder” recolhendo cem “Golden Bricks”. Para o alcançarmos, teremos que explorar incontáveis cenários de jogo, viajar na nossa nave, repetir o processo, bem como a ajuda de várias ferramentas, com as principais, pelo menos no meu caso, a serem a “Discovery Tool” e a “Landscape Tool”.

A primeira dá a oportunidade de apontarmos a tudo o que é novidade e de descobrir os itens, adicioná-los ao catálogo e, posteriormente, usá-los nas nossas próprias construções. A segunda permite modelar o terreno de jogo. Ainda que seja possível obter “Golden Bricks” de várias formas, as principais são realizando missões e explorando o cenário. Raios de luz indicam onde estão os tesouros no mapa, sendo da responsabilidade do jogador escavar a área à sua procura. Nem sempre o baú encontrado tem as peças brilhantes, mas é uma fórmula que cedo aprendem ser relativamente eficaz.

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Ou seja, na sua essência depurada, LEGO Worlds coloca-nos na pele de viajante pela galáxia, obtendo itens que aumentam o inventário e o catálogo disponível, que nos permitem melhorar a nave e viajar até planetas mais distantes, maiores, mais complexos: não é uma fórmula revolucionária, mas permite incontáveis situações em que predomina o sentimento de descoberta, em que o jogador sente que o universo é a sua concha.

Pelo caminho vão ficando mundos muito diferentes do que estavam quando os encontraram. Seja pela subtração - quando criam enormes crateras à procura dos baús - seja pela adição - quando resolvem criar algo novo. É possível criar construções peça a peça, tal como fazem em casa, Free Build, mas Worlds tem ferramentas pensadas para tentar não tornar o processo demasiado maçador, como a “Copy Tool”: apontam a algo que já exista no cenário e podem criar várias cópias.

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Mesmo dedicando incontáveis horas ao jogo, fazendo centenas de descobertas e recolhendo Studs suficientes para as desbloquear, nunca senti, mesmo com a ajuda de todas as ferramentas, que o processo de criação se conseguia afastar completamente da criatividade. Ou seja, o tempo, a paciência, e a perspicácia cirúrgica necessários para que o resultado final fosse parecido com o que imaginei é algo que incomoda, pelo que criar nunca é simplesmente isso, criar. 

Depois de terem todos estes processos disponíveis, não há uma forma correcta de jogar LEGO Worlds. Querem ir ver o que escondem as nuvens? Coloquem um helicóptero ou um avião no cenário. Querem o que está dentro de uma montanha? Arrasem metade da sua estrutura. O mesmo pode ser feito no fundo do mar, numa floresta, num vulcão, enfim, o jogo é um enorme recreio feito para o jogador alterar, modificar, destruir, tornar seu.

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E quando estiverem fartos do cenário que vos calhou em sorte, voltem à nave e escolham outro. Como vão acumulando as já mencionadas peças douradas, o jogo acompanha a vossa sede, com a nave a ser melhorada para viajar mais longe. Claro que alguns mundos são uma desilusão, onde não há pontos de verdadeiro interesse, onde exclamam a interrogação “Outra vez isto?”. 

Independentemente de tudo isto, é inegável que Worlds oferece muito, mas mesmo muito, para ser explorado. Aliás, é isso o melhor do jogo: por diversas vezes, em mundos que pareciam cinzentos inicialmente, acabei por me perder durante longos minutos em cavernas que se foram revelando à minha frente; acabei por chegar lá, onde ao longe me parecia ser algo interessante.

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O sentimento dessa descoberta é muito parecido ao da primeira descoberta de uma cidade, de um dragão, de várias raças de animais, de veículos que nos transportam para os conjuntos que a marca dinamarquesa produziu no mundo real. Há factualmente muito destas linhas de pensamento: vou ver até onde consigo escavar, vou ver o que acontece se terraplanar metade do cenário, vou ver até onde consigo voar e, lá do alto, vou ver até onde consigo mergulhar. Ou seja, estes “vou ver” e “até onde” alimentam a curiosidade e a curiosidade alimenta as horas dedicadas ao jogo.

Mas com o passar do tempo - e acreditem que têm que lhe dedicar muito, pois a possibilidade de criarem livremente só fica desbloqueada quando recolherem cem “Golden Bricks” - sente-se o cansaço. Não necessariamente a sensação de que já vimos tudo, mas sim a sensação que os processos para vermos tudo não são suficientemente diversos, com alguns a serem, como já mencionei, um teste à vossa paciência e delicadeza, pelo menos com um DualShock 4 nas mãos.

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Compreendo a necessidade de termos que desbloquear o que usaremos nas futuras construções e compreendo também que haja um preço virtual a pagar, mas as ferramentas todas reunidas não mantêm a sensação de novidade após a primeira dezena de horas. Ocasionalmente, fica a sensação que LEGO Worlds é mais estúdio de criação e menos videojogo com princípio, meio e fim.

Este sentimento é diluído com a presença de uma componente multijogador. É possível partilhar a vossa experiência com outro jogador de carne e osso sentado ao vosso lado e também através do online. Particularmente no multijogador local, sentarmo-nos ao lado de um amigo ou de um familiar e partir à aventura é revigorante, apesar de o pequeno mapa no canto superior do ecrã passar a ser quase ilegível.

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O lado técnico de Worlds tem várias componentes. A equipa britânica propõe-a a alcançar muito: os mundos gerados são compostos por milhares e milhares de peças LEGO e, pelo menos inicialmente, são diversificados. Cidades, cavernas, construções memoráveis que aparecem diante dos nossos olhos, vários veículos e até modelos de personagens: é, inquestionavelmente, um jogo ambicioso.

Infelizmente, a framerate tem quebras constantes que acabam por fazer mossa. O cenário tem fases em que demora segundos a carregar, não conseguindo acompanhar, por exemplo, a locomoção do jogar num avião. E por falar em tempos de carregamento, antes de aterrarmos num mundo nota-se um Loading mais longo do que seria desejado, algo que é parcialmente justificado pela quantidade de área que está a carregar.

Imagens Analise LEGO Worlds

Além disso, a câmara tem momentos muito frustrantes. No meu caso, senti diversas vezes isto quando estava a escavar no cenário e os planos da personagem acabaram por tornar essa tarefa frustrante. Tive oportunidade de dedicar o meu tempo a LEGO Worlds numa PlayStation 4 Pro, antes e depois de o jogo ser atualizado, mas o cômputo geral dos problemas manteve-se.

Será curioso perceber o que a comunidade fará com o jogo, como usará a matéria-prima para prolongar a sua vida útil e como a Internet será um veículo para partilha dos segredos que forem sendo descobertos. Como está, LEGO Worlds vale pela surpresa da descoberta e pela partilha da experiência com alguém de carne e osso. Se isto vos parece suficiente, sabendo que o factor novidade não tem emulsionantes que cheguem a médio prazo, como nota de rodapé saibam que a nova obra da Traveller's Tales custa 29,99€.