Há certas alturas em que os jogos se focam num determinado problema da nossa sociedade para salientar a importância da urgência de se procurar uma solução. Liberated é um obra que se encaixa neste género de jogos. Pode-se dizer que são teorias da conspiração, mas as obras literárias já abordam o mesmo tema de Liberated há décadas.

Quando alguém tem demasiado poder de decisão numa sociedade é perigoso e, normalmente, quem o tem é o governo ou alguém que o representa. Temos medo de cair numa realidade em que surja da democracia um governo com bases no autoritarismo e Liberated mostra-nos as razões desse medo num futuro em que o governo nos controla através do telemóvel.

A obra da produtora polaca Atomic Wolf tem um foco em confrontos entre as forças da autoridade e grupos rebeldes, que procuram a libertação do povo da opressão do governo. Neste mundo, apesar deste hipotético futuro não parecer muito distante, o governo controla os seus cidadãos através do telemóvel e de outros dispositivos que fazem parte de uma enorme infraestrutura de vigilância, que foi montada após um grave ataque terrorista de circunstâncias suspeitas.

O mundo opressivo do jogo tem uma polícia que atua como em Minority Report, se uma pessoa for sinalizada pelo sistema de vigilância esta é detida pela polícia ainda antes de ter tempo de cometer crimes. Liberated é também o nome de um grupo que luta pela liberdade e que está completamente fora do alcance do sistema de vigilância futurista. Este grupo, que é composto essencialmente por piratas informáticos, descobriu a verdade sobre este sistema e o que causou o ataque terrorista. Contudo, apesar deste jogo ser sobre a libertação da população deste sistema de monitorização, ao longo dos vários capítulos vão mudando de perspetiva; ora jogam com um detective, ora jogam com um dos piratas informáticos dos Liberated.

Esta obra polaca é uma autêntica banda desenhada, dividida em quatro revistas, com uns traços muito bem definidos que se lia perfeitamente se esta fosse impressa. A experiência salta entre assistirem a uma narrativa com uma pequena animação da revista e a jogabilidade propriamente dita. A animação vai de vinheta em vinheta, onde os desenhos monocromáticos ganham vida e até a muito boa vocalização dá uma outra dimensão de personalidade a Liberated, pois nem seria necessário tal, visto que quer emular uma obra que se lê. Porém, são as vinhetas com as secções de jogabilidade que enfraquecem a experiência.

Nas vinhetas onde o jogo nos dá a jogabilidade, a direção artística muda de grafismo, mantendo o aspeto monocromático da obra. Aqui vocês vão estar em secções onde se movem da direita para esquerda e, por vezes, no sentido oposto. Liberated não faz mais do que vos oferecer ação furtiva, onde têm de se esconder de vários inimigos para passarem despercebidos do local que querem infiltrar. No entanto, também vão poder contar com ação através de tiros que vão poder disparar para inimigos de carne e osso ou em drones que vos perseguem.

A proposta não é difícil, mas para quem não está habituado a um ligeiro incremento de dificuldade, à medida que se progride e se joga cada vez melhor, há um modo para sessões de jogo mais agradáveis. Caso vão pelo Player Mode, como o jogo deve ser jogado, contem com muitos mais inimigos para eliminar. Apesar de Liberated, quando temos de o jogar e não assistir à narrativa, ser um jogo de ação furtiva, onde nos movemos silenciosamente e escondidos dos inimigos, é muito mais simples varrer tudo a tiro e avançar. Pois, caso dêem um passo em falso e sejam descobertos terão que fazer o que já iam fazer numa abordagem agressiva.

Quando estão a jogar não podem escolher a arma que bem entenderem, normalmente jogam com uma pistola e só nos últimos níveis é que vos dão uma caçadeira e uma metralhadora. É praticamente indiferente o que escolhem, porque enquanto a pistola tem um bom controlo e precisão, as outras duas armas não têm as qualidades da pistola, mas compensam com um poder de fogo muito maior. O que é bom com a caçadeira é podermos despachar drones muito mais rápido, visto serem o inimigo mais pequeno e mais ágil, tornando-o mais difícil de atingir. Assim, com a caçadeira não é preciso fazer muita pontaria.

Além de terem que estar em tiroteios e escondidos nas sombras, vão ter alguns puzzles para resolver onde têm de fazer passar a corrente elétrica de uma ponta à outra, rodando todos os fios de um circuito embaralhado. Estas são algumas das melhores partes do jogo, mas é pena serem tão poucas, mas dado o contexto do jogo, entende-se de não fazerem de Liberated um jogo de puzzles. Infelizmente, era mais de ação furtiva, ou que fosse recompensada, que o jogo precisava, tal como a Klei fez com Mark of the Ninja.

O problema de Liberated é que a exploração dos temas interessantes que expõe não vai para além do superficial. A jogabilidade também não ajuda a entregar a mensagem profunda que podia apresentar. Tiros e mais tiros não permitem entregar uma narrativa focada num futuro dominado pelo autoritarismo.

E, apesar de ser interessante perceber ambos os lados do mesmo problema, na prática não ajuda a criar laços com as personagens com as quais passamos tanto tempo. O que vale é a apresentação fantástica que replica bem a experiência de folhear páginas de uma banda desenhada. No fundo, é uma banda desenhada à qual faltam algumas páginas para se tornar uma obra marcante.