Não são muitos clássicos de culto no panorama atual da indústria, mas não há como negar o estatuto de clássico de culto que Life is Strange atingiu após o seu lançamento. A aventura original de Max e Chloe surpreendeu e apaixonou milhões de jogadores - a equipa do VideoGamer Portugal incluída -, conseguindo uma popularidade que apenas as mais aclamadas obras da Telltale haviam obtido dentro do género episódico. A prequela Before the Storm apenas acentuou ainda mais esse facto, transformando a rebelde Chloe numa das mais bem caracterizadas e interessantes persoangens que este meio de entretenimento alguma vez criou.

Apesar disso, a Dontnod não teve medo de arriscar com a inevitável sequela. Life is Strange 2 tem o selo característico da série, mas é uma proposta bastante diferente do seu antecessor, optando por romper com vários dos elementos que fizeram dele um sucesso. Em vez de duas protagonistas, temos dois protagonistas. Em vez de uma pacata vila piscatória em que toda a gente conhece toda a gente, temos personagens em constante movimento pelos Estados Unidos. Em vez do ambiente escolar, temos a solidão da estrada. Em vez controlarmos a personagem com poderes sobrenaturais, somos o seu companheiro de viagem.

Acima de tudo, Life is Strange 2 tenta entregar uma experiência distinta do original sem perder aquilo que melhor a caracteriza, isto é, a capacidade para alternar entre o tom jovial de uma história protagonizada por jovens e o tom mais pesado proporcionado pelos eventos que vão ocorrendo na vida dos mesmos. Com Roads, o primeiro dos cinco episódios da sequela, a produtora dá-nos um primeiro olhar sobre a narrativa que pretende contar e, mais importante que isso, a forma como pretende contá-la.

Infelizmente, enquanto episódio isolado e sem conhecimento do que está para vir, a estreia do título levanta mais perguntas do que aquelas que responde. Desta vez acompanhamos a aventura de Sean, um adolescente e a personagem jogável da obra, e do seu irmão mais novo Daniel, ainda longe da adolescência e o detentor do poder sobrenatural, à medida que este vão fazendo o seu caminho até ao México após os eventos traumáticos que marcam a abertura do episódio.

Aqueles que jogaram Captain Spirit reconhecerão os irmãos e o poder sobrenatural em questão pela sua breve presença na conclusão do mesmo, cujos eventos têm lugar após        este primeiro capítulo da sequela. Obviamente, a relação entre os irmãos Diaz é o principal foco do episódio, mas o que aqui é retratado não é suficiente para nos investir de imediato nas suas vidas. Isso deve-se em parte ao facto de Life is Strange colocar as personagens em situações de dificuldade ainda antes de nos dar a oportunidade de as conhecer verdadeiramente.

Não existe praticamente introdução à relação entre os dois antes do salto temporal que se verifica após o tal evento traumático que leva à fuga sem grande preparação por parte dos jovens. Quando somos efetivamente introduzidos à dinâmica entre os irmãos já eles estão há vários dias na estrada, o que significa que é já na estrada que o jogo tentará cativar-vos para esta relação. Os resultados são mistos, até porque a própria narrativa assim o dita ao colocar apenas o irmão mais velho consciente do evento em questão. Este desconhecimento de Daniel faz com que se sinta sempre uma barreira invisível entre os dois.

Claro que há momentos de qualidade entre os dois, momentos que nos relembram da tenra idade dos protagonistas, momentos de tranquilidade no meio do turbilhão em que se encontra a sua vida, mas são precisos mais e mais significativas interações entre eles para conferir um maior impacto a esta história, algo que este episódio não consegue ao apresentar demasiados momentos mornos e um ritmo excessivamente longo. 

Na verdade, Roads está no seu melhor quando Sean está acompanhado por mais alguém que não apenas o irmão e é aí que surge uma das principais dúvidas em relação a esta temporada. Tendo em conta a deslocação permanente dos dois irmãos e o seu frequente isolamento, as poucas interações com um elenco secundário devidamente caracterizado e capaz de elevar ainda mais a relação entre os irmãos que será sempre o foco principal da obra poderão ser um problema. 

Não deixa de ser curioso que a parte mais interessante do episódio seja efetivamente o seu arranque, ou seja, os momentos que antecedem à fuga de Sean e Daniel, as interações com a melhor amiga de Lyla, de longe a personagem mais cativante das que marcam presença neste episódio, e Esteban. É nas interações entre as personagens que Life is Strange mais se destaca, pelo que é uma pena que Sean e Daniel não tenham ainda os momentos necessários para catapultar a sua relação para outros níveis emocionais.

Para além do foco na relação entre os irmãos, Roads oferece também um olhar sobre algumas das temáticas mais sombrias que vão acompanhar a temporada, temáticas bastante atuais e aplicáveis a todo o mundo, mas com especial incidência no atual clima político dos Estados Unidos. Life is Strange não tem na subtileza com que trata os seus temas mais pesados uma das suas melhores características e isso volta a ser verdade na sequela, com alguns momentos a parecerem pouco autênticos e demasiado exagerados, pelo que é preciso aguardar para perceber como a produtora lidará com os mesmos no futuro.

No departamento técnico, Life is Strange 2 mantém-se fiel aos antecessores, recorrendo ao mesmo estilo visual que é capaz de proporcionar vistas extremamente belas, mas cuja modelagem das personagens está longe de ser a mais apelativa. Há certamente melhorias visuais em relação ao que veio antes, contudo, há também animações que continuam bastante questionáveis. Por sua vez, a banda sonora - um dos elementos mais identificadores da série - volta a apresentar-se a um grande nível, seja no acompanhamento musical original ou na escolha das músicas licenciadas para elevar determinados momentos da história.

Não é uma estreia arrebatadora, como dificilmente poderia ser tendo em conta a rotura quase total com a aventura original, mas ainda assim Roads é um começo sólido para aquilo que se espera que seja mais uma aventura emocionalmente carregada. A relação e a dinâmica entre Sean e Daniel precisa claramente de mais tempo para maturar e a aparente inexistência de um elenco secundário permanente causa alguns receios, mas há aqui matéria prima para a Dontnod entregar algo especial.