Numa altura do ano dedicada a balanços daquilo que os meses transatos tiveram para oferecer, ditou o absolutamente horrendo calendário de lançamentos dos episódios de Life is Strange 2 que também o momento de analisar a sua conclusão e o trajeto até aqui coincidisse com os últimos fôlegos de 2019. A sequela do título que, para todos os efeitos, colocou a Dontnod no mapa da indústria, tinha várias barreiras para ultrapassar de forma a conseguir replicar o sucesso do original, algo que se fez sentir nas opções tomadas pela produtora.

Para lá do modelo episódico, do género em que se insere e do elemento sobrenatural, os pontos de contacto entre a aventura dos irmãos Diaz e a história de Chloe e Max são praticamente inexistentes, tanto que esta podia perfeitamente ostentar um outro nome que não atraísse tão rápido as comparações menos favoráveis. Percebe-se que o estúdio gaulês tenha tentado ao máximo proporcionar algo diferente, sobretudo na maneira como construiu uma narrativa com temáticas mais adultas e atuais, bem como um elenco secundário em constante rotação.

Não é, como já tive oportunidade de referir nas análises alusivas aos episódios anteriores, uma opção que me tenha agradado, especialmente quando Life is Strange 2 está recheado de personagens que deixam a sua marca no jogador durante o curto tempo de antena a que têm direito. São estes nomes que entregam os melhores momentos da obra, as conversas e interações que dão mais profundidade aos dois protagonistas e os fazem crescer. São eles que prendem esta história à realidade e é através deles que mais facilmente nos identificamos com a vida destes irmãos.

Esse é, porventura, um dos maiores problemas desta sequela, isto é, a forma como tantas vezes quebra a imersão ao construir cenários e momentos narrativos em relação aos quais é bastante difícil não olhar com bastante incredulidade. Ao contrário do poder de Max, que apenas era visível para ela e para os jogadores, mas não tinha um impacto percetível junto daqueles que lhe eram mais próximos, o poder de Daniel tem efeitos bastantes óbvios e visíveis no mundo que os rodeia. É um poder impossível de esconder e que, sempre que é utilizado de forma mais liberal, cria cenas que parecem saídas de um espalhafatoso filme de ação de Hollywood.

Faltou muitas vezes algum tacto e contenção por parte da equipa de produção para não deixar a história fugir para um território no qual se começa a criar uma separação clara entre as temáticas bastante reais que quer abordar e o surreal das situações que nos apresenta. Seja o poder do mais novo dos Diaz ou os antagonistas extremados e sem qualquer ponta de característica redentora ou de justificação para os seus comportamentos, Life is Strange 2 afasta-se em demasia do realismo em que a sua história está enraizada e sofre com isso. 

Talvez o problema principal da aventura esteja logo no seu arranque, na motivação para a fuga dos irmãos e na perpetuação da mesma quando, francamente, existem poucos motivos para tal. Aliás, o próprio capítulo final da aventura alude para esse facto. Tudo o que fizeram após o início da fuga apenas serviu para cimentar ainda mais os seus destinos, ao ponto de se tornarem uma inevitabilidade. Isto porque se tornou cada vez mais difícil acreditar que, depois de tudo aquilo porque passaram, do rasto que deixaram por todos os locais onde estiveram, o desfecho pudesse ser muito diferente daquele que acabou por se verificar, havendo por isso apenas dois finais possíveis com algumas variantes pelo meio.

Dito isto, é de salutar a forma como as nossas decisões ao longo dos vários episódios determinam o final da nossa aventura, final esse que pode até nem corresponder por completo à vossa última decisão em Wolves, título do quinto capítulo de Life is Strange 2. Daniel também tem uma palavra a dizer nesse desfecho e é através das indicações que lhe fomos dando enquanto Sean até então que será moldado o seu comportamento no momento decisivo. É uma pena, no entanto, que os últimos minutos sejam apenas uma montagem de fotografias a ilustrar a passagem do tempo e não haja qualquer interação relevante após as consequências da decisão final.

Tal como o caminho até aqui, também o último episódio é feito de altos e baixos, muitos deles já elencados nos parágrafos anteriores. A primeira metade é um claro exemplo do que de melhor a obra tem para oferecer. Não só está repleto de interações significantes com um elenco secundário diversificado e com muita história para contar, como também inclui aquele que é provavelmente o melhor momento a sós entre os irmãos, o único em que conversam como iguais, sem segredos, quezílias ou simulação de uma relação pai/filho. É também um raro momento de tranquilidade na vida dos dois e um arranque de episódio bastante seguro.

Dificilmente será segredo nesta fase, mas Wolves faz também regressar um nome importante da aventura original e ganha imenso com isso. Não só a execução da cena é brilhante, como acaba por nos dar um vislumbre do que aconteceu depois dos eventos em Arcadia Bay que muitos não esperavam alguma vez vir a ter. É um momento que nos relembra com sucesso do impacto que estas personagens tiverem junto do jogador e as muitas memórias que ainda guardamos delas.

A segunda metade é marcada pelos problemas inerentes à história que a Dontnod se propôs a contar. Muito caos, muita destruição, muitos momentos em que é necessária uma grande capacidade para ignorar o quão fora de lugar e exagerados parecem os eventos quando comparados com as conversas, as personagens e os temas bastante reais que experienciamos na metade anterior. Estas questões não estragam por completo tudo aquilo que há para ser louvado nesta aventura, mas diluem de forma decisiva a sua eficácia.

Agora que terminou, Life is Strange 2 sai de cena, deixando um certo amargo de boca. Sim, é verdade que os longos meses entre episódios não lhe fizeram grandes favores, sobretudo no momento de gerar o burburinho necessário para chegar ao maior número de pessoas possível, mas os seus defeitos mais problemáticos são outros. Personagens secundárias que ficam por aproveitar e um destino que parece ficar traçado na primeira hora do episódio de estreia acabam por originar uma aventura que tem momentos de brilhantismo, mas está longe de ser brilhante.