Foi com misto de entusiasmo e ceticismo que muitos jogadores receberam a notícia de que Life is Strange, a aclamada aventura juvenil da autoria da Dontnod, iria receber uma prequela protagonizada por Chloe Price, uma das personagens centrais da narrativa da obra original. Sabia-se, mesmo antes do seu anúncio oficial, que a série Life is Strange ia continuar, tal foi o sucesso da sua temporada de estreia, mas poucos estariam à espera de, ironicamente, fazer regressar o tempo atrás para visitar Arcadia Bay e a Blackwell Academy antes do regresso de Max Caulfield à pacata cidade piscatória.

Before the Storm Ep 1 Imagens Analise

As razões para temer o pior eram muitas. Em primeiro lugar, a história seria uma prequela que, pelo menos na indústria dos videojogos, tem um historial de raramente conseguir estar à altura das obras principais. Para além disso, Before the Storm propunha-se a explorar uma linha narrativa que não só está bastante ligada ao jogo original, como aqueles que o concluíram ainda estarão bem recordados do seu desfecho. Em segundo lugar, a prequela não está a cargo da produtora original, mas sim da Deck Nine Games, uma produtora à procura de provar o seu valor. A juntar a tudo isto, a voz da nova protagonista, Ashly Burch, não regressou para vocalizar Chloe devido à greve da SAG-AFTRA, embora tenha continuado envolvida no projecto como guionista.

Ainda assim, mesmo com todos estes receios e gestão de expectativas, o entusiasmo dos fãs para regressar ao mundo de uma das mais surpreendentes e memoráveis aventuras dos últimos anos era mais do que suficiente para justificar o risco de saírem altamente desapontados. Felizmente, concluído o primeiro capítulo da trilogia de episódios que compõe Before the Storm, fica claro que não estamos apenas perante uma obra que tenta capitalizar o sucesso do jogo original, mas sim perante uma experiência que pretende expandir um mundo extremamente interessante e explorar o passado, mostrando um lado diferente, de umas suas personagens centrais.

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Awake, título do primeiro episódio da prequela, afastou rapidamente todos os receios e pensamentos cínicos da minha mente e relembrou-me das razões que me fizeram gostar tanto de Life is Strange: uma aventura capaz de utilizar o tom juvenil das suas personagens e localização para entregar uma narrativa carregada de momentos emocionais e temáticas mais sombrias. Tendo em Chloe o principal ponto de contacto com a aventura original, Before the Storm consegue entregar uma experiência diferente, mas bastante relevante, ao mesmo tempo que conserva os melhores elementos do seu antecessor.

Ao utilizar o conhecimento prévio da personagem por parte do jogador, a produtora aproveita esta prequela para nos mostrar o mundo da protagonista diretamente pelos seus olhos, sem o filtro de Max por perto. Ainda sem o seu icónico cabelo azul e com a vida escolar a fazer, embora de forma muito reduzida, parte do seu dia-a-dia, o primeiro episódio de Before the Storm faz um excelente trabalho em transportar-nos para uma localização previamente explorada, mas que se apresenta de forma totalmente diferente devido à perspetiva distinta que Chloe tem de Arcadia Bay.

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Tal como já referi, a prequela de Life is Strange foca-se em Chloe e na sua relação com Rachel, a rapariga mais popular de Blackwell e personificação da adolescente perfeita que forma um súbito e inesperado laço de amizade com a protagonista. Apresentadas quase como lados opostos de uma moeda - de um lado a rebelde e não raras vezes irresponsável e do outro a estudante com notas excelentes e extremamente ativa nas mais diversas atividades extracurriculares -, Awake serve essencialmente como introdução a esta relação, não perdendo grande tempo em nos mostrar que são vários os pontos em comum entre as duas raparigas.

Dito isto, a qualidade do arranque de Before the Storm vai muito para além desta relação. Na verdade, durante mais de metade do episódio estamos simplesmente a acompanhar a vida da problemática jovem, a sua demanda para entrar num concerto clandestino, a sua relação com a mãe e futuro padrasto, bem como a sua estadia cada vez mais em risco no liceu de Arcadia. Todos estes momentos resultam porque Chloe é uma protagonista de enorme qualidade capaz de cativar o jogador através do seu humor não raras vezes macabro, atitude rebelde perante a autoridade e as habituais inseguranças típicas da adolescência.

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Com exceção para os minutos finais, Awake é um episódio com um ritmo lento, mas que resulta, pois para além da protagonista cativante, a prequela conta igualmente com um elenco secundário de qualidade que se estende muito para lá de Rachel. Captando simultaneamente a magia e a monotonia da vida de estudante e adolescente, o ritmo lento é compensado pelas interações com o mundo e personagens que nos rodeiam. Seja ouvir a demo da banda do segurança do liceu ou passar dez minutos a jogar Dungeons & Dragons no jardim antes do início das aulas, o primeiro episódio de Before the Storm tem nestas interações totalmente opcionais alguns dos seus momentos mais conseguidos, momentos que nos mostram, literalmente, adolescentes a ser adolescentes.

A produtora Deck Nine Games merece igualmente ser elogiada por não cair no erro de exagerar nas referências ao jogo original, evitando focar-se em personagens que já conhecemos como Victoria Chase ou Nathan Prescott. Sendo uma prequela que tem lugar na mesma escola à qual Max Caulfield se juntará futuramente, faz sentido que algumas das personagens dessa aventura marquem presença aqui, mas essas mesmas personagens já tiveram direito à sua caracterização e desenvolvimento, pelo que seria redundante voltar a concentrar nelas as atenções. Felizmente, Chloe tem tendência a passar muito pouco tempo em Blackwell, o que significa que esta questão dificilmente será um problema em capítulos futuros.

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Tal como o jogo original, a jogabilidade de Before the Storm foca-se na exploração do cenário, na escolha de opções de diálogo e na tomada de decisões que podem, ou não, ter consequências no rumo dos acontecimentos e na forma como as vossas relações com as restantes personagens evoluem. Sem o poder sobrenatural de Max para rebobinar o tempo, Chloe tem como habilidade especial o talento de Backtalk, isto é, de argumentar - que é como quem diz insultar -, para conseguir aquilo que quer ou pelo menos atacar aqueles que se colocam no seu caminho.

No fundo, isto traduz-se numa espécie de minijogo em que têm de utilizar as declarações da vossa “vítima” para ganharem a discussão. É, essencialmente, uma forma de colocar em destaque o lado mais rebelde e conflituoso da protagonista. Esse lado é também realçado com a tendência de Chloe para o vandalismo ligeiro que vos dá a oportunidade de deixar mensagens espalhadas por Arcadia Bay. Pensem nestes graffiti como um substituto das fotografias tiradas por Max em Life is Strange e não andarão muito longe da verdade.

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No que diz respeito ao departamento técnico, Before the Storm é em tudo semelhante ao seu antecessor, ou seja, uma obra com um estilo visual facilmente reconhecível que continua a ser capaz de produzir uma experiência esteticamente agradável com cenários bonitos, mas que deixa algo a desejar na modelagem e animações das personagens que continuam a parecer demasiado plásticas. Por sua vez e tal como no título original, a banda sonora é novamente excelente, voltando a recorrer a um misto entre músicas licenciadas e faixas originais desenvolvidas pela banda Daughter.

Life is Strange: Before the Storm é uma prequela que ninguém pediu e que muitos julgavam ser desnecessária. Dito isto, com o primeiro episódio já disponível, fica desde já claro que o regresso a Arcadia Bay não será penoso como os mais pessimistas poderiam pensar, mas sim uma experiência capaz de expandir uma série e uma história de enorme qualidade com algo de igual valia. Com uma protagonista capaz de carregar os momentos mais mornos da aventura e um elenco secundário cativante, Awake é um início muito, mas mesmo muito prometedor.