por - Jan 29, 2016

Life is Strange – Primeira Temporada Análise

O tempo, tantas vezes cruel e implacável, é a única das várias dimensões da vida que está completamente fora do controlo de qualquer entidade. Independentemente dos nossos esforços, o tempo prossegue sempre no mesmo ritmo e sem nunca parar para pensar ou oferecer segundas oportunidades. Curando feridas ao mesmo tempo que vai criando novas, a sua passagem deixa marcas irremediáveis, sejam elas positivas ou negativas, em todos aqueles sujeitos à sua ação.

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Vivos ou inanimados, conscientes ou inconscientes, nada fica indiferente à passagem do tempo e aos seus efeitos e consequências. Se os seres vivos vão envelhecendo e amadurecendo através das suas experiências pessoais, o mundo que os rodeia vai sendo moldado de igual forma pelo avançar dos anos com rochas e construções de pedra a serem erodidos pela chuva e vento e estruturas de metal a serem lentamente oxidadas até um estado de ferrugem. O tempo não para e tentar travá-lo ou alterar o seu progresso natural torna-se assim um material extremamente apelativo para obras de ficção.

Life Is Strange pega neste conceito e corre com ele para entregar uma das experiências mais interessantes que chegaram ao mercado durante o ano 2015. Aproveitando a recente chegada do título episódico ao retalho, olhamos agora para a obra produzida pela Dontnod Entertainment, estúdio responsável pelo ambicioso, mas desapontante Remember Me, como uma proposta coesa e oficialmente concluída para perceber se, com os seus cincos capítulos já disponíveis, estamos perante um jogo memorável ou se, pelo contrário, estamos perante uma experiência que fica aquém daquilo a que se propôs oferecer.

Ao longo da sua aventura, que pode perfeitamente chegar às 12 horas de duração, o jogador é colocado na pele de Max Caufield, uma jovem que regressa a Arcadia Bay cinco anos após a sua família se ter mudado para Seattle para concluir o curso de fotografia e assim seguir uma carreira profissional no mundo artístico. Com claros problemas em lidar com as dinâmicas sociais da vida adolescente e um constante medo do fracasso e da rejeição, a protagonista encontra na sua melhor amiga de infância Chloe Price, com a qual já não falava desde a sua mudança de ares, um pouco da simplicidade e felicidade dos tempos de criança.

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Após uma visão assustadora do futuro, Max salva a vida da sua melhor amiga, utilizando a sua poderosíssima habilidade de fazer recuar o tempo e dessa forma alterar o curso natural dos acontecimentos. A partir deste momento, as duas amigas voltam aos poucos a recuperar a amizade que mantiveram durante a maioria das suas infâncias e com a ajuda dos poderes da protagonista vão lentamente desvendando os segredos mais negros e bem guardados de Arcadia Bay e do seu conceituado liceu, Blackwell Academy.

Isto é tudo o que precisam de saber antes de arrancarem com o vosso progresso em Life Is Strange, uma vez que qualquer informação adicional que possa fornecer sobre a narrativa apenas teria o condão de afetar negativamente a vossa experiência com o jogo. Tal como em todas as obras que dão ênfase às decisões do jogador e no modo como estas afetam o desenrolar dos eventos, a narrativa é o elemento central do título e será através das constantes revelações e reviravoltas que o jogador se manterá investido na experiência.

Apesar da forte componente sobrenatural da obra, tendo em conta a habilidade da sua protagonista para controlar o tempo, o arco narrativo brilha sobretudo quando se foca nos elementos mais reais e identificáveis da vida das suas personagens, pois são esses os momentos que contribuem para ligação que se vai estabelecendo entre quem controla a ação e os intervenientes na narrativa à medida que esta vai avançando. 

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As rivalidades e picardias com colegas, o abuso psicológico e temáticas como a perda de alguém querido ou o uso de narcóticos, todos estes momentos têm muito maior ressonância com o jogador do que a habilidade fantasiosa de fazer recuar o tempo. A componente sobrenatural serve essencialmente para progredir a história e revelar aquilo que poderia ter sido, tivesse determinado momento desencadeado uma sequência diferente de eventos, mas essas situações só têm o impacto que tem devido às personagens nelas envolvidas e suas interações. 

Com o foco praticamente constante em Max e Chloe e na sua relação, Life Is Strange aproveita os primeiros episódios para introduzir o seu vasto leque de personagens e a relação da protagonista com cada uma delas, oferecendo progressos muito pouco significativos no arco narrativo geral. Felizmente, esta é uma das principais vantagens de jogar os episódios de forma consecutiva, uma vez que de outra forma estaríamos perante pedaços de conteúdo sólidos, mas que não conseguem ter o impacto desejado no jogador.

No entanto, o facto de a atenção estar constantemente virada para as duas amigas faz com que a vasta maioria das personagens secundárias sejam praticamente ignoradas durante toda a aventura, servindo apenas para conversas opcionais que pouco ou nada contribuem para a narrativa ou para fazer-nos importar com o destino das mesmas. Contam-se pelos dedos de uma mão as personagens secundárias que ficam cravadas nas memórias do jogador, o que me faz pensar que o título teria bastante a ganhar se reduzisse o seu elenco e se tivesse focado ainda mais naquelas que merecem de facto a nossa atenção.

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Como seria de esperar, uma obra que lida de forma constante com a capacidade da sua protagonista para manipular o tempo, a narrativa não tem medo de enveredar pelos conceitos de viagens no tempo e de linhas temporais alternativas, sobretudo nos seus capítulos finais. Infelizmente, Life Is Strange usa e abusa destes conceitos de tal maneira que acaba por diluir bastante o impacto emocional dos eventos que têm lugar durante esses momentos. 

Uma cena no episódio final da obra sofre claramente com isso, sobretudo devido ao número de vezes que nos faz regressar ao mesmo momento. Uma situação que começou por ter uma tensão palpável a ela associada, mas que no final desse fio narrativo acabou por perder todo esse impacto no jogador. Isto é especialmente problemático porque provoca uma desconexão entre o estado emocional da personagem e o jogador, algo que o título trabalhou durante todos os capítulos anteriores para cimentar.

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Na verdade, a capacidade de Max para fazer recuar o tempo tem resultados bastante mais positivos quando está ao serviço da jogabilidade do que quando tem como objetivo movimentar a narrativa. Tal como as obras recentes da Telltale, Life Is Strange é um título de aventura que permite ao jogador abordar as situações da maneira que bem entender, escolhendo entre várias opções de diálogo e explorando os cenários para obter mais informações sobre o mundo e as pessoas que rodeiam a história da protagonista.

Fazendo uso da habilidade da jovem fotógrafa, o título diferencia-se de outras entradas do mesmo género pelo facto de o jogador poder recuar no tempo para alterar a sua escolha. Ainda assim, esta possibilidade tem, como é óbvio, alguns limites para a sua utilização, ou seja, a transição para o capítulo seguinte do episódio impede-vos de recuar até aos acontecimentos do capítulo anterior. 

A qualidade desta mecânica é que, mesmo que estejam seguros da vossa decisão, existe sempre a curiosidade de ver como as personagens reagiriam se a nossa opção fosse outra. No entanto, utilizar este poder de Max apenas nos permite ver as consequências imediatas da nossa decisão, permanecendo assim as consequências a longo prazo envoltas em mistério. Apesar disso, o jogo faz questão de relembrar o jogador as situações em que pode recuar no tempo para obter informações, bem como de salientar as decisões que afetam a história.

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Desde o momento em que iniciam a aventura, a produtora afirma que as vossas escolhas têm impacto no presente, passado e futuro da história de Max Caufield e, terminados os cinco episódios, essa frase é incontestável, mas a verdade é que os constantes saltos entre linhas temporais alternativas dificultam bastante a tarefa do jogador em compreender as decisões que tiveram de facto impacto no desfecho da narrativo.

No que diz respeito ao departamento técnico, Life Is Strange deixa bastante a desejar em várias componentes. Em primeiro lugar, o grafismo, sobretudo na modelagem das personagens, está longe de ser o mais apelativo, sendo que apenas os efeitos de luz e atmosféricos salvam a aparência do título através da produção de cenários lindíssimos. Em segundo lugar, o sincronismo entre o som e os movimentos dos lábios é muito fraco e por vezes até inexistente, como se a personagem estivesse a ter um monólogo interior ao invés de um diálogo.

Juntando a isto alguns soluços na framerate e um trabalho de vozes que tem altos e baixos, percebe-se rapidamente que a obra da Dontnod beneficiaria bastante de um polimento adicional. Felizmente, o jogo conta com uma banda sonora de excelente qualidade, contando com músicas originais e músicas licenciadas, que captam na perfeição as temáticas e a atmosfera da aventura de Max.

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Life Is Strange é uma obra que, apesar de possuir vários problemas, sobretudo na sua componente técnica, é bastante difícil de não recomendar a qualquer jogador que procure uma narrativa rica e marcante nos seus jogos. Abordando temáticas adultas e não tendo medo de levar a sua narrativa e personagens a lugares bastante obscuros, a obra da Dontnod prova a qualidade do estúdio para produzir histórias envolventes que, embora contem com um forte elemento sobrenatural, nos oferecem experiências bastante reais e que ficarão com o jogador muito depois de os créditos acabarem de rolar pelo ecrã.

veredito

Life Is Strange é uma aventura especial que, embora não esteja isenta de problemas, deixa as suas marcas e ficará com o jogador muito depois dos seus créditos acabarem de rolar pelo ecrã.
8 Banda sonora excelente. Impacto emocional. Utilização em demasia de algumas mecânicas narrativas. Problemas técnicos.

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Lançado originalmente:

19 January 2016