Dizer que um jogo não é para todos tem exatamente a mesma relevância e valor que dizer que nem todos gostam das mesmas coisas. É uma constatação do óbvio, mas há qual recorremos com frequência sempre que nos deparamos com algo de que gostamos, embora saibamos que estamos inseridos num grupo minoritário que partilha a mesma opinião. Little Red Lie encaixa perfeitamente nesta vaga descrição, mas de uma forma distinta, isto é, no sentido em que nem todos o devem jogar.

Como escrevi no resumo desta análise, o novo título do criador de Actual Sunlight - obra que colocou o dedo na ferida na temática da depressão - é uma experiência difícil de encarar em alguns momentos, desconcertante noutros e, por vezes até, demasiado, mas mesmo demasiado real. Um dos maiores elogios que posso fazer à obra de Will O’Neill é que me colocou com frequência bastante desconfortável, com vontade de parar de jogar por uns momentos para me recompor daquilo que não estava preparado para enfrentar, algo que muitos poucos - se é que algum - jogos o conseguiram fazer.

Little Red Lie Imagens Analise

Claro que existem aqui coincidências nas linhas narrativas da obra que serviram de reflexo às minhas experiências pessoais e que provavelmente não terão o mesmo impacto junto de outros jogadores, contudo, Little Red Lie tem um pouco de todos nós. Little Red Lie é um espelho da sociedade em que vivemos e, seja de uma forma ou de outra, encontrará maneira nos fazer refletir sobre a nossa vida e de colocar um pouco - ou se calhar até muito - de nós nas suas personagens.

Sob as lentes do Niilismo, este é um jogo com uma visão negra da vida e da existência humana. A forma como a excelente escrita nos apresenta as suas personagens e nos transmite essa visão é eficaz e quiçá até convincente. Aqui não se deixa nada por dizer, não há meias palavras, não há uma lógica sob a qual o progredir de uma vida se deve reger, uma justiça que premeie os “bons” e castigue os “maus”. Aqui existe apenas a realidade, ou pelo menos, a realidade destas personagens, a sua visão deturpada de um mundo que não é simpático, que não tem um sentido propriamente dito, que se está a borrifar para o que consideram ser justo ou injusto.

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Tendo em conta que praticamente todo o nosso tempo será passado a ler texto, era imperial que a escrita estivesse à altura e, como já referi, é esse o caso. Bruta, pujante, mas nunca falsa, o jogo utiliza a mente dos seus protagonistas para entregar o seu comentário social de forma bastante afiada, não deixando nada por dizer e forçando constantemente o jogador a olhar para si mesmo, a refletir sobre a sua vida e motivando-o a pensar criticamente sobre tudo o que lhe é apresentado.

Uma vez que estamos perante uma obra que tem na sua narrativa o seu principal trunfo, quanto menos souberem sobre a mesma à partida mais eficaz será a sua mensagem. Ficamos, por isso, pelo básico. Little Red Lie divide-se em duas histórias distintas, dois protagonistas que parecem mais diferentes do que são, duas vidas com diferentes problemas, motivações e destinos. Sarah Stone é uma mulher à porta dos 40 anos, desempregada, a viver de novo com os pais já idosos e com uma irmã problemática. Arthur Fox é um orador motivacional, um manipulador profissional, um sociopata rico e com a vida aparentemente perfeita.

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Ao longo das cerca de 5 horas de duração da aventura, o jogador terá de lidar com constantes mentiras. Pequenas mentiras de pouca importância, mentiras de alta gravidade e, mais do que tudo, mentiras a si próprio. Apesar do título do jogo nos dar a entender que todo o texto que surge a vermelho é uma mentira, a verdade não é assim tão simples. Nunca é. Se Sarah Stone mente sobretudo para evitar magoar aqueles que gostam de si, Arthur Fox mente para preservar a sua persona, para afastar a ideia de que a sua felicidade não passa, também ela, de uma mentira.

Acima de tudo, Little Red Lie é sobre as mentiras que dizemos a nós próprios, aquilo que temos dificuldade em aceitar como verdade, o conceito de felicidade e tudo o que isso envolve. Trabalho, amor, media, redes sociais, entretenimento, amizades, família, enfim, não existe um tema verdadeiramente importante que não seja aqui chamado ao barulho e sempre com o mesmo pessimismo, com a mesma vontade de nos aplicar mais um soco no estômago. O facto de ter lugar numa época contemporânea à nossa faz também com que seja muito fácil ao jogador traçar paralelos com as dificuldades das personagens e as situações pela quais são forçadas a passar.

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Mentir é a palavra chave desta experiência e é através dela que interagimos com tudo e todos. As escolhas de diálogo não são verdadeiramente escolhas de diálogo, são sim os verdadeiros pensamentos das personagens, aquilo que não têm coragem de dizer, e servem sobretudo como mais uma forma de acesso do jogador à mente dos protagonistas do que para ter qualquer influência na narrativa, algo que nunca têm. 

Infelizmente, isto também significa que a agência do jogador é praticamente inexistente durante a aventura. Sim, controlamos o movimento da personagem em alguns segmentos, mas é só isso. A nossa participação nos eventos é essencialmente nula, o que significa que o título não aproveita na totalidade aquilo que torna este meio de entretenimento diferente, isto é, a sua interatividade.

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No que diz respeito ao departamento técnico, Little Red Lie alterna entre visuais pixelizados acompanhados por caixas de texto e imagens estáticas pintadas à mão para salientar momentos de maior importância. O estilo visual retro é sólido, mas penso que a obra beneficiaria com a utilização mais frequente das imagens pintadas à mão, especialmente em momentos nos quais a nossa interação se resume ao avançar do diálogo. Por sua vez, a banda sonora opta por uma abordagem minimalista, o que faz sentido, já que a temática e o tom da obra não se prestam a grandes ou épicos arranjos musicais.

Little Red Lie pode não retirar o maior proveito do meio de entretenimento em que se insere, mas isso não o impede de entregar algo de valor e importância inegável, algo que merece a atenção de mais jogadores. É uma experiência frequentemente crua e desagradável, mas é precisamente esse o seu objetivo, ou seja, entregar a sua mensagem sem quaisquer rodeios e de forma convincente, concorde-se ou não com ela. É uma obra que precisa de ser jogada com a cabeça limpa tal é brutalidade com que aborda temas sensíveis, mas é um daquele tipo de histórias absolutamente necessárias.